Um "papa santo", entre resignações e concessões aos lefebvrianos. Artigo de Marco Marzano

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06 Abril 2017

“Muitos pensaram que Francisco reformaria a Igreja. Ele fez muito menos e muito mais: tornou-se o ‘papa santo’, uma figura lendária que já se transformou em vida no símbolo de um cristianismo e de uma humanidade sem mais fronteiras e cercas internas.”

A opinião é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bérgamo, em artigo publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 05-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um artigo que foi publicado na revista Mensajero, o ex-geral dos jesuítas, Pe. Nicolás, reiterou com autoridade aquilo que se suspeitava há algum tempo, ou seja, que o Papa Francisco tem em mente “levar em séria consideração o desafio de Bento”, isto é, renunciar quando considerar que as suas forças não são mais suficientes para suportar o cansaço do pontificado.

Junto com essa notícia, ficamos sabendo de outra: ou seja, que o papa reduziu ainda mais o fosso que separa a Igreja Católica da comunidade cismática tradicionalista dos lefebvrianos, a ultradireita, que nunca aceitou os resultados do Concílio Vaticano II. Francisco decidiu reconhecer como catolicamente válidos os casamentos celebrados por sacerdotes lefebvrianos da Fraternidade Pio X.

Parecem ser duas notícias de sinal oposto: por um lado, o papa reconhece as limitações do seu ofício e admite a possibilidade de que, assim como qualquer outro encargo humano, ele pode terminar com um ato de renúncia voluntária e não com a morte; por outro, escancara a porta da Igreja para o retorno da extrema direita irredutível, para os fãs da missa em latim, para os opositores do mais mínimo cedimento da Igreja às razões da modernidade.

A contradição, na realidade, é apenas aparente, porque ambas as notícias são perfeitamente coerentes com o grande desígnio “franciscano” de construir um papado verdadeiramente santo e universal, reconhecido e admirado por todos, plenamente legitimado para representar melhor do que qualquer outro os aspectos virtuosos da condição humana e a vontade divina sobre a terra.

A partir desse ponto de vista, a evocação da renúncia serve para garantir à imagem do pontífice um atributo do qual não se pode abrir mão quando se quer realmente ser popular em uma época democrática e igualitária: torna-a humana, assimila-a a de todos nós e faz intuir nela a sinceridade, o autêntico espírito de serviço, a natureza desinteressada e altruísta da missão.

A abertura aos lefebvrianos, por outro lado, tem um objetivo perfeitamente coerente com o desígnio franciscano do “papa santo”: de fato, ela varre toda sombra sobre a suposta parcialidade de Francisco, sobre a tendência que aqueles que o criticam dentro da Igreja lhe atribuem de desejar profundas inovações na doutrina e na estrutura da Igreja e de privilegiar sistematicamente as razões dos progressistas em relação às dos conservadores.

Abraçando a extrema direita, Francisco esclarece, de uma vez por todas, que as coisas não são assim, que ele, o “papa santo”, ama todas as suas ovelhas do mesmo modo, que não faz distinção nem tem preferência entre os netinhos de Dom Romero e da teologia da libertação marxista e os fundamentalistas da extrema direita clerical, aqueles que andam por aí de batina e acorrem ao Family Day para denunciar “a impiedade e o horror dos casamentos gays”.

Na Igreja de Francisco, há espaço para todos. Há também para os luteranos, com os quais o papa se encontrou afetuosamente na sua viagem a Lund pelo quinto centenário da Reforma. O papa não coloca condições para todos aqueles que ele decide amar, a humanidade inteira, senão a de receber o seu afeto e de se acomodar silenciosamente à sombra da sua imensa figura, aceitando que as suas reivindicações sejam universalmente resumidas e representadas no doce perfil paterno do “papa santo”.

E, além disso, Francisco parece sugerir implicitamente a todos, “o que seria de vocês, caros irmãos, longe dos braços afetuosos da Igreja de Roma e do seu ‘santo papa’?”.

Nisso, Bergoglio não se equivocou: de fato, o que seriam dos lefebvrianos sem a atenção do papa, senão um pequeno punhado de nostálgicos? E os teólogos da libertação? Ainda é minimamente credível, em 2017, a sua perspectiva clerical-marxista? E as Igrejas protestantes históricas europeias não são, talvez, organizações exangues e massacradas pela secularização, muito mais do que a Igreja Católica? Elas não obtêm apenas benefícios com a inédita e generosa atenção do papa santo em relação a elas?

Muitos pensaram que Francisco reformaria a Igreja. Ele fez muito menos e muito mais: tornou-se o “papa santo”, uma figura lendária que já se transformou em vida no símbolo de um cristianismo e de uma humanidade sem mais fronteiras e cercas internas, o embaixador universal de uma mensagem de paz e de fraternidade que não exclui ninguém.

Contanto que se reconheça, naturalmente, a grandeza gigantesca, quase sobre-humana, do seu perfil espiritual, a sua força simbólica, a sua unicidade superior. Muito mais do que uma banal reforma da Igreja!

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