Ignacio Ellacuría. Mensagem profética de formatura: universidades devem ser veículos para transformação social

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27 Mai 2017

"Este o tipo de mensagem que pouquíssimos formandos querem ouvir no dia da formatura" escrevem Chris Staysniak, doutora em história religiosa americana pela Boston College, e Dan Cosacchi, pós-doutorando em estudos religiosos pela Fairfield University, instituição jesuíta de Connecticut, EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 24-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Com o fim do ano acadêmico, convidam-se várias pessoas famosas para os discursos de formatura. Surge uma ampla variedade de políticos, atores, artistas, CEOs, comediantes e formadores de opinião usando barretes e togas. Eles dividem seus conselhos com os graduandos país afora. Geralmente estes discursos buscam inspirar os jovens em um momento de suas vidas no qual adentram o “mundo real”. Eles ouvem que devem se esforçar, ser bondosos, aproveitar as oportunidades, buscar realizar seus sonhos e fazer do mundo um lugar melhor.

Em 1982, na cerimônia de formatura da Universidade de Santa Clara, nos EUA, o padre jesuíta Ignacio Ellacuría proferiu um destes discursos. Ellacuría nasceu na Espanha, mas na época lecionava na Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas, em San Salvador, capital de El Salvador – instituição de ensino superior jesuíta. Ellacuría era a força motriz por trás do comprometimento assumido pela instituição junto ao povo local. Em última instância, ele queria que a Universidade Centro-AmericanaUCA, fosse uma força para a mudança positiva diante da longa guerra civil pela qual o país passava e diante da miríade de males sociais dela decorrentes. Como já havia acontecido com a postura profética de tantos outros líderes, o que Ellacuría teve um custo alto. A franqueza com que denunciava o governo salvadorenho, sobre os abusos contra os direitos humanos, acabou levando-o à execução e à de outros cinco companheiros jesuítas, da empregada doméstica e sua filha – assassinatos executados em novembro de 1989 por forças militares salvadorenhas treinadas pelos EUA.

Há inúmeras listas dos “melhores” discursos de formatura. Uma rápida pesquisa na internet irá encontrar várias compilações desse tipo feitas por organizações como NPR e Huffington Post. Em nenhuma delas encontraremos o discurso de Ellacuría. Mas no atual momento de formaturas, vale a pena revisitar o discurso frequentemente esquecido do sacerdote jesuíta.

Enquanto a maioria dos discursos de formatura destinam-se, obviamente, aos alunos formandos, o de Ellacuría destaca-se por não se voltar tanto aos graduandos na mesma proporção com que se volta à ideia, à missão e ao propósito mesmo de uma universidade católica. De certa forma, a maior parte dos discursos de formatura reiteram a distinção entre “a vida universitária” e “o mundo real”, como se o primeiro estivesse totalmente isolado do segundo. Embora muitas universidades elitizadas sejam “bolhas sociais”, neste breve porém poderoso discurso Ellacuría recorda os ouvintes de que uma tal divisão é superficial.

Ellacuría trouxe aquilo que viu como os dois componentes fundacionais de uma instituição de educação superior: “Existem dois aspectos em todas as universidades. O primeiro e mais evidente é que elas lidam com a cultura, com o conhecimento, com o emprego do intelecto. O segundo, e não tão evidente assim, é que elas devem se preocupar com a realidade social – exatamente porque uma universidade é, inescapavelmente, uma força social: ela deve transformar e iluminar a sociedade em que vive”. Ao falar do contexto salvadorenho da UCA, ele afirmou na face da opressão e da pobreza: “O que então uma universidade faz, imersa nesta realidade? Transformá-la? Sim. Fazer todo o possível de forma que a liberdade saia vitoriosa sobre a opressão, a justiça sobre a injustiça, o amor sobre o ódio? Sim. Sem este compromisso, não seremos uma universidade, e menos ainda seremos uma universidade católica”.

A visão profética que Ellacuría tinha de uma universidade católica é desafiadora e desconfortável para os que atuam no ensino superior católico. Ela expande a obrigação de reconhecer os males sociais do mundo e de trabalhar para curá-los. Estas coisas não ficam a cargo somente dos estudantes tão logo se formam para serem agentes de uma transformação positiva; no contexto trazido pelo jesuíta, cabe à instituição também, e os que a administram e a habitam, ser parte ativa deste processo. Esta proposta convida os administradores e professores a praticar o discernimento, a serem reflexivos sobre como as comunidades universitárias podem ser socialmente transformadoras.

Vivemos um tempo de profundas mudanças, tanto dentro quanto fora da universidade. Como disse Ellacuría: a universidade pode ser um veículo para a mudança transformadora com as ferramentas singulares que tem à sua disposição.

Geralmente as instituições católicas de ensino superior reconhecerão as potencialidades radicalmente transformadoras de uma tal visão. Sim, estas instituições de ensino são, sem dúvida, locais de muita pesquisa, ensino e extensão. Mas, na maioria das vezes, buscam, antes, o poder e o prestígio acadêmicos.

Em vários sentidos, a mensagem desafiadora e desconfortável dos profetas é motivo suficiente para que estes tipos de discursos de formatura não sejam muito bem recebidos. Quando se formam nas universidades de elite, os egressos e suas famílias não necessariamente querem mudanças... Em princípio, a parte difícil já acabou: os créditos recebidos e as despesas pagas (ou, pelo menos, a quitação dos empréstimos adquiridos).

Mas, para Ellacuría, uma grande parte dessa mensagem tem a ver com a solidariedade. Ele não só acreditava que o prêmio recebido por ele na Santa Clara fora concedido como “um gesto de solidariedade e apoio” à UCA; mais do que isso, acreditava que o prêmio fora um gesto grandioso em solidariedade aos pobres e marginalizados da sociedade. Esta solidariedade deveria vir à custa de um governo que se volte à guerra e à opressão. Ellacuría não mede palavras:

“[Os Estados Unidos] devem levar em consideração os reais interesses do povo americano; mas, e isto é o mais importante para nós, os EUA devem responder segundo os princípios da ética política, das necessidades de um povo que sofre miséria e opressão, não por sua falta ou indolência, mas por causa de uma série de eventos históricos pelos quais não podem ser responsabilizados”.

É este o tipo de mensagem que pouquíssimos formandos querem ouvir no dia da formatura.

Mas tem mais um motivo por que estes tipos de discursos proféticos de formatura raramente acontecem nos campi universitários: não existem muitos profetas. Como irmão e membro comunitário de Ellacuría, Jon Sobrino proferiu, cinco anos depois, o discurso de formatura na Santa Clara: “Sem cair em anacronismos injustos, não se pode ignorar que as universidades cristãs têm deixado a desejar na resposta que dão ao mundo e que elas têm contribuído para o fortalecimento do anti-Reino”.

Tudo isso, evidentemente, não quer dizer que não existam profetas em nosso mundo hoje. Dois destes profetas são, na verdade, oradores famosos bem presentes nas universidades católicas e em suas festas de formatura: o padre jesuíta Greg Boyle e a Irmã Helen Prejean, da Congregação de São José.

Em 2001, Boyle fundou o Homeboy Industries, “o maior programa de intervenção coletiva, reabilitação e reinserção do mundo”. Este religioso passou a maior parte da sua vida adulta trabalhando em prol da justiça e da paz. Boyle foi premiado com a Medalha Laetare 2017 pela Universidade de Notre Dame. Prejean é uma incansável opositora da pena de morte nos EUA e escreveu o livro “Dead Man Walking”, que inspirou um importante filme. (No Brasil, o filme se chama “Os últimos passos de um homem”.) Por seu trabalho árduo, Prejean foi premiada com a Medalha Laetare em 1996.

Mas o que resultou destas mensagens? Frequentemente nas redes sociais Boyle e Prejean se veem sob ataques pessoas como resultado das posturas que adotam. Só recentemente a Cardinal Newman Society classificou Boyle como um opositor do ensino católico e admoestou a Notre Dame por conferir-lhe a sua mais alta honraria. Mais ou menos na mesma época, Prejean foi alvo de uma intensa campanha no Twitter. O crime cometido? Ela defendia a ideia de abolir a pena de morte. Neste caso, opunha-se às execuções no estado de Arkansas realizadas em abril deste ano.

Apesar desses exemplos, é seguro dizer que este tipo de profecia – nos moldes de Ellacuría – não está em voga nas noites de formatura atuais. Numa era de notícias distópicas, de um aumento nas desigualdades, de catástrofes climáticas, de militarismo descontrolado e sentimentos generalizados de desprendimento e ressentimento, um discurso como o de Ellacuría pode não ser aquele que queremos ouvir, mas certamente é o tipo de mensagem de que precisamos.

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