Tradicionalismo católico, antigo e novo: por que Francisco está indo ao encontro dos lefebvrianos. Artigo de Massimo Faggioli

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19 Abril 2017

“O que os tradicionalistas parecem não perceber é que o possível reconhecimento da Fraternidade São Pio X (FSSPX) não viria às custas do Vaticano II, mas graças a ele: o diálogo com todos na Igreja (por exemplo: os divorciados e recasados, as pessoas LGBT) permite e justifica uma ousada abertura em relação à FSSPX também.” A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. Seu livro mais recente é The Rising Laity. Ecclesial Movements Since Vatican II (Paulist Press, 2016). O artigo é publicado por Commonweal, 18-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se há uma analogia católica para o fato de Nixon ter ido à China, talvez seja o fato de o Papa Francisco ir para Ecône, o quartel-general da Fraternidade São Pio X (FFSSPX). Todo o pontificado de Francisco, que foi chamado de “o mais improvável dos construtores de pontes”, tem sido marcado por gestos cada vez mais acolhedores ao grupo tradicionalista fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, em 1970, e que esteve em cisma formal da Igreja de 1976 a 1988.

Mesmo como arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio mostrou uma abordagem pastoral e pragmática à FFSSPX. Como papa, ele construiu sobre algo iniciado por Bento XVI, mas de uma forma diferente e, o mais importante, em um contexto teológico muito diferente: em 2015, ele permitiu que os sacerdotes da FSSPX licitamente ouvissem confissões para o Jubileu da Misericórdia.

O último passo, anunciado no dia 4 de abril, é a decisão de Francisco de adotar uma proposta da Congregação para a Doutrina da Fé e da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, ambas dirigidas pelo cardeal Gerhard Ludwig Müller, de autorizar os bispos locais a conceder faculdades para a celebração de casamentos de fiéis que seguem a atividade pastoral da FSSPX. Embora a decisão possa ter pouco impacto sobre a Igreja Católica global – a FSSPX tem três bispos e 600 padres, principalmente nos Estados Unidos, Argentina, Suíça, Alemanha, França, Reino Unido, Austrália e Filipinas – ela é, entretanto, outro passo voltado ao retorno da FSSPX ao corpo da Igreja Católica Romana em comunhão com o papa. No entanto, ela também pode trazer novos problemas para Francisco, incluindo a abordagem da FSSPX para casos de abuso sexual por parte do clero. Mesmo assim, a medida poderia ter muitas consequências, por duas razões.

Em primeiro lugar, a FSSPX se tornaria uma “prelazia pessoal” dentro da Igreja (com um status legal semelhante ao concedido por João Paulo II ao Opus Dei em 1982), que certamente dividiria de forma definitiva um movimento tradicionalista cismático que já mostrou sinais de fratura. Há uma rixa visível entre aqueles que aceitam a reconciliação com Roma (como a Fraternidade Sacerdotal São Pedro, que se reconciliou com Roma em 1988) porque aceitam a legitimidade do Papa Francisco, e os tradicionais e “sedevacantistas” radicalistas que veem na FSSPX e na sua liderança por Dom Bernard Fellay uma liquidação liberal do verdadeiro catolicismo antimodernista e anti-Vaticano II.

A segunda razão é o que isso diz sobre a percepção concreta de Francisco por parte do catolicismo hoje. Ele está lidando com a FSSPX dessa forma porque sabe o grau de existência de um tradicionalismo talvez ainda mais pronunciado do que o da FSSPX. Menos de 15 anos separam a publicação de dois livros importantes sobre o tradicionalismo católico – The Smoke of Satan (1997), de Michael Cuneo, e La Chiesa dell'anticoncilio, de Giovanni Miccoli (publicado em italiano em 2011 e em francês em 2014), mas cada um deles pinta um quadro diferente. Cuneo via o tradicionalismo em um número limitado de fluxos bem identificados: conservadorismo-tradicionalismo, cultura antiaborto, marianismo e apocalipticismo. Miccoli retrata um apoio generalizado das causas tradicionalistas na hierarquia do catolicismo.

É claro que o tradicionalismo que se desenvolveu desde os anos 1990 surgiu fora de qualquer movimento organizado e massivo de conversão de cismáticos. Francisco sabe que lidar com o tradicionalismo agora é menos uma questão de ir ao encontro da FSSPX do que uma questão a ser tratada internamente. Ironicamente, o novo tradicionalismo “caseiro” tornou o cisma com a FSSPX uma questão menos urgente.

Hoje, a FSSPX do bispo Bernard Fellay não é muito mais tradicionalista do que, por exemplo, alguns dominicanos, beneditinos, frades Franciscanos da Imaculada, alguns seminários diocesanos ou até mesmo o cardeal Burke – todos os quais estão em comunhão com o papa, mesmo que seus pontos de vista em relação à teologia do Vaticano II não sejam tão diferentes dos de Lefèbvre em 1970.

Então, o que aconteceu nessas duas últimas décadas e quais são as diferenças entre o antigo tradicionalismo da FSSPX dos anos 1970 e o novo tradicionalismo? Uma das grandes mudanças é que o tradicionalismo não está mais confinado a um pequeno e bem identificado grupo eclesial que se coloca fora da Igreja Católica de Roma, mas, ao contrário, está difundido pela Igreja e pelas suas estruturas (clero, ordens religiosas, meios de comunicação, universidades).

O novo tradicionalismo também não é uma expressão de uma cultura católica francesa e anti-iluminista do século XIX, mas sim uma peça das “guerras culturais” (ou daquilo que resta delas) no mundo de língua inglesa. Em alguns casos, ele também está associado agora a conversões de alto perfil ao catolicismo no Ocidente.

Outra diferença é como esse novo tradicionalismo foi capaz de encontrar um lar na Igreja Católica de Bento XVI. João Paulo II abriu as portas ao criar algumas condições práticas para o seu retorno no início dos anos 1980 (o indulto de 1984 para celebrar a missa pré-conciliar, por exemplo), embora sem conceder muito em termos de reavaliação teológica do Vaticano II em um sentido tradicionalista. Mas Bento XVI foi mais longe. Apenas alguns exemplos:

- O seu discurso programático de dezembro de 2005 sobre uma hermenêutica do Vaticano II como “continuidade e reforma versus descontinuidade e ruptura”. Originalmente, o discurso tinha uma intenção antitradicionalista (já que a FSSPX vê o Vaticano II como ruptura), mas se tornou um instrumento nas mãos dos bispos nomeados por Bento e das autoridades da Cúria que pressionavam pela agenda tradicionalista.

- A sua liberalização da liturgia pré-Vaticano II em julho de 2007, que revigorou – senão até criou – um movimento litúrgico neotradicionalista que não existia antes com a força que tem hoje.

- A sua decisão de remover a excomunhão de quatro bispos da FSSPX em janeiro de 2009, que sinalizou a disposição unilateral do papado de readmitir o grupo cismático, que abrigou as perturbadoras opiniões antissemitas de um dos seus bispos, Richard Williamson (que foi expulso da FSSPX em 2012).

Essas não foram apenas acomodações feitas para a FSSPX. Elas foram também mudanças na postura da Igreja nos últimos 50 anos da história da Igreja, mudanças que, aos olhos dos tradicionalistas, reivindicavam o que eles diziam desde o início do período pós-Vaticano II.

Também havia claramente outros fatores. O surgimento do conservadorismo e do tradicionalismo católicos também foi uma reação contra a globalização e, sobretudo, uma reação ao 11 de setembro e ao surgimento do Islã radical e político. Finalmente, houve o surgimento da comunicação digital: se você considerar o impacto da imprensa na cimentação da Reforma e da Contrarreforma no início da Europa moderna, você não pode ignorar o impacto da blogosfera e da internet para cimentar e difundir o antigo e o novo tradicionalismo católico.

Agora, ninguém sabe o que vai acontecer a seguir entre Francisco e a FSSPX. Um dos elementos peculiares desse pontificado é que, ao lidar com a FSSPX, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Müller – que foi nomeado ao cargo por Bento XVI – tornou-se o defensor do Vaticano II, enquanto Francisco parece estar disposto a ignorar ou a descontar a atual recusa da FSSPX de aceitar o valor vinculativo do magistério do Vaticano II. Por outro lado, alguns membros da FSSPX dizem que chegou a hora de reentrar em comunhão com Roma, porque o Papa Francisco não se importa realmente com o Vaticano II.

Mas eu acho que é ainda mais complicado do que isso. A aproximação de Francisco à FSSPX é sua própria maneira de implementar o Vaticano II. Assim como Bento, ele está oferecendo um acordo para a FSSPX. Mas, ao contrário de Bento, ele inaugurou uma nova fase na recepção do Vaticano II, e não apenas por causa do súbito e completo desaparecimento das questões tradicionalistas e anti-Vaticano II da sua agenda.

Francisco frequentemente adverte contra o tradicionalismo litúrgico, dogmático, disciplinar que já existe dentro da Igreja Católica Romana. Ele também agiu para conter as tendências tradicionalistas na Igreja; por exemplo, ele disciplinou ordens religiosas como os frades Franciscanos da Imaculada em relação ao seu uso da missa em latim, dentre outras coisas.

A FSSPX tem um histórico de abandonar acordos no último minuto. Mas, mesmo que esse acordo não seja assinado, o que está acontecendo diz muito. É claro que as consequências do possível retorno da FSSPX à Igreja estão ligados ao sucesso ou ao fracasso das reformas de Francisco em longo prazo. Isso poderia conter o tradicionalismo ou poderia dar-lhe um impulso. Parte do pensamento é que, na futura Igreja global, tanto o antigo tradicionalismo de língua francesa quanto o novo tradicionalismo de língua inglesa serão mais marginais.

A regularização da FSSPX também pode corroer ou limitar a validade do motu proprio Summorum Pontificum, que já não poderia ser justificado se uma nova “prelazia pessoal” para os tradicionalistas delimitar o espaço de aplicação da forma extraordinária do Rito Romano. Seria mais um passo para que Francisco possa lidar com o legado de Ratzinger em assuntos litúrgicos, depois da decisão de criar uma comissão para rever a instrução vaticana Liturgiam authenticam, de 2001.

O que os tradicionalistas parecem não perceber é que o possível reconhecimento da FSSPX não viria às custas do Vaticano II, mas graças a ele: o diálogo com todos na Igreja (por exemplo: os divorciados e recasados, as pessoas LGBT) permite e justifica uma ousada abertura em relação à FSSPX também.

Como observou o ecumenista italiano Lorenzo Prezzi, um acordo entre o Vaticano e a FSSPX em 2009 ou em 2012 teria legitimado e solidificado uma leitura restritiva do Vaticano II, enquanto também teria influenciado o conclave de 2013. Agora, o oposto parece provável. O retorno da FSSPX dará mais poder aos conservadores, mas em um processo de reforma. É claro que esse cenário faz mais sentido para as Igrejas Católicas nas quais o Vaticano II foi implementado mais plenamente do que nos Estados Unidos, onde, durante essas últimas décadas, um “revisionismo” institucional do Vaticano II, impulsionado especialmente pelos bispos, tem sido um subconjunto das guerras culturais.

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