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26 Abril 2017

"Estamos propondo estes textos para a leitura para mostrar o nível do pensamento medieval, inclusive de personagens aparentemente menores", escreve Gianfranco Ravasi, cardeal, arcebispo católico e biblista italiano, teólogo e estudioso do hebraico, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 23-04-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os "Solilóquios" do bispo de Hipona, a "Refutação" de Hipólito e os "Sermões" do abade de Ford.  


Sant’Agostino, Soliloqui,
Editado por Manlio Simonetti,
Fondazione Lorenzo Valla - Mondadori 
Milão-Roma, € 35 

Deus semper idem, noverim me, noverim te, "Deus, que sois sempre o mesmo, faz com que eu me conheça e que eu vos conheça". Santo Agostinho, além de ser um grande pensador, também foi um extraordinário autor literário, capaz de criar frases memoráveis como esta que aqui evocamos, superada apenas pela bem conhecida (até o estereótipo) Inquietum est cor nostrum donec requiescat in te (o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti ) de suas Confissões. Agora, no entanto, buscamos inspiração nos seus Solilóquios, obra inacabada de surpreendente modernidade no seu gênero, não tanto por ser dialógica (contemporânea dos seus Diálogos), mas porque as duas vozes que estão se confrontando são o eu de Agostinho e a Razão. Estamos, então, diante de uma escavação introspectiva, contraponto rítmico de perguntas e respostas "quase que eu e minha razão fôssemos duas realidades distintas, embora somente eu lá estivesse". Um desdobramento que vai conquistar, como sabemos, Petrarca, que em seu Secretum refere-se explicitamente ao grande Pai da Igreja.

Na verdade, nesta obra, como um testamento espiritual, o grande poeta apresenta, ao longo da trama temporal de três dias de debate, o próprio eu que desafia Agostinho na presença silenciosa da Verdade sob vestes femininas. Para o autor do
Cancioneiro, o diálogo nasce de uma crise espiritual e desabrocha em uma flor de muitas corolas temáticas como a morte, o pecado, a tentação, o fluxo do tempo, a transitoriedade das criaturas, as paixões, e muito mais. O jovem Agostinho, no entanto, em 387, recém convertido e ainda não batizado, na paz agreste da casa de um amigo em

Cassiciacum (as atuais Cassago Brianza e Casciago, no norte da Itália), tem como objetivo embrenhar-se nos caminhos elevados da verdade, sob o sol da divindade (basta ler o magnífico e extenso hino de invocação na abertura). Um dos maiores estudiosos da literatura cristã antiga, Manlio Simonetti, convida - com sua edição com texto original e amplo comentário exegético dos Solilóquios – a acompanhar os passos do futuro Bispo de Hipona nessa aventura, com a certeza de que "Deus nos ajudará em nossa busca, ele que sem engano nos promete, depois de este corpo, uma grande felicidade em plena posse da verdade", como acredita no final o próprio Agostinho.

Não acrescentamos nada mais, além de uma ressalva que Simonetti faz da característica estética dessa obra "uma composição extremamente cuidada sob o aspecto retórico e, mais genericamente, literário". O estudioso enumera uma série de componentes estilísticos que confirmam a alta qualidade, apesar da subestimação de Agostinho nas declarações de abertura. Algumas páginas são frementes, marcadas por uma "amarga doçura", (suavitas amargas), paradoxo eficaz que transfigura as lágrimas, tornando os olhos capazes de "fitar diretamente o sol", embora possam ser "feridos justamente pela luz por que tanto anseiam”.


"Ippolito", Confutazione di tutte le eresie,
Editado por Aldo Magris 
Morcelliana 
Brescia, p. 400, € 30

Completamente diferente é outra obra, bastante enigmática, também pertencente ao horizonte da literatura cristã que precede de um século e meio Agostinho e que queremos repropor sob a orientação de outro importante estudioso, Aldo Magris, professor de filosofia e de história das religiões em Trieste. O enigma desse artigo que leva o título de Refutação de todas as heresias reside na paternidade que, no passado, tinha sido atribuída a Orígenes, o grande autor cristão de Alexandria do Egito; mais tarde optou-se pelo presbítero romano Hipólito, sob cujo nome entre "aspas" ainda hoje é publicado, enquanto o citado Simonetti prefere a tese de um autor anônimo.

Mas, deixando de lado essa questão de aprazível caráter histórico-crítico, o que mais atrai nos dez livros (ou capítulos) que estruturam a obra é a tapeçaria multicolorida povoada de retratos de personagens mais ou menos conhecidos que compõem uma espécie de galeria (ou "biblioteca", como afirma Emanuele Castelli em seu ensaio introdutório) heresiológica. Na raiz dessas, que são consideradas degenerações da verdade cristã, o autor identifica o uso indevido ou tendencioso não tanto das Sagradas Escrituras, mas sim da deformação do pensamento dos filósofos gregos clássicos.

Significativa a esse respeito é uma declaração no prefácio: "Acredito que seja aconselhável, em primeira instância, ilustrar para os leitores as opiniões dos filósofos gregos que, em relação ao divino, são mais antigas e veneráveis do que as dos heréticos; na sequência, cada heresia será confrontada com o sistema de cada filósofo, a fim de provar que os heréticos tentaram valer-se dessas teorias, aproveitaram-se de seus princípios e, misturando-os da pior forma, criaram a sua própria doutrina". Na prática, nessas páginas, muitas vezes marcadas pelo calor da controvérsia, sobressai-se o "fundo" negativo de uma "frente" luminosa, o do diálogo intenso tecido pelo cristianismo dos primeiros séculos com a cultura clássica, identificando os fermentos e as intuições consoantes ou dissonantes com a mensagem do Evangelho. O interesse do leitor atual, no entanto, está em ver emergir desses capítulos – que não hesitam também em lançar um olhar sobre o mundo judaico (Essênios, Fariseus, Saduceus) - um horizonte muito variegado e dinâmico das duas culturas, a cristã e a pagã em diálogo e contraponto entre si, e a vivacidade extrema das controvérsias teológicas (sobretudo gnósticas) e dos conflitos que agitavam em especial a Igreja de Roma no século III.


Balduíno de Ford, La salvezza nella storia. I Sermoni
Editado por Maria Francesca Righi
Jaca Book
Milão, p. 424, € 22

Continuando essa nossa viagem livre na literatura cristã, avançamos agora em vários séculos e chegamos à Idade Média com a figura, importante para a teologia e a história eclesial, de Balduíno de Ford, cujo nome deriva da abadia cisterciense (talvez a primeira da Inglaterra) da qual ele foi membro e abade. Sua força de caráter e sua qualidade intelectual destiná-lo-ão a ascender, em 1184, à cátedra de arcebispo de Cantuária, que ele governará com pulso firme, especialmente na controvérsia disciplinar com a abadia local de Christ Church e nas tensões entre o rei Henrique II – sobre quem, aliás, pairava a acusação de assassinato de Thomas Beckett (1170), um dos predecessores de Balduíno na sede da Cantuária, cuja morte será celebrada no grande drama Assassinato na Catedral, por Eliot (1935) - e Papa Urbano III, o milanês Uberto Crivelli, valoroso opositor até de Frederico Barbarossa.

A partir desses sucintos acenos entende-se como era turbulento o pano de fundo da vida de Balduíno: a isso deve ser adicionada a queda de Jerusalém sob Saladino (1187) e a Terceira Cruzada da qual foi um ativo incentivador a ponto de viajar para a Terra Santa onde, na chegada, acabaria morrendo, em 1190. Deste personagem aparecem agora seus 22 sermões, ou tratados, que têm seu duplo âmago na doutrina eucarística (para a qual Balduíno já havia dedicado um grande tratado, O sacramento do altar) e na vida da comunidade eclesial, intimamente interligadas entre si.

Estamos propondo estes textos para a leitura para mostrar o nível do pensamento medieval, inclusive de personagens aparentemente menores: na reflexão de Balduíno, de fato, modulam-se harmonicamente teologia e contemplação, profecia e mística, elaboração teórica e exortação regida pelo amor (sugestivo é o sermão de número 12 dedicado ao trecho "Arrebataste-me o coração" do Cântico dos Cânticos), vida monástica e experiência cristã. Além disso, como escreveu o importante estudioso da teologia medieval, Jean Leclercq, "os sermões de Balduíno permanecem um modelo de serenidade em uma época em que não faltavam debates, mesmo acalorados, entre os teólogos".

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