“Migrar está inserido em nossos genes; faz parte de nós”. Entrevista com Michael Czerny, assessor do Vaticano para migrantes e refugiados

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08 Março 2017

O padre jesuíta Michael Czerny é um dos subsecretários para migrantes e refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. Em outras palavras, é uma referência do papa sobre migrantes e refugiados. Ele esteve em Washington para participar de reuniões com membros da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA quando o entrevistei.

A entrevista é de Thomas Reese, publicada por National Catholic Reporter, 06-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O dicastério, liderado pelo Cardeal Peter Turkson, foi criado em 1º de janeiro deste ano e incluiu a fusão de quatro pontifícios conselhos: Justiça e Paz, Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Pastoral no Campo da Saúde e “Cor Unum”.

O novo dicastério (sinônimo de departamento ou ministério vaticano) possui um grande portfólio, que inclui tornar mais amplamente conhecido o ensino social da Igreja; conduzir pesquisas sobre temas de justiça, paz e meio ambiente; e certificar-se de que as igrejas locais providenciem assistência adequada aos doentes, refugiados, exilados, migrantes, nômades e outras populações itinerantes.

A subseção para migrantes e refugiados tem uma infraestrutura incomum, que conta com dois subsecretários e, temporariamente, reporta-se diretamente ao papa. O outro subsecretário junto de Czerni é o padre scalabriniano Fabio Baggio. Além deles, haverá quatro coordenadores regionais para diferentes partes do mundo.

Há sessenta anos Czerni era, ele próprio, um refugiado com sua família na Tchecoslováquia comunista até que foram recebidos no Canadá para tornarem-se cidadãos canadenses. Antes de ser subsecretário, Czerny foi assessor de Turkson no Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, onde trabalhou com os direitos humanos e na encíclica de 2015 “Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum”.

Eis a entrevista.

No Vaticano, como vocês lidam com a enorme crise migratória e de refugiados atualmente? O que a sua seção faz em resposta a ela?

A primeira coisa que fazemos é dizer que não se trata de uma crise. A migração e a aceitação de refugiados fazem parte da realidade humana desde o início. Sempre estivemos em mudança. Se não tivéssemos nos mudado, não seríamos a família humana que somos hoje. Mudar-se, migrar, está inserido nos nossos genes; faz parte de nós.

Em segundo lugar, chamar de crise esta situação a coloca numa categoria de emergências, que precisam de uma resposta rápida não necessariamente de alta qualidade. Ao passo que a mobilidade humana e o fato de que muitas pessoas no mundo, hoje, são forçadas a fugir precisam de uma resposta de alta qualidade, firme, e não qualquer coisa que possamos fazer por se tratar de uma emergência.

Em terceiro lugar, e talvez isto seja o mais importante, a decisão de migrar é uma decisão muito, muito significativa, uma decisão muito difícil, e que merece a compreensão de todos. É uma decisão que diz “onde estou, ou onde estamos como família neste exato momento, é inviável. Não podemos continuar aqui; temos que ir”.

É uma escolha que as pessoas fazem, eu diria, de um modo muito racional. Elas tomam a decisão certa. Se nos colocarmos nos lugares dessas pessoas que são forçadas a fugir, provavelmente iremos dizer: “Eu teria feito a mesma decisão, exceto que teria feito mais rápido ainda. Eu teria fugido antes. Sequer teria esperado todo esse tempo ou teria essa paciência toda”.

Chamar de crise essa situação nos cega para a profundidade da questão, da experiência humana e também da razoabilidade e profunda humanidade da decisão.

O senhor não gosta da palavra “crise”. Mesmo assim, como a sua seção no Vaticano responde ao que está acontecendo em termos de pessoas se movendo ao redor do mundo?

A nossa missão é, na prática, ajudar os bispos do mundo a responder a esta sua pergunta. Em si, a nossa seção não é um centro de ação social; ela está lá para ajudar e apoiar, para incentivar e orientar os bispos.

Visto que na Igreja Católica temos três mil dioceses, esta pergunta poderia ser feita três mil vezes e então juntaríamos uma resposta geral, pois cada bispo, cada diocese tem, às vezes, uma realidade ligeiramente diferente e, por vezes, muito diferente dentro de suas fronteiras. O que esperamos é que a Igreja dentro dessas áreas diocesanas encontre os meios, a inspiração e os recursos para dar conta do que está acontecendo em seu território.

A Cúria Romana está aí para ajudar o Santo Padre a exercer a sua missão. Ela não é um centro de programas e atividades.

Qual a diferença entre o que a sua seção está fazendo hoje e o que fazia o Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes.

Eles tinham a palavra “pastoral” na missão e no título. A preocupação pastoral é uma questão bastante real para nós, porém temos olhado para os migrantes e refugiados de um modo mais complexo do que apenas nos preocuparmos, digamos, com a capelania.

Claramente, o papa preocupa-se muito com os migrantes e refugiados, e, de acordo com o estatuto que estabelece esse dicastério, a sua seção se reporta diretamente ao papa. Pode nos explicar como isso funciona?

A seção para os migrantes e refugiados se dá dentro do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. Um dia, estaremos, é o que espero, plenamente integrados. Atualmente dividimos algumas instalações. Fazemos parte de um mesmo orçamento. Então, em certo sentido estamos no dicastério.

A diferença é que não nos reportamos diretamente ao Cardeal Turkson, prefeito do departamento, como acontece com todas as demais partes do novo departamento. Nós nos reportamos diretamente ao Santo Padre. É ele a pessoa a quem nos reportamos; ele é a pessoa que orienta o nosso trabalho. Buscamos realizar as suas preocupações, a sua solidariedade, podemos dizer, o seu trabalho social nessa imensa área.

Que orientação ele passou a vocês? O que ele falou que quer ver a sua seção fazer?

Eu espero que isso que estamos fazendo seja a minha resposta à sua pergunta. Em outras palavras, estamos fazendo o que ele quer que façamos. A coisa mais importante é o que já dissemos: trabalhar com os bispos. Isso motivou a decisão de organizar o nosso trabalho em regiões e a entender que devemos ajudar, de um modo diferenciado, cada diocese e cada conferência episcopal. Essa é a implementação essencial do que ele deseja.

Os migrantes e refugiados são claramente uma grande preocupação do papa...

Exatamente. Essa questão foi a primeira em direção a qual ele fez um gesto público e, inclusive, dramático, indo a Lampedusa [ilha italiana, ponto de chegada para muitos imigrantes]. Talvez a nossa seção seja a resposta para a pergunta: Além dos gestos simbólicos, das visitas, da adoção de novas famílias e de trazê-las de volta ao Vaticano, o que mais ele poderia de fato fazer?

Ele permanece sendo o Pontífice Romano, ele continua sendo o Bispo de Roma; na realidade, ele não pode fazer todas aquelas coisas por si próprio, mas pode procurar fazer com que essa sua missão seja realizada, implementada. É por isso que eu acho que ele escolheu dirigir, orientar essa seção por si mesmo.

A ênfase dele está no trabalho das dioceses e em envolvê-las.

Quando dizemos “fazer com as que dioceses se envolvam”, podemos dar a entender que elas não estão envolvidas. Isso não é verdade. Ao estar em contato com todas as dioceses, iremos traçar um retrato muito mais claro e rico do que, de fato, acontece. Como sabemos, a Igreja é muito melhor em fazer as coisas do que em deixar que as pessoas saibam sobre elas.

Por exemplo, acima empregamos a palavra “crise”. Se sob a palavra crise tivéssemos duas colunas – uma das “necessidades não resolvidas” e a outra das “iniciativas e práticas saudáveis” –, em pouco tempo iríamos dizer: “Ok, em certo sentido é uma crise; mas em outros, não é”. Temos trabalhado com isso, e temos lidado com esse tema há séculos.

Na verdade, a Congregação dos Missionários de São Carlos (os Scalabrinianos, ordem religiosa do meu colega subsecretário, o Pe. Baggio) foi fundada em 1887 para cuidar dos migrantes. Aqui temos uma ordem religiosa (e há as ramificações masculina e feminina) cuja vocação é ministrar a essas pessoas.

Não dizemos que estamos fazendo tudo o que é possível. Não dizemos que há pouca coisa que possamos descobrir. O que estou dizendo é que há boas práticas e histórias positivas que também precisam ser resgatadas e contadas, e que não há somente inventários de necessidades não sanadas, necessidades críticas.

Como você fica sabendo das histórias sobre as necessidades dos migrantes e refugiados, e o que a Igreja está fazendo?

Desde o começo, optamos por partir das mídias sociais. Então, seja usando o Twitter [@M_RSection], o Facebook ou o LinkedIn, diariamente publicamos, em quatro ou cinco idiomas, uma história diferente em cada língua.

Em algumas vezes, elas são coletadas por nós mesmos, mas em geral são histórias que encontramos. Nós as publicamos, e as pessoas que estão nas nossas listas recebem as respostas às perguntas, todos os dias, vindas de diferentes partes do mundo em vários idiomas. Em si, isso já é um bom serviço. É algo que eu acho que podemos fazer bem – receber de todos os lugares, partilhar e pôr as coisas dentro de um contexto e em perspectiva.

Vocês não são a primeira nem a única organização na Igreja a trabalhar nisso. E quanto às outras organizações?

Como dito, há um fórum sobre migração, promovido pelos scalabrinianos. Este é o terceiro ou o quarto fórum do tipo. No dia em que o fórum foi aberto, aconteceu um encontro de organizações católicas envolvidas no trabalho com os refugiados e migrantes.

Nesse encontro, a nossa nova seção foi apresentada. A esperança que temos é que iremos ser a base ou o centro para uma rede entre estas organizações católicas. Iremos ajudar facilitando a comunicação, mas também queremos ajudar na colaboração, na divisão do trabalho, evitando a sobreposição ou competição, e outros esforços concertados.

Algo do tipo a Caritas International, porém focado nos migrantes?

A Caritas é uma federação, nós não estamos nos federando nem estaremos sendo o centro de uma federação. Somos basicamente o lar de uma rede. Mas, dada a nossa localização e missão, acho interessante podermos fazer isso. É gratificante que todos, até onde sei, estão felizes que existe alguém aí neste momento que tem a missão de pôr em prática essas coisas e ser um ponto não tanto de referência, mas um espaço para intercâmbio, uma boa encruzilhada para todo mundo.

A sua seção é bem diferente do Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes porque vocês estão dando um olhar abrangente para a situação.

Exatamente. Podemos dizer que a nossa missão, ou ambição, é tão grande quanto o fenômeno. Se está acontecendo, então é de nossa preocupação; ou seja, se está acontecendo, é de preocupação da Igreja. Isso é exatamente o que a Igreja disse de si mesma na primeira frase de Gaudium et Spes. Se é uma realidade humana, então é nossa realidade. Se pessoas estão sofrendo, o sofrimento é nosso. Se as pessoas estão se dando bem com ela e estão em regozijo, o regozijo é nosso.

Gostaríamos de ajudar fazendo com que essa missão da Gaudium et Spes seja realizada em todas as dioceses e em todas as conferências episcopais, porque não existe uma igreja local que não tenha pessoas saindo, pessoas de passagem, pessoas chegando ou pessoas voltando ao seu território.

Qual a sua reação ao debate sobre imigração nos EUA?

Dom Jose Gómez, da Arquidiocese de Los Angeles, e outros vêm falando sobre a importância da reforma imigratória nos Estados Unidos. Essa é uma solução a longo prazo para muitos dos problemas de hoje.

A nossa seção no Vaticano acredita que o mundo inteiro precisa de uma reforma imigratória, não só os EUA. A migração é um aspecto muito importante da vida humana sobre a qual as Nações Unidas e a comunidade internacional não estão conseguindo entrar em acordo.

Nós gostaríamos de captar a energia que vocês têm aqui nos Estados Unidos na questão da reforma imigratória interna, e traduzi-la em uma energia internacional direcionada a um marco jurídico nesse âmbito que tornaria segura a imigração, de um modo ordenado e regular, para que que as pessoas que se movem de um país a outro, independentemente de quais sejam, possam desfrutar de proteção, apoio e segurança que qualquer um gostaria de ter se fosse forçado a fugir. Temos a esperança de, nos próximos meses, podermos trabalhar juntos no sentido da reforma imigratória, no âmbito nacional e internacional.


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