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09 Janeiro 2017

A primeira palavra, ciberguerra, há muito que está figurando no Dicionário Oxford. A segunda, pós-verdade (post-truth), foi escolhida pelo célebre dicionário como a palavra do ano de 2016. Ambas têm sido e serão a linha dominante dos próximos anos. O segundo termo devemos ao Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e, na Argentina, o acesso de Mauricio Macri ao poder, graças ao desenho atualizado da pós-verdade, o "vale tudo", promovido por Durán Barba.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 06-01-2017.

A ciberguerra está há décadas causando estragos e confrontos subterrâneos entre os Estados. Apesar disso, para a grande maioria da opinião pública esses confrontos no ciberespaço assemelham-se mais à uma ficção cinematográfica do que à realidade. Agora, no entanto, essa ciberguerra deixou o imaginário ficcional para instalar-se na realidade com uma força perfeitamente demonstrada pelo resultado das eleições norte-americanas e as reiteradas denúncias (não provadas) de Washington contra Moscou sobre o seu poderio cibernético.

Está claro que, nesta etapa da história, a Rússia ganhou várias batalhas decisivas dentro do ciberespaço. Moscou substituiu a China como o principal agente das incursões cibernéticas. Segundo declararam perante o Senado norte-americano os maiores responsáveis pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, James Clapper, Diretor de Inteligência Nacional, Michael Rogers, o chefe da Agência de Segurança Nacional (NSA), e o subsecretário de Defesa para Inteligência, Marcel Lettre, "a Rússia é um ciberagente completo que representa uma grande ameaça para o governo estadunidense e seus interesses militares, diplomáticos e comerciais". Washington, é claro, não é de todo inocente. Durante décadas os Estados Unidos vêm devastando sistemas com a sua ciberferramenta Master Mind, realizando incursões hostis em países inimigos ou aliados, ou espionando todo o planeta através do programa Echelon e da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos EUA, e seu programa de espionagem global, o Prism.

Maxime Pinard, diretor de ciberestratégia do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas francês (IRIS) havia assinalado há um ano atrás: "Estamos nos dirigindo para uma militarização reforçada do ciberespaço". A mudança dramática que ocorreu durante 2016 é resumida ao fato de que a Rússia se adiantou às potências ocidentais e conseguiu vencer batalhas importantes no ciberespaço. Desde a guerra na Ucrânia, quando Moscou conseguiu circundar as comunicações eletrônicas entre as tropas ucranianas e os centros de comando, até a suposta intercepção dos e-mails de Hillary Clinton e do Conselho Nacional democrata, Vladimir Putin ridicularizou as potências tecnológicas do ocidente e, ao mesmo tempo, a Aliança Atlântica (a OTAN), que em 2008 havia criado o CCDCOE, Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence. Trata-se de uma estrutura localizada na Estônia, responsável pela defesa cibernética e, evidentemente, de ciberataques. Vale recordar que em 2007, a Estônia foi um dos primeiros países a sofrer as consequências de um ciberataque global, que paralisou praticamente toda a sua infraestrutura.

O famoso ciberataque de 2010 montado pelos EUA e Israel contra o programa nuclear do Irã através do vírus Stuxnet é considerado apenas um aperitivo se comparado com a intensidade dos ataques atuais. Inclusive, ainda faltam elementos efetivos para comprovação formal do envolvimento da Rússia no hackeio das mensagens de Hillary Clinton, entre outros ataques, a história mudou de rumo: "este caso é um divisor de águas na ciberguerra", diz Nicolas Arpagian, especialista e autor de livros como La Cyberguerre e La Cybersécurité.

Arpagian salienta que tem ocorrido uma rápida atualização da guerra cibernética envolvendo vários Estados: "Hoje não existe nenhum conflito moderno que não inclua um capítulo digital. Este é o caso de Israel, França, Grã-Bretanha, China e Rússia". Até um ano atrás, a China era a principal culpada dos ciberataques em massa. Em setembro de 2015, durante uma visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos, ambas as potências assinaram um acordo de um "código de boa conduta cibernética" inspirado em um relatório elaborado por um grupo de trabalho das Nações Unidas.

Segundo revelado pelo New York Times, nesse documento, cada país deveria se comprometer a não atacar os centros vitais, como as usinas de energia elétrica, os sistemas bancários, as redes de telefonia ou hospitais. A China havia acumulado, naquele momento, um volume consistente de sucessos no ciberespaço. Agora, a Rússia deslocou a China graças a um "savoir-faire" em várias áreas decisivas, como "as matemáticas", diz Nicolas Arpagian.

A ciberguerra é um mastodonte com seus pés sobre duas fronteiras: está entre os interesses dos Estados e as metas dos grandes grupos industriais que também recorrem a seus métodos. Nesse jogo, apenas um punhado de países têm capacidades verdadeiras. Os demais são agentes menores ou vítimas permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, Irã, Israel, França e Grã-Bretanha são o grupo de países que dominam essas tecnologias como ninguém. Isso cria uma assimetria alucinante entre esse seleto clube e o resto das nações do planeta, as quais, por sua vez, compram alta tecnologia contaminada por esses mesmos países. Os ciberataques são frequentemente invisíveis, sem deixar vítimas ou manchas de sangue. Constituem uma ameaça turva e impalpável cuja visibilidade recém agora começa a ser contundente na sombra do conflito entre Washington e Moscou derivado do ciberataque contra Hillary Clinton e os democratas.

Se essa intercepção, a princípio inocente, pôde mudar o rumo das eleições presidenciais da maior potência mundial, torna-se fácil imaginar até onde isso pode chegar. É um âmbito fundamental. Em dezembro de 2016, em uma coluna publicada pelo jornal francês Les Echos, o general Pierre de Villiers, chefe do Estado Maior francês, escreveu: "nossos três exércitos nunca deixaram de estar presentes nos cinco meios que são a terra, o mar, o ar, o ciber e o espaço".

A inclusão dos termos "ciber" e "espaço" demonstra como ambas as dimensões já são eixos da guerra moderna. Poucos dias depois, o Ministro de Defesa francês, Jean-Yves Le Drian, adiantou que "amanhã haverá um quarto exército que se chamará de ciberexército". Em seguida, o ministro detalhou o alcance dessa guerra no ciberespaço: "as ameaças no ciberespaço são o resultado de uma diversidade inédita de atores (cibercriminosos, hacktivistas, Estados, grupos terroristas) entre os quais as fronteiras são permeáveis.

Estas ameaças são extremamente variadas. Um ataque, inclusive rudimentar, contra um sistema de voto eletrônico pode perturbar a vida democrática de uma nação. A paralisia dos meios de comunicação pode perturbar profundamente a vida social. A paralisia de um sistema elétrico pode alterar seriamente a vida cotidiana dos cidadãos e de sua economia". A França tem programado preparar até 2019 um "exército digital" de cerca de 3.000 integrantes.

De forma cínica, os Estados Unidos vestiram o traje de cibervítima quando, na verdade, tem sido a potência mais invasiva da história, graças ao que se acreditava ser seu avanço tecnológico. Moscou ganhou hoje um capítulo da guerra moderna. Não por acaso, protege Edward Snowden em seu território, o ex-agente da CIA e da NSA que revelou ao mundo inteiro a espionagem maciça sobre cidadãos, empresas, Estados e líderes políticos que Washington realizava durante anos, com a comprometida colaboração da Apple, do Facebook, do Google, do Yahoo! e outros cibernegócios. A grande potência do norte chora publicamente a sua derrota, mas tem um prontuário volumoso de ciberguerras. O problema está em que qualquer aficionado mentiroso como Trump ou Durán Barba pode tornar-se um apóstolo da pós-verdade. A ciberguerra é outro assunto pelo qual as nações menos desenvolvidas do mundo estão despidas de suas consequências.

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