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04 Maio 2017

Para que pode servir uma categoria, ou uma definição, que inclua uma multiplicidade tão vasta e heterogênea de fenômenos e experiências que se sobrepõem e se contradizem, se assemelham e se distinguem, atravessando realidades geográficas e tempos históricos diferentes e dificilmente comparáveis?

A reportagem é de Marco Bascetta, publicada no jornal Il Manifesto, 03-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa é a pergunta que somos obrigados a nos fazer assim que colocamos as mãos no termo talvez mais infestante do debate público contemporâneo: populismo. Se ele for manejado de um ponto de vista difamatório ou apologético, os contornos certamente se tornam mais precisos.

Para o establishment, ou seja, as elites dominantes e os muitos que dependem dela, trata-se de uma demagogia destrutiva das regras e das formas da “convivência civil” em de livre mercado. Para aqueles que orgulhosamente se proclamam populistas, trata-se, em vez disso, de um retorno à fonte primeira e legítima da soberania, o povo, justamente, usurpada de castas, oligarquias e poderes opacos e inescrutáveis.

Mas esses são enunciados que permanecem em pleno regime de falsa consciência. A convivência defendida pelos primeiros, de fato, é tão pouco “civil” quanto o povo dos segundos está bem longe da prática de uma democracia que possa se chamar de direta.

O que fazer, então? Pode-se tentar passar do singular para o plural, mas, mesmo assim, o álbum de família dos populismos permanece um tanto confuso. Não se entende bem quem deve ser incluído nele, nem em que condições. Pode-se recorrer ao esquema que, mais do que qualquer outro, os populistas rejeitam: a partição entre direita e esquerda, distinguindo entre populismos de marca igualitária e populismos de inspiração organicista, mas também aqui as linhas acabam se confundindo ou perdendo qualquer sentido comparativo.

Pode-se, por fim, traças fronteiras temporais. Apenas para esclarecer que, se Masaniello e Donald Trump brigam, ambos, com os impostos, para o resto, têm pouco a ver um com o outro. Distinguir entre um populismo clássico do século XIX e início do século XX e um neopopulismo contemporâneo, aliás, é absolutamente sensato.

Marco Revelli, no seu último trabalho (Populismo 2.0, Ed. Einaudi, 155 páginas) se assoma brevemente a todas essas possibilidades, sem, no entanto, se confiar inteiramente a qualquer uma. Mas, depois, realmente faz sentido buscar um mínimo denominador comum ou um conjunto de características que confiram à noção de populismo um rigor suficiente? Ou não seria, talvez, um tempo, uma fase, uma passagem histórica (a crise permanente em que vivemos, no nosso caso), em vez de uma forma política, uma ideologia, uma doutrina ou uma constelação precisa de sujeitos que desenvolvem um certo senso comum, determinados estados de espírito e comportamentos?

Revelli capta, a esse respeito, um ponto importante: o populismo – escreve – não é um “ismo” como os outros, mas algo muito mais impalpável e indefinido: “É um estado de espírito. Um mood. A forma informe que assumem o desconforto e os esforços de protesto nas sociedades pulverizadas [sfarinate] e trabalhadas pela globalização e pelas finanças totais”.

E é precisamente esse mood que Revelli busca e cartografa através dos mapas eleitorais dos sucessos de Donald Trump nos EUA e de Marine Le Pen na França, através das afirmações do Leave na Grã-Bretanha e os exploits da direita xenófoba da AFD na Alemanha. Mapas que indicam a “captura” por parte desses personagens e agrupamentos políticos, dos excluídos e dos “ferrados”, dos perdedores e dos passageiros de um elevador social em contínua e precipitada descida.

Na realidade, o perfil sociológico desse povo do populismo é bastante incerto e precário. Podem ser rastreados nele traços da clássica contraposição entre cidade e campo, centro e periferia, mas esse tipo de polaridade parece ser nada exaustivo. Os sujeitos que a povoam estão submetidos a uma evidente instabilidade e cultivam lábeis convicções.

Ora, se assumirmos efetivamente o termo populismo como a difusão de uma Stimmung, uma “tonalidade emotiva”, alimentada pelos efeitos da crise e pela prepotente arrogância do seu governo oligárquico, devemos igualmente registrar a sua ambivalência.

Convivem nesse estado de ânimo nostalgias e vontades de mudança, desejo de autodeterminação e necessidades de confiança, desencanto e credulidade. Isso significa que “o desconforto e os esforços de protesto” podem tomar caminhos diferentes e antitéticos.

Em outras palavras, se o populismo não é um “ismo” como os outros, ele pode ser considerado como um estágio preliminar, mas que tende rapidamente a se tornar um “ismo”, traduzindo-se em nomes que correspondem a tradições e políticas tristemente identificadas: nacionalismo, racismo, autoritarismo. Ou, ao contrário, em experiências de democracia participativa que ultrapassam a crise da representação.

Não há dúvida de que a França encantada por Le Pen, os Estados Unidos de Trump, a Hungria de Orban, a Polônia, a Inglaterra do Brexit dissolveram grande parte das ambiguidades sob o sinal do nacionalismo (com taxas variáveis de xenofobia). O fato de prevalecerem conteúdos sociais ou subalternidades às leis do neoliberalismo não muda muito quanto à ameaça que eles representam para as liberdades individuais e coletivas.

Revelli examina os três fatores que, na análise de Christa Deiwks, constituiriam o elemento comum a todos os populismos. Em primeiro lugar, o povo, considerado como unidade inseparável e natural, contrapõe-se, por um lado, à elite privilegiada que o domina e o expropria, por outro, ao corpo estranho dos migrantes que minaria seus hábitos, seguranças, identidades.

O segundo fator é a convicção de ter sido injustiçado, de ter caído vítima de um complô de corruptos e vigaristas. O que explica também o papel salvífico atribuído ao poder judiciário.

O terceiro momento põe em causa um poder “bom”, próximo do sentimento das “pessoas”, ao qual se confia a tarefa de expulsar os usurpadores e restabelecer a ética popular.

Não é difícil reconhecer nesses três fatores as características próprias do ressentimento: a assunção do ponto de vista da vítima como critério de verdade e a invocação de um redentor chamado a restabelecer a justiça “em nome do povo”.

Podemos, agora, considerar esses traços comuns, não a uma ideologia, a uma proposta de política ou a um sujeito social, mas sim a uma época, aquela que viu a contrarrevolução neoliberal se afirmar como governo da crise. A unitariedade orgânica do povo não seria, talvez, filha daquele banimento do conflito da vida social e daquela ideia de competitividade que é a versão economicista do nacionalismo? E a ideia de um salvador que faça “o bem do povo” não seria, por acaso, parente da concepção pós-democrática das elites que “fazem o bem da economia”?

O populismo contemporâneo, então, pode ser considerado a forma, escolhida por ser considerada mais manipulável, para a qual o paradigma dominante tentou empurrar as contradições que ia gerando (Berlusconi e Trump são os exemplos mais esclarecedores disso). O que não significa que ele não possa sair do controle, como fez nos anos 1930.

A Stimmung da que falávamos, no entanto, não caiu do céu nem é fruto de uma pura e simples cegueira ideológica. A percepção da expropriação sofrida, o caráter parasitário do comando capitalista, as monstruosas desigualdades, a exploração cada vez mais intensa de uma vida empobrecida são bem reais e enraizados nas condições do presente. Misturá-los em um povo para fazer com que diga o que se quer e para sacrificar as nossas múltiplas razões é a premissa segura de alguma forma pós-moderna de fascismo.

Mas, a partir dessas contradições, pode-se tomar um caminho totalmente diferente daquele ao longo do qual as inteligências produtivas da maioria constroem autonomia, auto-organização, poder.

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