Os cinco "solas" da reforma

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23 Março 2017

Em 31 de outubro, o Círculo Riforma que, coordenado pelo pastor Giuseppe Platone, lidera a igreja valdense de Milão (mas que agora está sendo ampliado também para as igrejas metodistas e batistas da cidade), divulgou uma série de textos dedicados aos cinco Solas da Reforma. Não é o primeiro documento do grupo, "uma livre associação de irmãos e irmãs que compartilham a paixão pela discussão e pela reflexão teológica sobre o que é ser igreja hoje, e que se reúnem para discutir temas de interesse comum, sem esquecer sua atribuição estatutária, que é apoiar ativamente a Reforma". Entre 2013 e 2015 o grupo elaborou Nossas 95 Teses, uma proposta de "reformulação dos grandes temas da fé cristã, na forma de breves afirmações, que vão desde o fragmento ao raciocínio articulado, agrupadas por áreas temáticas".

A reportagem foi publicada por Riforma, 10-02-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Agora, o Círculo deu vida a este outro texto, dedicado aos cinco princípios fundamentais, expressos em forma sintética, que de alguma forma representam as características distintivas do protestantismo, embora não esgotem sua complexidade. "O quinto aniversário da Reforma - que é citado na introdução do documento - nasce em um contexto ecumênico onde se desenvolvem continuamente diálogos, visitas, gestos simbólicos, cooperação prática entre os cristãos de diferentes confissões, enquanto os antigos anátemas parecem revogadas e esvaziadas de sentido. A Reforma Protestante não é mais vista como uma bandeira para levantar triunfalmente (para alguns), ou um infeliz acidente que quebrou a unidade da igreja (para os outros), mas como um evento que pertence a todos os cristãos e as cristãs. Há o risco, quando muito, que acabe sendo considerada um fato do passado, já encerrado, interessante apenas para estudiosos de dogmática e da história da Igreja". Os textos, portanto, querem "reafirmar a relevância da Reforma protestante: não apenas, mas, precisamente, porque aspiramos a um ecumenismo feito de diversidade reconciliada, e não a um achatamento cansado onde se mantém o silêncio sobre as questões muito complexas porque ‘não faz diferença, somos todos cristãos’.

Nós escolhemos fazer uma releitura dos cinco lemas antigos apresentando, em tempos ecumênicos, uma questão: a Reforma foi um bem apenas para aquele que se declara protestante ou para toda a cristandade e a sociedade moderna?".

A revista Riforma vai publicar os cinco Solas do círculo de Milão mensalmente, a fim de concluir sua publicação com o Pentecostes. Assim, começamos com o primeiro texto: Sola Scriptura.

Sola Scriptura

Pelo Círculo da Reforma de Milão, em "Riforma" - Semanal das Igrejas Batistas Metodistas e Valdenses - 10 de fevereiro de 2017
A Reforma, focando-se na Escritura (entendida como uma coleção de escritos do Antigo e Novo Testamento), quis indicar a fonte a partir da qual os cristãos podem diariamente saciar a sua sede de conhecimento sobre Deus. Isto é verdade não só para os protestantes, mas para todas as igrejas cristãs - que, aliás, teologicamente cresceram nas últimas décadas graças também ao diálogo ecumênico. O ecumenismo, de fato, encontrou precisamente nas Escrituras o terreno fértil de encontro das três principais famílias confessionais. Através do desenvolvimento das ciências bíblicas, a contraposição entre Escritura e Tradição relativizou-se.

A própria Escritura é o resultado de uma tradição oral que precedeu tanto os textos escritos - os vários livros da Bíblia – como o ingresso e a plena aceitação desses mesmos textos no rol dos escritos canônicos. Inclusive o cânone bíblico também é uma escolha humana, embora certamente inspirada. O cânone não esgota a revelação de Deus. A partir desta Escritura (que na verdade é uma biblioteca de vários livros, autores e datações diversas) surgem interpretações que, não raro, parecem opostas entre si, assim como os comportamentos morais que delas decorrem. Assim, a partir de um único texto bíblico abrem-se rotas que podem levar a resultados eclesiológicos distintos, apesar de referenciarem-se à mesma Escritura. Aconteceu assim tanto no século da Reforma luterana, zwingliana e calvinista (basta lembrar, para dar apenas um exemplo histórico, o contencioso debate sobre a Santa Ceia), como nos séculos sucessivos e, mesmo hoje, essa diversidade de interpretação ainda persiste.

Até mesmo na grande família evangélica está presente uma evidente diversificação das interpretações e posições teológicas decorrentes. Se ampliarmos o nosso olhar para outras igrejas cristãs, notaremos como as diferentes interpretações acentuam-se: por exemplo, a questão do próprio do conceito da igreja, o primado petrino, a sucessão apostólica, a relação com o povo de Israel, a concepção do sacerdócio e os ministérios ou o papel das mulheres na igreja...

Mas como podemos ler os textos bíblicos?

Há tempo testemunhamos a revitalização de uma abordagem pelo biblicismo à Palavra de Deus, que reduz o princípio do Sola Scriptura para “Única Scriptura”. Isto quer dizer que há uma tendência para a imposição de uma única interpretação do próprio texto bíblico, na pretensão de que a interpretação dada seja a única verdadeira e absoluta. Como se cada versículo da Bíblia ou perícope encerrasse um e somente um significado. Isso cria um terreno fértil para o fundamentalismo nas suas diversas expressões. Mas, ao contrário, sabemos - porque as ciências bíblicas já o demonstraram - que os textos bíblicos (e não apenas esses) encerram significados e cenários diferentes, juntamente com uma ampla gama de indicações que devem ser descobertas escavando no texto escrito. O texto bíblico, em suma, precisa ser transposto e compreendido, dentro do cientificamente possível, para o contexto histórico em que foi concebido e formulado. Deve ser levado em consideração que a linguagem é o fruto do clima cultural de uma época. Os textos bíblicos, como outros textos antigos, antes de serem registrados por escrito em um momento histórico específico, foram transmitidos oralmente. Esta passagem do registro oral para o escrito, tal como de uma língua para outra (por exemplo, a Versão dos Setenta) tem logicamente comportado mutações que devem ser identificadas por métodos científicos.

Sola Scriptura significa basicamente três coisas para nós.
Primeiro, que Deus é soberanamente livre, e pode, portanto, se revelar inclusive fora da própria Escritura; mas, certamente, Deus revelou-se nesta Escritura do Antigo e do Novo Testamento.

Em segundo lugar, que a Escritura recebida por nós deve confrontar-se não apenas com o tempo em que foi concebida e inspirada, mas também, e principalmente, com o nosso tempo: é o presente do leitor, de fato, o verdadeiro teste de compreensão do espírito do texto e não apenas da letra.

Em terceiro lugar, que a Escritura é para nós o principal alimento da nossa fé, da nossa oração, da nossa espiritualidade, do nosso ser igreja.

Não somos nós, igrejas protestantes, os detentores exclusivos da Escritura e de interpretações que gostaríamos de tornar absolutas. A realidade é que nós, de alguma forma, ficamos fascinados e fomos "capturados" pela Sola Scriptura: um princípio que nos orienta e conduz a trilhar novos e inéditos itinerários na descoberta extraordinária de um diálogo contínuo com Deus em Jesus Cristo. "Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele e achareis descanso para as vossas almas! "(Jeremias 6, 16). A emoção e a confiança em Deus que nos sentimos ao ler a Escritura, não nos impedem de contar com métodos de análise crítica dos textos. Qualquer método de investigação - a partir do exegético-histórico-crítico ao literário, simbólico, psicanalítico ou narrativo - está a serviço de uma compreensão cada vez melhor do texto bíblico, e não o contrário. O que realmente importa é que o Espírito do Senhor reaviva para nós aquela Palavra antiga que nos foi transmitida: uma Palavra que, pela graça de Deus, todos os dias, dá-nos esperança, incentivo, cura, redenção, gratidão. A Escritura vive se o Espírito do Senhor chama-a à vida, e nós com ela. A igreja nasce, cresce e orienta-se no seu caminho, através da escuta e da compreensão da Palavra bíblica.

Solus Christus

Pelo Círculo da Reforma de Milão, em "Riforma" - Semanal das Igrejas Batistas Metodistas e Valdenses - 24 de março 2017
Dizer "Solo Christus" não significa julgar ou desprezar a fé, a espiritualidade, as crenças dos outros. Significa apenas dizer que, para nós, Cristo é o caminho através do qual Deus se revela, e, portanto, que pretendemos seguir.
Um caminho, um percurso, não um conceito: você anda ao longo de um caminho, você olha para trás e para frente, pára ou acampa, conhecer outros viajantes.

Como nos relembra o Livro dos Atos dos Apóstolos, os cristãos primitivos foram chamados "aqueles do Caminho".
Procurar por Deus somente em Jesus Cristo significa procurá-lo na figura de um ser humano concreto, que nasceu, viveu e atuou em um lugar e uma época histórica precisa, que teve uma morte terrível e vergonhosa. Em um mundo mais do que nunca cheio de aspirantes a professores, sacerdotes e senhores, para nós Jesus Cristo é o único Mestre, Sacerdote e Senhor.

O único mestre: aquele que para nós tem "as palavras de vida eterna" (Jo 6, 68), palavras e ações que nos questionam, nos instigam, nos fazem olhar com novos olhos as coisas, as pessoas, os acontecimentos das nossas vidas.

O único sacerdote: o único mediador entre nós e Deus, aquele que proclamou e implementou o fim do regime dos sacrifícios e da distinção entre o sagrado e o profano. Em Cristo, nós não precisamos mais de lugares santos, de especialistas no divino, de oferendas no altar para apaziguar a ira de Deus ou granjear seus favores.

O único Senhor: o condenado à morte, derrotado e abandonado por todos, cuja autoridade não é baseada em dinheiro, armas, palavras sedutoras, cujo modo de agir coloca em discussão todos os outros poderes. O Crucificado que, depois de três dias, ressuscitou. Com a sua ressurreição (sinal e esperança para cada um de nós), o próprio Deus anunciou que a morte e os poderes deste mundo não têm a última palavra.

Reconhecer o Solo Christus significa relativizar todas as filosofias, as ideologias, as religiões e os poderes que aspiram a angariar o nosso apoio e a nossa obediência. Mesmo após o suposto "fim das ideologias", continuamos tentados a procurar a nossa segurança entregando-nos acriticamente a crenças absolutas. Não existem apenas os fundamentalismos religiosos, há outros: nacionalismos, racismos, confiança na competição, nas finanças ou no progresso científico.

Solo Christus não é um fundamentalismo que se contrapõe a outras formas de fundamentalismo; é um critério de liberdade, especialmente para as ideias, as causas, as maneiras de pensar que estão mais próximas e afins de nós mesmos. O seu papel e valor é o de ser um instrumento para entender e mudar a realidade, não é um fim nem um ideal a ser alcançado a qualquer custo. Porque ‘tudo é nosso, mas nós somos de Cristo’ (Cf. 1 Cor. 3: 22-23).

Ter Cristo como mestre não significa observar o mundo de cima, com a complacência de quem tem a verdade. Pelo contrário, significa aprender o que Bonhoeffer chama de "olhar a partir de baixo": olhar os acontecimentos a partir da perspectiva "dos excluídos, dos suspeitos, dos maltratados, dos impotentes, dos oprimidos e dos ultrajados". Em Jesus Cristo, nos é revelado não um Deus agressivo e destruidor que rivaliza com os outros poderes para conquistar o mundo, mas um Deus de sofrimento e de solidariedade com nós todos e todas, com todos os esquecidos e desconhecidos, com toda a criação, que nunca esteve tão ameaçada como hoje. O Solus Christus é uma ajuda para orientar-se na incerteza de uma sociedade "líquida", desprovida de pontos de referência, onde reinam o risco, a precariedade, a incerteza, a insegurança e o desespero.

No Cristo crucificado e ressuscitado, aprendemos a viver a nossa fraqueza, sem sermos sacudidos por "todo vento de doutrina" (Cf. Ef 4, 14), nem nos entrincheirando em identidades fortes e absolutas. Jesus nos liberta do frenesi do ativismo (mesmo eclesiástico) e da obsessão de salvar o mundo: quem está ao seu serviço tem que trabalhar, mas também tem que rezar, contemplar, estar "em silêncio diante do Senhor e aguardar" (Cf. Sl 37, 7).

Jesus de Nazaré não permaneceu no túmulo, mas também não caminha de forma visível nesta terra. Acreditamos que ele está presente entre nós, em todos os lugares sempre que duas ou três pessoas estiverem reunidas em seu nome.

Jesus deixou-nos sua Palavra para meditar e Seu Espírito que nos ajuda a torná-la nossa. Deixou-nos o próximo onde procurar pelo seu rosto, e irmãos e irmãs com quem todos os dias construir a igreja que é seu testemunho.

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