"O mundo atual é uma fábrica de periferias que fabrica periféricos", diz Andrea Riccardi, da Comunidade de Santo Egídio

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11 Maio 2017

Um cardeal leigo em Madri. Se Francisco está pensando em renovar o colégio cardinalício (o que poderia fazer), o historiador italiano e ex-ministro Andrea Riccardi teria um barrete garantido. Hoje é, sem dúvida, o leigo mais prestigiado da Igreja católica, além de fundador da Comunidade de Santo Egídio, um dos movimentos eclesiais mais 'franciscanos'. Porque nasceu nas periferias e continua comprometido com elas.

A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 10-05-2017. A tradução é de André Langer.


Foto: Capa do livro / Divulgação

Com todos estes ingredientes, não é de se estranhar que houvesse uma grande expectativa por ouvir o possível cardeal, na apresentação do seu livro Periferias (Editorial San Pablo). O lugar escolhido para isso foi a igreja das Maravilhas, de Madri, o templo que o cardeal Osoro concedeu à Comunidade de Santo Egídio. "Uma bela casa, uma casa de oração e de consolo para as periferias no coração de Madri", disse Tíscar Espigares, a coordenadora do movimento na Espanha.

O templo, situado ao lado da Praça Dois de Maio, estava lotado. Na mesa, junto ao autor, estavam o cardeal Carlos Osoro, arcebispo de Madri, a diretora da editora San Pablo, María Ángeles López, e a coordenadora da Comunidade de Santo Egídio, Tíscar Espigares.

Entre os participantes estavam o vigário-geral da diocese, Avelino Revilla, o vigário das Pastorais Sociais, José Luis Segovia, o delegado da Catequese, Manuel María Bru, o teólogo Juan de Dios Martín Velasco, o historiador da Igreja Juan Mari Laboa e o bispo grego na Espanha, o metropolita Policarpo.

Havia grande espectativa para ouvir Riccardi. E ele não decepcionou, com um brilhante discurso (em italiano), ao qual o público correspondeu com uma longa salva de palmas final, que ressoava na cúpula da bela igreja madrilenha. Após agradecer ao cardeal Osoro, por sua presença no ato e pelo comentário que fez sobre o livro, ele lembrou que é seu paroquiano, porque a basílica de Santo Egídio no Trastevere é a igreja romana do cardeal madrilenho.

Após o protocolo, a primeira afirmação radical: "Eu escrevi este livro por raiva e por convicção". Porque, "quando o Papa Francisco começou a falar de periferias, já no conclave, vi que seu discurso não estava sendo levado a sério. Ele é repetido, mas sem convicção". E, para reforçar sua ideia, acrescentou: "Alguns anos antes se fazia o mesmo com o relativismo; agora, com as periferias".

E isso é trivializar o termo ou, como dizem outros, "franciscanear". Para o historiador italiano, "as periferias são um enorme desafio para o futuro da nossa Igreja". Porque elas fazem parte da essência da fé. "O cristianismo nasceu de uma terra da periferia do Império Romano e na Galileia, a periferia da periferia. Por isso, o cristianismo nasceu nas periferias e renova-se nas periferias". É porque "a renovação sempre vem das periferias", que é uma realidade e um termo antigo.

"É falso afirmar que o Papa Francisco inventou as periferias. Ele simplesmente acolheu essa dinâmica do cristianismo e a transferiu para as periferias de hoje. Quem não levar a sério as periferias é porque desconhece a história do cristianismo e os problemas do mundo de hoje".

Porque as periferias apontam para o coração do cristianismo e para o núcleo "da consciência da sociedade atual". Uma coisa que se vê em todas as modernas cidades do mundo e que começou a ser apresentado nos anos 40 em Paris. Ali, o profético cardeal Suhard se deu conta de que se a Igreja abandonava as periferias, elas seriam tomadas por outras presenças, "porque, na história, o vazio não existe". E, por isso, o cardeal francês, após ler o livro 'França, país de missão', colocou em prática a dinâmica missionária moderna dos padres operários.

Evidentemente, Andrea Riccardi, quando fala de periferias, não se refere apenas às periferias geográficas, mas também às periferias existenciais: migrantes, refugiados, jovens desempregados ou idosos. Sobre isso, o dirigente leigo italiano comentou as ideais do Papa. "As residências são uma realidade a meio caminho entre os vivos e o cemitério. Os idosos não são úteis, não produzem riqueza e são descartados. Mas a qualidade de uma sociedade se mede em como são tratados os idosos".

O que fazer diante desta realidade das periferias geográficas e existenciais? Na sua opinião, "o problema não está nas respostas, mas nas perguntas. A questão é uma Igreja que se interrogue, diante de um mundo que é uma fábrica de periferias que fabrica periféricos".

Isso exigirá, evidentemente, uma mudança drástica nos planos de pastoral, para passar, por exemplo, de paróquias apenas e exclusivamente territoriais a "paróquias santuário, erguidas ali onde se encontram as pessoas". Em suma, uma pastoral multiforme, porque "para chegar às pessoas, necessitam-se muitos e diversos caminhos".

Por isso, de acordo com Riccardi, a importância do que está fazendo o Papa, com seu "discurso cristãmente profético e socialmente inteligente". Com este discurso, "o Papa colocou as periferias como ordem do dia na consciência mundial, um problema decisivo para os governos, para os Estados e para a Igreja".

Riccardi concluiu sua intervenção assinalando novamente a importância do desafio das periferias. "A Igreja tem que aceitar o desafio das periferias. A Igreja tem que criar fraternidade e comunidade nas periferias".

A pergunta fundamental é: para quem sou eu?

Antes do autor do livro, interveio o cardeal de Madri, que não ficou atrás na hora de subir no carro das periferias de Francisco. Carlos Osoro está convencido de que as periferias são "terra sagrada" do cristianismo. Diante delas, o fiel, tem que fazer três coisas: "Fazer-se uma pergunta, recordar e tomar uma decisão".

De acordo com o cardeal madrilenho, o crente, assim como Maria, tem que "ir para as periferias" e "colocar-se rapidamente a caminho". Porque "o drama deste mundo são os descartados". E entre eles, estão não apenas os pobres, mas também os migrantes, os jovens sem trabalho, os idosos abandonados ou as pessoas sem ideais e sem educação. Diante dessa situação, os crentes, segundo Osoro, são chamados a se perguntar: 'para quem sou eu?' e fazê-lo "com a linguagem da mente, do coração e das mãos". E, desta maneira, "sair às periferias de todas as misérias". Ou, dito de outro modo, "é preciso ir à periferia para voltar ao centro, porque as periferias são um lugar privilegiado, uma terra sagrada, da presença dos cristãos, embora, às vezes, nos custe nos adaptarmos a um horizonte que é cada dia maior".

Porque "a vida religiosa se joga nas periferias". Por isso, segundo o cardeal, temos que "recordar" e implicar-nos nas periferias, "sem medo de nos sujar", porque o único medo que deveríamos ter "é o medo de não estar nas periferias".

Depois de recordar e perguntar-se, "temos que tomar uma decisão". Porque "as periferias nos interpelam, e não basta fazer novas construções nas periferias. É preciso inserir-se nestes lugares que são distantes. Isso exige sair da nossa própria casa para entrar na casa do outro, sem abandonar os nossos princípios. Significa mudar de mentalidade e estilos. Estar com os periféricos é desvencilhar-se da comodidade e entrar no modo de ser de outros". Ou, aquilo que o Papa chama de "conversão pastoral".

Um programa 'franciscano' para a Igreja espanhola: "Partir dos pobres, que é o que a Igreja fez desde o princípio e o que temos que fazer também nós hoje. É difícil, mas temos que fazê-lo. Porque a nossa missão é salvar, isto é, levar aos pobres a alegria do Evangelho".

Nas saudações prévias, María Ángeles López, diretora da editora San Pablo, elogiou a figura do autor do livro, Andrea Riccardi, e de sua comunidade, "que soube ser e estar nas periferias, sendo uma voz profética contra as guerras do mundo". O que tem mais mérito por "ter resistido às pressões em todas as circunstâncias, conservando essência e valor".

A editora qualificou Riccardi e Osoro como "dois homens do Papa, porque nem todos o são", e lembrou a forte presença da Igreja nas periferias, sobretudo em países de missão". Ela também disse que o seu livro é uma obra "lúcida e corajosa, que incentiva a praticar um cristianismo com autêntico sabor de Evangelho".

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