Serão os católicos americanos “demasiado americanos” para oporem-se a Trump?

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22 Março 2017

Há a expectativa de que uma parte importante da resistência ao presidente dos Estados Unidos Donald Trump virá da Igreja Católica. O Papa Francisco está fazendo a sua parte no meio de uma situação internacional repleta de incógnitas. Porém o papel dos católicos americanos é mais complicado. Não só porque a Igreja no país está grandemente polarizada, mas porque o governo Trump está lançando uma luz sobre a complexidade que constitui a relação entre ser americano e ser católico e os Estados Unidos.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova University, EUA, publicado por La Croix International, 21-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em si, já existe uma divisão clara dentro do novo governo. Os primeiros dois meses de presidência de Trump apresentaram sinais contraditórios sobre a filosofia política deste governo. Há um populista, uma despesa deficitária e uma grande mensagem governamental que fizeram Trump se eleger. E então há um equilíbrio orçamentário a todo custo, um governo mínimo e uma mensagem socialmente cruel, evidente nos planos de revogar e alterar o sistema de assistência à saúde criado pelo governo Obama.

Mas existe um traço comum que liga as almas do governo Trump e do Partido Republicano, e ele ficou claro com o aparecimento do estrategista-chefe do presidente, Stephen Bannon, na convenção “Conservative Political Action Conference” ocorrida poucas semanas atrás. Bannon identificou a “desconstrução do Estado administrativo” como um dos principais objetivos do atual governo. Há especialistas em cultura conservadora americana que podem explorar o que Bannon realmente quis dizer com isso.

Porém esta sua linguagem me fez lembrar de uma crítica radical do Estado-nação construído dentro dos ideais liberais por Alasdair MacIntyre, William Cavanaugh, Stanley Hauerwas e outros pensadores que influenciaram a cultura social e política do catolicismo americano durante as últimas décadas. “O Estado-nação moderno, sob qualquer forma, é uma instituição perigosa e incontrolável, apresentando-se, por um lado, como um fornecedor burocrático de bens e serviços, que está sempre prestes a dar, mas que nunca dá realmente, aos seus clientes uma rentabilidade e, por outro lado, como um repositório de valores sagrados, os quais, de tempos em tempos, convida o sujeito a dar a própria vida em seu nome”, disse MacIntyre, em 1995.

“Como observei alhures, é como se nos pedissem para morrer pela empresa telefônica”, declarou ele. Permitam-me ser claro: não estou equiparando Bannon e Trump com pensadores importantes como MacIntyre, Cavanaugh e Hauerwas.

No tocante ao nacionalismo econômico e à soberania, por exemplo, simplesmente inexiste uma sobreposição. Na verdade, é intrigante ver como um católico americano que é Stephen Bannon pode detestar tão profundamente um projeto originalmente católico como a União Europeia. Aqui não estamos diante de um problema apenas de Bannon ou de uma condição dos católicos americanos conservadores. Trata-se de uma problemática intelectual genuína concernente à relação que tais católicos têm com o seu país quando se trata de noções em torno da doutrina do Estado.

Por exemplo, existe uma tensão na crítica radical à ideia do Estado-nação. Esta ideia é mais católica americana do que católica romana. O magistério da Igreja Católica pode não endossar especificamente o Estado-nação liberal, mas também não o condena.

Desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), o ensino católico oficial vem, na prática, manifestando uma clara aceitação do Estado-nação como a estrutura (pelo menos por enquanto) fundamental para o desenvolvimento de uma dimensão política da vida humana dirigida no sentido da promoção do bem comum.

A declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, intitulada Dignitatis Humanae (parágrafos 8 e 11), e a constituição sobre a Igreja no mundo, Gaudium et Spes (parágrafos 65, 70-71, 73-75 e 78), falam de uma “autoridade pública legítima”; isto é, o Estado. Mas também enfatizam o valor do indivíduo e dos grupos sociais.

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial e no meio do processo de descolonização, o Estado-nação esteve no centro da visão política dos padres da Igreja, e aí permaneceu. Embora consciente da atual crise do Estado-nação, a Igreja também entende que não há ainda um substituto viável.

O Papa Francisco não propôs livrar-se do Estado-nação, e sim sugeriu uma versão renovada do internacionalismo católico do século XX, onde a Santa Sé e as igrejas locais desempenham um papel ativo na construção da paz e reconciliação. O papa deixou isso claro no discurso ao corpo diplomático em janeiro passado.

Esta é apenas uma faceta da “lacuna divina transatlântica” entre a Europa e os Estados Unidos, sendo que a principal diferença é que os católicos do Velho Continente tendem a temer menos o Estado. Vejamos a reconstrução dos Estados-nação europeus depois da Segunda Guerra. Os católicos desempenharam um papel crucial nesse esforço, especialmente na Alemanha, França e Itália. O pensamento católico foi fundamental na orientação da implementação de novas filosofias governantes, apontando ameaças tanto do comunismo quanto de uma economia desenfreada de livre mercado.

Isso nos diz algo sobre os fundamentos católicos daquilo que se tornaria a União Europeia, bem como nos fala sobre a sensação de “posse” que os católicos europeus tiveram pelos Estados-nação e constituições. E ajuda a explicar a diferença entre o catolicismo americano e o catolicismo europeu em termos de como o Estado-nação é considerado. Peguemos, por exemplo, a Constituição italiana.

Em temas como internacionalismo, guerra e paz, sindicatos e, especialmente, propriedade privada, ela está muito mais próxima do ensino social católico pós-Segunda Guerra Mundial do que está da Constituição americana. O Art. 42 da Constituição italiana fala sobre propriedade privada somente e sempre em termos de sua compatibilidade com a “função social” da propriedade. Os católicos americanos não têm a mesma sensação de posse da Constituição deles ou dos Estados Unidos. A Constituição americana tem muitos pais, mas o catolicismo não esteve lá no momento da sua concepção.

Os católicos americanos não contribuíram para a Constituição da mesma maneira ou na mesma extensão que os católicos alemães, franceses ou italianos contribuíram para a criação de suas constituições no pós-guerra. É evidente que a Constituição americana ajudou imigrantes católicos a se tornarem cidadãos plenos, mas não há nenhum pai (ou mãe) católico americano do constitucionalismo como aqueles que ajudaram a dar à luz o constitucionalismo europeu nas décadas de 1940 e 1950. Os magistrados católicos da Suprema Corte das últimas décadas não contam. Eles se tornaram parte da interpretação histórica da Constituição muito depois do momento fundacional para os EUA.

Tal fato é relevante não apenas para entender o fascínio que alguns católicos têm pelo “projeto desconstrucionista” que Trump e Bannon querem implementar, mas também ajuda a compreender a lacuna que divide os católicos nos EUA daqueles católicos de outras partes do mundo no tocante a visões sobre vários temas fundamentais.

Por exemplo, a cegueira dos bispos americanos ao pleno significado de “liberdade religiosa” – que aparentemente eles só conseguem enquadrar em termos de “liberdade da Igreja” – não é somente um indicativo da cultura política dos homens nomeados por João Paulo II e Bento XVI. Ela também revela um problema muito mais complexo – o medo profundamente assentado do Estado dentro do catolicismo americano e da lacuna entre o catolicismo americano e a visão da Igreja Católica mundial sobre o Estado e da autoridade política.

Isto cria uma situação complicada para a Igreja Católica nos EUA e para o seu papel de ser uma das vozes que questiona as trajetórias da nação sob Donald Trump.

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Serão os católicos americanos “demasiado americanos” para oporem-se a Trump? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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