Para a Igreja, não basta mais invocar a "tolerância zero": o problema é eclesiológico. Artigo de Alberto Melloni

Revista ihu on-line

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

Mais Lidos

  • 15 de agosto de 1222: o sermão de São Francisco. “Os anjos, os homens, os demônios”

    LER MAIS
  • Hoje mais do que nunca, Argentina! A advertência de Noam Chomsky

    LER MAIS
  • “Não se trata apenas de migrantes, mas de nossa humanidade”. Entrevista com Óscar Camps, fundador da Open Arms

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

09 Fevereiro 2017

“Foi a eclesiologia que confunde a moral com o desprezo pelo humano que conservou, em uma sociedade que estava se libertando dela, uma homofobia tão ameaçadora (pensem em ser um filho de Deus em uma família de “ultrafamilistas”) a ponto de empurrar jovens assustados com a própria orientação a sublimações impossíveis: e fez de alguns seminários ou ordens a fábrica de bombas-relógio afetivas.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 07-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não é absolutamente um crime “católico”: porque é galopante em muitos contextos educativos não menos sigilosos. Não é “tipicamente celibatário”: porque a grande massa dos estupradores de crianças e de meninas são homens sexualmente ativos, de uma orientação ou outra. Não é “devastador” para todos: porque é realizado apenas quando o perpetrador sabe que pode descarregar sobre a vítima o peso de gestos que fazem do prazer uma prisão perpétua de dor.

Porém, aquele crime que, com um nojento eufemismo, chamamos de “pedofilia” atinge a Igreja Católica, humilha o seu clero e devasta a sua autoridade com força e constância impressionantes.

Antes foi Boston, depois a Irlanda, agora é a Austrália, que, ao medi-la, entendeu que essa tragédia é tamanha porque une o estupro ao sigilo. Na sociedade (onde se consuma os outros 99% dos crimes de pedofilia em comparação com o dos padres), esse nexo tem uma relevância penal; na Igreja, tem um núcleo eclesiológico: ou seja, toca a própria concepção da Igreja e a sua reforma lenta demais para torná-la cada vez menos distante do Evangelho.

Foi a eclesiologia que confunde a moral com o desprezo pelo humano que conservou, em uma sociedade que estava se libertando dela, uma homofobia tão ameaçadora (pensem em ser um filho de Deus em uma família de “ultrafamilistas”) a ponto de empurrar jovens assustados com a própria orientação a sublimações impossíveis: e fez de alguns seminários ou ordens a fábrica de bombas-relógio afetivas.

É uma eclesiologia “machista”, que, em antagonismo aos movimentos de libertação, expressou em vários níveis (lembram-se das polêmicas contra as coroinhas? Ou as hipocrisias sobre a pregação feminina?) uma visão da mulher que, além do maneirismo wojtyliano do “feminino”, continuava sendo coisa a prevaricar para demonstrar a sua coisificação: até permitir que algumas almas pensassem em estuprá-la, violando seus filhos e filhas.

É uma eclesiologia que considerava um certo conservadorismo como a única virtude necessária para o episcopado e que selecionou bispos de paternidade castrada e castradora: aqueles que, diante de filhos estupradores e filhos estuprados, identificaram-se com o agressor e não a vítima.

Não considerando esse núcleo, a Igreja Católica acabou se iludindo que bastava um pouco de frases feitas (a “tolerância zero”) que permaneciam como tais. Vacinado pelos precedentes decepcionantes, o Papa Francisco entendeu que não se tratava de “usar” essa tragédia para centralizar em Roma aquilo que os bispos não viam (como nos tempos de Wojtyla); e que não se podia pagar com dor o sucesso momentâneo de uma eclesiologia universalista hostil à autoridade das conferências episcopais (como nos tempos de Ratzinger). E ajudou a todos – também uma sociedade que exorciza o drama da pedofilia rotulando-a como um problema “católico” – a verem os dois lados do problema.

Quem deve processar e condenar perpetradores (padres ou poetas, reitores e diretores) e a perseguir aqueles que, acobertando-os, favoreceram os crimes (esposas ou abades, namoradas e bispos) é a lei: com a consciência do grave risco de punir um inocente ou de absolver um réu. Para a Igreja, isso é essencial para não conquistar uma reputação perdida, mas para dizer na prisão as palavras do perdão àqueles que devem ficar atrás das grades.

Ao contrário, quem deve reconhecer que um bispo que encobre esses crimes não têm o carisma exigido pelo ministério é a Igreja. As normas do Papa Francisco fazem isto: iniciam uma poda que ou será dramático (hoje, para difamar um inocente, não basta nada e, para encobrir um estuprador, ainda menos) ou não será.

Leia mais:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Para a Igreja, não basta mais invocar a "tolerância zero": o problema é eclesiológico. Artigo de Alberto Melloni - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV