Jesuítas americanos uniram dois mundos

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28 Janeiro 2017

Podemos vê-los agora. Dois dos homens mais responsáveis pelo nascimento da nação, ambos ex-presidentes – John Adams tem 81 anos e Thomas Jefferson, 73 – trocando cartas em 1816, lamentando a volta da Companhia de Jesus de sua supressão mundial (exceto na Rússia).

American Jesuits and the World: How an Embattled Religious Order Made Modern Catholicism Global
De John T. McGreevy
Publicado por Princeton University Press, 315 páginas, U$ 35,00

A reportagem é de Raymond A. Schroth, publicada por National Catholic Reporter, 25-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa

“Se alguma Congregação de Homens pudesse merecer a perdição eterna sobre a Terra e no Inferno (...) ela é essa Companhia de Loiola [sic] ”, rosna o velho Adams.

“Ela [a volta da supressão] marca um passo retrógrado da luz para a escuridão”, diz Jefferson.

Mesmo que ambos tenham morrido em 1826, levaria duas guerras mundiais e uma Declaração sobre a Liberdade Religiosa no Concílio Vaticano II para resolver os problemas que isolavam a Companhia de Jesus de grandes parcelas do público americano.

Como isso pôde acontecer? O historiador da Universidade de Notre Dame John T. McGreevy responde com o seu desafiador “American Jesuits and the World: How an Embattled Religious Order Made Modern Catholicism Global” [Jesuítas americanos e o mundo: como uma ordem religiosa preparada para o combate tornou moderno o catolicismo global, em tradução livre].

Imigrantes e jesuítas vieram para o Novo Mundo fugindo de algumas formas de opressão, mas enquanto provavelmente a metade dos 60 milhões de europeus eram católicos que, na época, identificavam-se com a cultura americana, os jesuítas, que somavam apenas 600 membros idosos em 1814, viam-se como uma ordem religiosa internacional orientada em direção a Roma. Ainda que tivessem crescido para 7 mil membros no final do século XIX, os jesuítas foram expulsos da Europa por “intromissão em intrigas políticas”. Com o passar do tempo, cerca de um mil construíram uma nova subcultura católica de paróquias, escolas, universidades e revistas para competir com o “modo americano de vida”.

Poucos estudos ilustram tão claramente as “ansiedades [jesuítas latentes] sobre o nacionalismo e as reformas democráticas associadas com o iluminismo e a Revolução Francesa”. A Companhia recuava da modernidade enfatizando a obediência e a filosofia escolástica, e redigindo e defendendo o Sílabo dos Erros, do Papa Pio IX, publicado em 1864, e a declaração de infalibilidade papal em 1879. Quando o primeiro teologado jesuíta, o  Woodstock College, foi fundado nas remotas colinas do lado de fora de Baltimore, exilados jesuítas europeus constituíram o corpo docente para proteger os escolásticos das “ideias falsas” americanas, como as de democracia e separação da Igreja e o Estado.

Enquanto isso, em Ellsworth, no estado de Maine, em 1854, quando o padre jesuíta John Bapst, imigrante suíço, peticionou à comissão escolar daquela cidade a não exigir que os alunos católicos lessem a Bíblia na tradução protestante de King James, uma multidão de 100 homens o desnudou e cobriu o seu corpo com alcatrão e penas. Não obstante, Bapst persistiu e, em tempo, conseguiu fazer com que os católicos estabelecessem a sua própria escola.

Enquanto Maine fervilhava, o debate voltou-se para a proposta de lei conhecida como Kansas-Nebraska Act, que permitiria que os cidadãos dos novos estados decidissem se aceitariam escravos ou não.

Quando mais de 3 mil ministros protestantes assinaram uma petição atacando esta proposta pró-escravocrata, nenhum sacerdote católico a eles se juntou. Os católicos poderiam não considerar a escravatura como um bem absoluto, mas a publicação jesuíta La Civiltà Cattolica a defendia como “não absolutamente contrária à lei da natureza”.

Em St. Louis, uma série de palestrantes demonstraram que o anticatolicismo prosperava. Heinrich Boernstein, editor do Anzeiger des Westens, o mais antigo jornal de língua alemã da região oeste do Mississippi, atacava as “maquinações” jesuítas contra os EUA como o “último baluarte da liberdade religiosa”. Romances antijesuítas tornaram-se best-sellers.

Quando o Forte Sumter [localizado em Charleston, Carolina do Sul] foi atacado no início da guerra civil, o geral jesuíta ordenou que os membros da congregação não assumissem um lado da batalha. Um punhado deles, incluindo Pierre-Jean De Smet, famoso apóstolo para os índios, apoiou a União como o “governo legítimo”, mas a maior parte dos jesuítas ficou ao lado dos confederados.

O principal intelectual católico leigo, Orestes Brownson, preocupava-se que os católicos e jesuítas imigrantes não estivessem assimilando os costumes americanos. Bapst recusou-se a admitir Brownson, depois de ter perdido dois filhos para a União, em uma casa de formação jesuíta em Boston porque Brownson apoiava a emancipação imediata. Brownson escreveu que os jesuítas apoiam os rebeldes não porque gostam da escravidão, mas “porque odeiam a república”.

O principal motivo do Concílio Vaticano I para a declaração de infalibilidade, diz McGreevy, foi um desejo de alertar os líderes nacionalistas de que a Igreja era “um organismo corporativo poderoso em seu meio”. E os jesuítas saudaram a infalibilidade como um “teste aos católicos liberais”.

A dedicação jesuíta ao culto miraculoso ou “místico” das relíquias e revelações pessoais, e a ênfase deles no sofrimento como um elemento redentor, isolava ainda mais a Companhia da Igreja americana. Quando o padre jesuíta Burchard Villiger assentou a pedra fundamental da igreja deL Gesù na Filadélfia em 1879, ele unia dois mundos. Esta igreja foi assim chamada e modelada em lembrança à obra-prima barroca do século XVI, a sede jesuíta original em Roma. No espírito da época, ele reuniu mais de 400 relíquias, incluindo três lâminas da cruz verdadeira.

Em 1851, também fundou a St. Joseph’s College, cujo prédio transformou-se na escola preparatória quando a faculdade se mudou para um outro bairro. Para Villiger, a formação jesuíta primeiro produz um cavalheiro católico e, depois, um conhecedor, com o currículo dominado pelo latim e pelo grego.

As Primeira e Segunda guerras mundiais forçaram os jesuítas em vários lugares, inclusive nos EUA, a identificarem-se com os Estados-nação. Uma das aventuras mais bem-sucedidas foi a decisão do superior geral de substituir os jesuítas espanhóis nas Filipinas, que não haviam conseguido produzir um “catolicismo vibrante” em suas missões, por jesuítas americanos, que vestiam ternos, não vestes, e que ensinavam aos meninos esportes, como o boxe. Eles também foram presos pelos japoneses durante a Segunda Guerra. Por fim, ficou claro que era chegada a hora de os americanos irem para casa e deixar os jesuítas filipinos assumirem o controle.

McGreevy conclui com o ensaio de Karl Rahner escrito após o Concílio Vaticano II sobre o “surgimento de uma Igreja mundial de um modo plenamente oficial”. No século XIX, a Igreja considerava-se superior e “exportava uma religião europeia como uma commodity que, na verdade, não queria mudar. Rahner sustentava que “a vitória do vernáculo na liturgia” permite que as igrejas individuais existam dentro de suas esferas culturais e as deixou serem si próprias.

Hoje, os jesuítas americanos ensinam os valores de uma formação clássica e enviam a si próprios e seus alunos ao mundo inteiro na busca dos direitos humanos, da justiça e da paz. Adams e Jefferson podem relaxar.

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