“Pós-verdade” e história da Igreja. O que aconteceu X O que não aconteceu. Artigo de Massimo Faggioli

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31 Março 2017

“Parece mais aceitável, na Igreja Católica de hoje, trazer o método histórico-crítico para suportar as Escrituras do que os documentos do magistério; tornou-se mais aceitável criticar autores das Escrituras divinamente inspirados do que um papa que escreve sobre a moralidade sexual. Um fundamentalismo magisterial insidioso para com as encíclicas deste último século faz parte do problema “biopolítico” do catolicismo. Isso fica claramente visível no debate sobre Amoris Laetitia”, escreve Massimo Faggioli, historiador italiano, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova University, EUA, em artigo publicado por Commonweal, 29-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

A verdade morreu? Eis a pergunta a ser estampada na capa da revista Time, de 3 de abril, em clara alusão à famosa capa “Is God Dead?” [Deus morreu?] de 1968. Embora seja tentador ver uma analogia entre as duas, a preocupação com o clima político atual do “pós-verdade” não é uma questão ontológica de mesma ordem. Trata-se de uma questão de verdade factual: O que aconteceu ou não aconteceu, o que é realmente verdadeiro ou falso – como o tamanho da multidão na inauguração de Donald Trump. “Pós-verdade” é um modo elegante de descrever um ataque não contra a natureza metafísica da verdade, mas contra o negacionismo puro e simples dos fatos históricos.

A cultura teológica da Igreja institucional não está imune à ascensão da “pós-verdade”. Na realidade, ela já mostrava sinais da síndrome no começo dos anos 2000. Tais desafios à ideia de distinguir entre o que aconteceu e o que não aconteceu atinge a Igreja Católica somente quando ela enfrenta uma crise sobre o papel do estudo da história na teologia. São significavas as consequências para a viabilidade intelectual do catolicismo, principalmente ao se considerar a formação dos futuros líderes eclesiásticos.

Em 2005, por exemplo, a Pontifícia Universidade Gregoriana – a mais respeitada das pontifícias universidades romanas – estabeleceu a Faculdade de História e Herança Cultural da Igreja, fundindo a prestigiada faculdade de história eclesiástica (criada em 1932) com um programa na área da herança cultural (criado em 1991). Essa pressão institucional para reduzir a história à “herança cultural” efetivamente desconectou a teologia e o magistério das contribuições críticas da história da Igreja.

Essa desconexão da história da Igreja para com a teologia é ainda mais aparente nos Estados Unidos. Em seu mais recente livro, Katarina Schuth lança uma luz sobre como esta mudança influenciou a formação nos seminários no país no começo dos anos 2000.

A 5ª edição do Programa para a Formação Presbiteral (“Program of Priestly Formation”), publicado pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA em 2005, deixa claro que “entre os estudos históricos, o estudo da patrística e da vida dos santos foi considerado de especial importância”. A ênfase especial sobre a vida dos santos, típica da virada devocional em muitos seminários católicos durante a era João Paulo II - Bento XVI, deveria ser considerada juntamente com a redução do número de cursos de história que o Programa para a Formação Presbiteral exigia: de seis em 1992 para três em 2005.

Ainda que muitos seminários e universidades pontifícias continuem exigindo o estudo da história da Igreja, a história do século passado é frequentemente vista como perigosa – e a história do Vaticano II sendo a mais perigosa de todas. (Minha experiência pessoal: Desde 2012, dei mais de uma centena de palestras ao redor do mundo sobre o Vaticano II e o Papa Francisco, mas somente uma delas veio a convite de uma faculdade de seminário: a Faculdade de Teologia da Universidade Sanata Dharma, instituição jesuíta, na Indonésia.)

John O’Malley trabalhou para contrapor esse enquadramento “perigoso” com o artigo “Vatican II: Did Anything Happen?” [1], de 2006, e com o livro de 2008, intitulado “What Happened at Vatican II”, que falam sobre o que ocorreu no concílio ecumênico. Embora o artigo (baseado numa palestra de 2005 em Yale) fora escrito antes do famoso discurso de Bento XVI sobre “as duas hermenêuticas” [2] endereçado à Cúria em dezembro de 2005, o livro foi, com certeza, a melhor resposta a este discurso – um dos mais influentes do papado de Bento.

Porém essa alocução era também a culminância da tendência a minimizar a significação histórica do Vaticano II, tendência em que Walter Brandmüller, então presidente da Pontifícia Comissão de Ciências Históricas, igualmente desempenhou um papel. (Brandmüller, devemos notar, é também um dos quatro signatários das recentes “dubias” contra Amoris Laetitia de Francisco.) A discussão de Bento XVI era filosófica: o Vaticano II resultou em algumas mudanças, mas não alterou a essência profunda da Igreja. A postura dele de “continuidade e reforma” em detrimento da “descontinuidade e ruptura” tentava enfraquecer a legitimidade de certos aspectos centrais da hermenêutica do Vaticano II, muito embora, evidentemente, não negava a importância histórica do concílio. Foi um discurso mais sofisticado do que as interpretações ultrassimplificadas de alguns teólogos e bispos.

Mas o elemento ideológico em torno do discurso de Bento parece, agora, com a versão católica do debate do “pós-verdade” na política – apenas uma década mais cedo. Hoje, quatro anos de pontificado de Francisco, apenas a ala tradicionalista ainda emprega a hermenêutica da “continuidade e reforma” X “descontinuidade e ruptura” ao interpretar o Vaticano II; Francisco nunca a usou. Mas o dano está feito, e não só em Roma ou no Vaticano. Pois, de um lado, há a virada cultural para uma ênfase sobre os estudos identitários. Mesmo naquelas universidades onde persiste a abordagem histórico-crítica às instituições eclesiásticas e aos textos magisteriais, as coisas tendem a gravitar em torno dos “estudos religiosos” – em vez de gravitar ao redor da teologia.

O põe um problema à história e aos estudos religiosos como disciplinas: tentar entender a vida passada dos cristãos sem uma linha teológica de crédito aberta para a “fé” desses cristãos limita a capacidade dos historiadores em compreender a “vida” destes mesmos cristãos. Todavia, é ainda um problema maior para a teologia. O método histórico-crítico está enfrentando reações negativas atualmente quando se trata de estudos religiosos, como se viu recentemente nas reações àquilo que o Superior Geral dos jesuítas disse, poucas semanas atrás, sobre a interpretação do Evangelho.

Paradoxalmente, parece mais aceitável, na Igreja Católica de hoje, trazer o método histórico-crítico para suportar as Escrituras do que os documentos do magistério; tornou-se mais aceitável criticar autores das Escrituras divinamente inspirados do que um papa que escreve sobre a moralidade sexual. Um fundamentalismo magisterial insidioso para com as encíclicas deste último século faz parte do problema “biopolítico” do catolicismo. Isso fica claramente visível no debate sobre Amoris Laetitia. Mas também seria válido explorar como, de modo ingênuo e acrítico, o documento Rerum Novarum, de Leão XIII, é por vezes usado (ou mal usado) na Igreja americana para sustentar ideias sobre o ensino social católico.

Os tradicionalistas católicos têm expectativas diferentes dos progressistas católicos quando se trata de história. No passado recente, um establishment católico estritamente institucional e tradicionalista tentou incapacitar os historiadores a apresentarem insights sobre o que a história da Igreja poderia ensinar à teologia católica, em particular as lideranças que elaboram textos magisteriais. Como escreveu Rowan Williams há poucas semanas: “Teologia boa não advém da história ruim”. Os teólogos católicos, ao confrontar uma possível mudança da análise histórico-crítica da história religiosa com uma teologia pós-histórica, poderiam se pôr a aprender com o que o momento “pós-verdade” atual está nos mostrando.

Porém o establishment católico institucional não está a sós em carregar certa responsabilidade. Uma abordagem pós-histórica nos dá uma teologia ruim porque tende a reduzir a história da Igreja à “narrativa”, onde narrativas diferentes apresentam relatos “reparacionistas” do que aconteceu. Acredito que, para entender o catolicismo em termos históricos e teológicos, ainda é preciso uma abordagem do tipo “história da Igreja” geral, enriquecida pelos novos insights metodológicos dos estudos históricos e sociais pós-modernos.

A história da Igreja como disciplina tem muito a aprender na terra sem dono entre a teologia, a história secular e os estudos sociais. Embora possamos lamentar o declínio do estudo histórico-crítico da Igreja em seus aspectos mais “eclesiásticos” (a história das instituições católicas, do direito canônico, dos documentos magisteriais), não podemos de fato comemorar o “sucesso” da abordagem social/cultural. Pois, se ela deveria libertar a Igreja de seu institucionalismo, na verdade ela fez o contrário: abrindo o caminho para uma Igreja institucional ainda mais relutante a se historicizar, ou inclusive ávida a elevar todos os aspectos de si própria ao nível da ontologia. Por meio da negligência da academia católica à história da Igreja, nós agora rejeitamos a própria “ideia” de transformações no ensino da Igreja; alguns, por exemplo, ainda negam que o Vaticano II alterou o ensino católico sobre a liberdade religiosa. Se a história ruim primeiro nos dá uma teologia ruim, em seguida ela nos dá uma política ruim.

Notas:

[1] Artigo disponível aqui em inglês.

[2] Cf. o Discurso do Papa Bento XVI aos cardeais, arcebispos e prelados da cúria romana na apresentação dos votos de Natal, disponível aqui.

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