Silêncio ensurdecedor confirma um insight central no papado de Francisco

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Os católicos ainda leem? Sinodalidade e a “Igreja que escuta” nesta era digital. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Estou obcecado pelo Evangelho. O Evangelho não é Religião. Artigo de José María Castillo

    LER MAIS
  • Tenho medo dos padres

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


30 Mai 2017

O cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve recentemente coisas polêmicas a dizer sobre “Amoris Laetitia”, documento papal a respeito da família, e sobre diaconisas. O fato de poucos terem reagido confirma um insight central em relação ao Papa Francisco: o de que a sua rede de assessores informais é bem mais importante do que os organogramas vaticanos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 28-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Existe uma velha questão filosófica sobre se uma árvore, que cai na floresta não havendo ninguém para ouvi-la cair, faz barulho ou não. De modo semelhante, podemos perguntar se um suposto peso-pesado vaticano polemiza e ninguém reage, será que ele realmente é um peso-pesado?

Essa pergunta faz sentido à luz de uma entrevista fascinante conduzida em 12 de maio com o cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF, entrevista feita por Raymond Arroyo, do canal de tevê católico EWTN. A entrevista foi exibida na última quinta-feira.

No diálogo, temos muitos pontos interessantes, mas provavelmente o de maior valor noticioso são os comentários de Müller sobre “Amoris Laetitia”, documento papal sobre a família que pareceu abrir uma porta, ainda que de modo cauteloso, à Comunhão por parte dos fiéis divorciados e recasados no civil, e sobre a ordenação de mulheres ao diaconato, algo relevante dada a decisão do Papa Francisco de criar uma comissão para estudar a ideia.

Sobre Amoris Laetitia, Müller manifestou a frustração de que alguns bispos e conferências episcopais trouxeram interpretações contraditórias do que se afirma sobre a Comunhão.

“Não é bom que as conferências episcopais façam interpretações oficiais do papa”, declara o cardeal. “Isso não é católico. Temos este documento do papa, e ele deve ser lido no contexto da tradição católica completa”.

“Não temos dois magistérios, um do papa e outro dos bispos”, continua ele. “Acho que é um mal-entendido, um mal-entendido que causa danos, que pode causar danos para a Igreja Católica”.

No geral, o que permeia o comentário do prelado é a sugestão de que, lida à luz da tradição, “Amoris Laetitia” não autoriza, na verdade, uma abertura ao sacramento por parte dos fiéis divorciados e recasados.

Sobre o tema das diaconisas, Müller não sugere nada. Aqui ele foi tão direto quanto se pode ser: “Não. Impossível. Isto não vai acontecer”, respondeu.

“O Papa Francisco negou a possibilidade de diaconisas, mas disse que podemos estudar os documentos antigos para tirar alguma inspiração, de forma a promover o engajamento da mulher na Igreja de hoje".

"As pessoas de fora não entendem a missão da Igreja. Elas pensam que a Igreja é uma organização como as demais, e que nós temos de promover, num sentido geral, a emancipação da mulher, mas não se trata disso”, diz o religioso alemão. “Todos, dentro e fora da Igreja, precisam respeitar que ela não é uma organização política feita pelo homem, e sim o Corpo de Cristo”.

E eis o que faço notar: esta entrevista já está em circulação há quatro dias, e ninguém reagiu a ela. Não se vê nenhum tumulto, comentários fervorosos com interpretações e análises conflitantes. Até parece que a entrevista nunca foi ao ar.

Temos de concordar que a falta de reação aqui pode ser porque Müller deixou claríssimos os seus pontos de vista, e também porque as pessoas simplesmente estão cansadas de disputas aparentemente intermináveis em torno de “Amoris Laetitia”.

Mesmo assim, este silêncio ensurdecedor igualmente ilustra a forma como as coisas mudaram na era do Papa Francisco.

Certa vez, a terra era abalada quando os prefeitos da Congregação para a Doutrina da Fé se pronunciavam. Historicamente, essa congregação passou a ser conhecida como “la suprema”, ou o departamento “supremo” dentro do Vaticano, por ter a palavra final sobre temas envolvendo a doutrina – e visto que pouco há na Igreja Católica que não envolva, de alguma forma, a doutrina, tal dicastério tem uma amplitude de dar inveja.

Por exemplo, quando o Cardeal Joseph Ratzinger esteve à frente dela, de 1981 a 2005, antes de se tornar o Papa Bento XVI, tudo o que falava era percebido como carregando um peso enorme. Carreiras teológicas poderiam emergir ou quedar com base numa menção de feita por Ratzinger, e o sentido universal era o de que, quando ele falava, o peso todo do Vaticano e do papado ancorava-se atrás de do que dizia.

Isso não acontece no atual papado de Francisco, por que talvez não pôs de lado a Congregação para a Doutrina da Fé, porém certamente não se baseia nela como sendo a pedra de toque principal para avaliar as implicações doutrinais de suas decisões.

Quando Francisco quer uma avaliação teológica de algo, claro está que contará mais com assessores informais, como o arcebispo argentino Victor Fernandez, do que com Müller, o que faz parte da estratégia geral do papa em preferir trabalhar ao redor das pessoas que estão em plena sintonia com a sua agenda ao invés de formalmente ter de substitui-las.

Consequentemente, os analistas do Vaticano não mais supõem que, quando o prefeito da CDF se manifesta, está-se diante de uma diretiva papal. Ao invés disso, Müller se tornou mais uma voz no diálogo, alguém a ser respeitado pela posição ocupada e pelas credenciais teológicas, mas que certamente não é um canal direto para aquilo que o papa pode estar pensando ou planejando.

Se isso é bom ou não fica para o leitor decidir. Em todo caso, Müller e a sua mais recente entrevista são um bom exemplo para ilustrar algo característico do papado atual: olhar para os organogramas vaticanos e saber quem teoricamente manda aí pode garantir algumas análises apuradas, mas certamente não nos dirá muito sobre quem, de fato, está tomando as decisões.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Silêncio ensurdecedor confirma um insight central no papado de Francisco - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV