O Sudão do Sul que espera por Francisco e Welby

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06 Março 2017

Corria o ano de 1993, quando foi anunciada a visita de João Paulo II ao Sudão. Praticamente, foi uma parada de nove horas. Mas, mesmo nesse tempo limitado, ele se encontrou com o presidente da República, al-Bashir, por nada menos do que três vezes. O presidente insistiu várias vezes no fato de que, no Sudão, tudo era distribuído com justiça, sem nenhuma distinção entre cristãos e muçulmanos. Mas o papa nunca respondeu a essas afirmações, porque sabia que não eram verdadeiras. Ele tinha recebido, há duas semanas, dois rolos de filme em que se documentavam visualmente as escavadeiras que destruíam os casebres de barro dos negros do Sul. A guerra civil no Sul tinha obrigado mais de um milhão de pessoas a se refugiarem no Norte. Eram aqueles que o papa tinha encontrado na sua breve visita.

A reportagem é de Francesco Strazzari, publicada no sítio Settimana News, 04-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao voltar para Roma, João Paulo II contatou a Congregação dos Santos e perguntou em que ponto estava a causa de beatificação de Daniele Comboni e disse que aquilo que ele tinha visto no Sudão só podia ser obra de um santo. Ele mesmo canonizou o bispo Daniel Comboni em 2003.

Um tratamento brutal

Como eram tratados aqueles africanos do Norte? Um exemplo: o “centro” de Galaa (perto de Omdurman) reunia cerca de 6.000 pessoas. Uma decisão do governo mandou as escavadeiras destruírem tudo: casas, escola feita de bambu e de sacos, capela feita como a escola. As pessoas ficaram petrificadas. Em um instante, tinham ficado sem nenhuma abrigo. O solo da sua “habitação” era a areia, e o teto, o céu!

Não muito longe dali, eles reconstruíram os seus casebres com os poucos pedaços de madeira que puderam recuperar. Mas, poucos dias depois, as escavadeiras retornaram. Desta vez, com caminhões que levavam as pessoas e os seus pedaços de maneira, levando-as 20 quilômetros para dentro do deserto e abandonando-as lá, como cães jogados ao mar. Que se virem! Se morrerem, melhor!

No entanto, as pessoas se recuperaram, reconstruíram mais uma vez o seu miserável casebre. Mas lá não havia nem estradas, nem luz, nem água. Tinham que sair às 4h para ir andando até Omdurman procurar um trabalho para aquele dia. Quem tinha a sorte podia encontrar algo para fazer e poder pagar para a sua família ao menos a água para beber e um pouco de feijão. A única refeição do dia era um punhado de feijões perto das 10h. A próxima refeição era a do dia seguinte, com a mesma comida. O único consolo para eles era a visita do missionário.

Havia visitas oficiais de algum chefe de Estado. Os negros do Sul eram encarregados de organizar as noites, nas quais eles figuravam como macacos que pulam e dançam para divertir os Grandes.

A separação, e depois...

É preciso se surpreender se eles pediram para se separar do Norte? Muitas coisas os separavam: a etnia africana e não árabe, a religião cristã ou pagã e não muçulmana, línguas locais e não o árabe, a memória dos escravagistas árabes que iam para o Sul para pegar crianças e jovens para vendê-los como escravos nos mercados do Sudão do Norte e no Cairo.

Veja-se o caso de Santa Josefina Bakhita, tomada com uma violência extrema (tanto que ela se esqueceu para sempre de onde tinha nascido e quem era a sua família) e vendida várias vezes aos escravagistas. Agora, ela é a padroeira dos migrantes.

E houve a separação. Mas era evidente que, em breve, eclodiriam guerras internas no Sudão do Sul entre as várias tribos. E assim ocorreu. Agora, mais uma vez por causa da guerra, muitos do Sul se refugiam novamente no Norte. Mas agora não são mais sudaneses, são do Sudão do Sul, outro Estado. O Sudão (do Norte) não os quer, e, portanto, são tratados pior do que antes. A guerra civil no Sudão do Sul está causando milhares de mortes, de deslocados, de pessoas desesperadas.

À espera da Francisco e de Justin

O papa vai encontrá-los, espera-se. Ele irá ao coração da guerra para levar a paz ao coração dos rivais que se matam uns aos outros. A sua visita, junto com o arcebispo anglicano, terá um impacto muito forte sobre todos, no Sudão do Sul, no Sudão (do Norte), em todo o mundo.

O papa não teve medo de ir para a África Central (ele respondeu àqueles que o aconselhavam a não ir que ele só tinha medo dos mosquitos!). Agora, ele vai para outro ponto de fogo. Agora, a Igreja se apresenta unida, o papa e o arcebispo anglicano, agora é o sinal forte da presença de Deus, do afeto do Pai por esse povo martirizado que ninguém quer.

Os dois chefes supremos das duas Igrejas, agora, estão de mãos dadas para pedir paz e amor, continuam aquela missão de São Daniel Comboni que deu a sua vida por esse povo rejeitado, desprezado, morto nos seus filhos.

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