Não só Holocausto: a loucura do genocídio é uma tentação recorrente da humanidade

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16 Março 2017

A tese de que esteja em curso um processo de racionalização constante e incessante no inteiro globo terrestre mostra limites evidentes, especialmente quando registramos entre os eventos significativos de sua história passada, presente e - infelizmente - futura, o genocídio. Ao fenômeno e ao seu inerente corolário, o ‘democídio’ (assassinato de qualquer povo ou indivíduo por seu governo – NdT), Pier Paolo Portinaro (aluno de Norberto Bobbio, docente em Freiburg e Mainz e atualmente professor de filosofia política na Universidade de Turim), dedica um livro repleto de implicações filosóficas e legais, além de estritamente históricas: L’imperativo di uccidere. Genocidio e democidio nella storia (O imperativo de matar. Genocídio e democídio na história), editado pela Laterza, 294 páginas, € 25,00.

A reportagem é de Riccardo De Benedetti, publicado por Avvenire, 15-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A explosão de uma violência praticamente irrefreável, que tende a se multiplicar e intensificar até atingir o extermínio do povo objeto do ataque ou da porção da humanidade que é definida como "supérflua", tornou-se um perigo que paira sobre a história cada vez mais unificada da humanidade, e não apenas no seu passado, recente ou remoto. Nenhum canto da Terra é poupado: Oriente, extremo e próximo; Ásia, em sua totalidade; nativos americanos e África profunda, em todas as latitudes. Da mesma forma que nenhum momento na história documentada mostra falta dos sinais do extermínio e da tentativa de dizimar povos e grupos étnicos que ficam no caminho de uma ou de outra civilização.

Embora Portinaro enfatize corretamente que o genocídio não é um privilégio exclusivamente ocidental, é justamente o Ocidente que possui, no final das contas, "além do nacional-socialismo, muitos outros esqueletos no armário". Apesar de ser verdade – vejam bem - também é o Ocidente, ou a forma que atualmente assume, que faz uma reflexão sobre o fenômeno.

O autor propõe explicitamente um estudo comparativo. Identificando no genocídio um fenômeno universal, retira da Shoah sua singularidade. Operação problemática, conduzida com muita sensibilidade, reconhecendo aos estudos sobre o Holocausto o papel - por assim dizer - de pioneiros sobre o fenômeno que, obviamente, envolveu a história do homem de forma amplamente documentável e, até mesmo, ‘recorrente’. Se um fenômeno repete-se, portanto, estamos diante de um mecanismo que evidentemente alcança estruturas profundas da conformação antropológica e não apenas eventos dependentes unicamente da vontade criminosa de grupos, mais ou menos numerosos, de homens unidos por motivações ideológicas, religiosas ou políticas em sentido estrito. Naturalmente, cada uma dessas ocasiões de união coletiva pode levar, em determinadas condições que Portinaro documenta em cerca de 300 páginas repletas de informações, à violência genocida e ao extermínio.

Afirma Portinaro: "O sujeito genocida assume o objetivo da construção de uma nova ordem social, mas como qualquer sujeito psicótico resolve a construção na destruição". É sobre a natureza da motivação quase pessoal e psicológica desse sujeito coletivo - Estado? partido? movimento? etnia? religião? – que, contudo, podem surgir dúvidas críticas. No livro estão documentados esses e muitos outros sujeitos (não excluindo aqueles que irão dar vida ao feminicídio, último a chegar ao léxico tanatocrático), que me parece lícito também questionar a respeito da manutenção da analogia psicológica na reconstrução do panorama dos crimes e dos extermínios.

Se for verdade que por genocídio deva ser entendida a tentativa bem sucedida por parte de um grupo no poder de eliminar um grupo humano minoritário e vulnerável, pode ser insuficiente definir o extermínio utilizando uma forma, embora moderada, de reducionismo, tanto das categorias psicológicas, como das econômicas, sociais e religiosas que estão subjacentes à própria ação genocida.

Dito isto, o livro de Pier Paolo Portinaro é absolutamente essencial não só para ter um fácil acesso à dimensão histórica do fenômeno, mas especialmente pela indicação que oferece sobre o futuro de um fato que muitos gostariam que fosse apenas uma questão do passado, mas que, ao contrário, lança sombras longas e escuras nos atuais processos de globalização.

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