O fenômeno da midiatização e as instituições

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Por: Vitor Necchi | 16 Dezembro 2016

Discussões sobre midiatização e instituições pautaram as palestras do 1º Seminário Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais realizadas na tarde de terça-feira (13/12) no Auditório Central da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. O evento, que objetiva estimular a reflexão sobre o conceito de midiatização a partir das tensões entre perspectivas diversas, reúne pesquisadores do Brasil e provenientes da Argentina, da França, da Suíça e da Dinamarca. Participaram da atividade os professores Stig Hajvard, da Universidade de Copenhague, Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, e José Luiz Braga, da Unisinos.


Seminário ocorreu no Auditório Central da Unisinos (Foto: Vitor Necchi)

Em sua apresentação, denominada Dependências críticas: Instituições, poder e a vida cotidiana, Stig Hjarvard partiu da perspectiva que uma afirmação fundamental da teoria da midiatização é a crescente integração das mídias tecnológicas na vida social e cultural. Esse processo estabelece que a atividade humana e a comunicação verificadas em espaços formais e informais se tornam condicionadas e reestruturadas pela mídia.

Hjarvard abordou as tensões entre experiências de aumento de autonomia individual e novas formas de dependências de poderes sistêmicos e institucionais. Ele tenta observar como os indivíduos percebem a dependência da mídia e como vivenciam a experiência com diferentes mídias (televisão, rádio, jornal, internet etc.). Há diversas dimensões de dependência, em especial à mídia digital, com consequências sociais, econômicas e emocionais.

Conforme o professor, “a mídia interativa permite que o indivíduo se comunique e aja além do espaço social imediato e de suas obrigações, mas a mídia também cria novas formas de dependências devido ao aumento de integração e da presença de exigências institucionalizadas do local de trabalho, do mercado e do Estado”.

Para a discussão que propõe, Hjarvard partiu de pressupostos teóricos da Escola de Frankfurt – em particular Jürgen Habermas –, das ideias de José van Dijck sobre mídia social e da análise de Erving Goffman sobre encontro social e seus conceitos de fachada, bastidor e território pessoal. Destacou que “a experiência frequentemente frustrante de aumento de atividade humana é um reflexo de um processo maior em que as racionalidades instrumentais do mundo do sistema se tornam presentes e talvez dominantes nos ambientes do mundo da vida”. De acordo com Hjarvard, as redes digitais oferecem um aumento da atividade humana. “Nossa vida em rede permite que nos escondamos ao mesmo tempo em que estamos conectados.”

O pesquisador dinamarquês compartilhou com a plateia dados de uma pesquisa realizada no seu país em 2015 sobre a utilização e a percepção de influência das diversas mídias nas interações sociais e a manutenção das relações sociais em espaços de trabalho e de lazer. Por meio da pesquisa, descobriu-se até que ponto o uso de mídias sociais afeta interações presenciais, o quanto as pessoas são dependentes das redes sociais em situações familiares e de trabalho e também o quanto as pessoas alteram seu comportamento em situações online e off-line. Hjarvard salientou que a dependência da mídia é vivenciada porque a mídia expande o terreno de encontro social.

Entre os entrevistados, dois terços afirmaram conhecer alguém no círculo próximo que se tornou muito dependente de uma ou mais mídia. No entanto, de maneira paradoxal, poucas pessoas se assumem dependentes. Em outra pergunta, a pesquisa buscou identificar com que frequência os dinamarqueses percebem as outras pessoas menos presentes por conta de telefone ou tablet, por exemplo: 1% disse que nunca vê; 8% vê raramente; 41%, às vezes; 14%, muitas vezes; e 35%, com frequência.

Muniz Sodré

Muniz Sodré, em sua apresentação intitulada Instituição e biopoder, ponderou que considera necessário estabelecer uma distinção entre organização e instituição social para se discutir o relacionamento entre instituições sociais e midiatização. A organização se articula não em função do saber, mas do poder. E a mídia, em toda a sua variação tecnológica, é basicamente organizacional. Para ele, midiatização é um conceito que descreve o funcionamento articulado das organizações e dos indivíduos com a mídia.

O professor da UFRJ esclareceu que “a midiatização não é metáfora para uma totalidade substancial, e sim o conceito (assim como mídia também é conceito) descritivo de um processo de mudanças qualitativas em termos de configuração social por efeito da articulação da tecnologia eletrônica com a vida humana”. Trata-se do bios virtual como biopoder. É imperativo conceber não mais uma ecologia de ideias, mas do sensório, da sensorialidade, em um contexto em que “o ódio impalpável transborda na sociedade”. Para Muniz Sodré, a midiatização é fenômeno avesso à regulamentação privada ou do Estado.

José Luiz Braga

Antes de iniciar sua apresentação, chamada Instituições e Midiatização – Um olhar comunicacional, José Luiz Braga comentou que tinha algumas discordâncias conceituais com os colegas de mesa que lhe antecederam, mas que isso era positivo, pois considera que a comunicação é mais forte e séria quando não se tem total acordo. “Não aprendo com quem concordo totalmente”, salientou.

Braga afirmou que, para o desafio de relacionar midiatização e instituição, antes precisava se valer de um terceiro termo: comunicação, ou a perspectiva do olhar comunicacional, pela qual vê os dois conceitos e suas relações. “Nosso interesse pelas mídias – no campo de estudos em Comunicação – decorre de percebê-las como instituições expressamente voltadas para processos que são relacionados à comunicação social. Observo, então, as mídias como parte apenas do contexto interacional abrangente, na sociedade – mas essa parte é, hoje, central e de grande relevância na própria organização da sociedade”, explicou.

Para o professor, as mídias integram um contexto comunicacional mais abrangente: as interações sociais, incluindo aí a comunicação oral e escrita. Neste aspecto, comparou o Brasil, onde a comunicação ainda se caracteriza essencialmente pela oralidade, com a Europa, marcada pela comunicação escrita, particularmente o livro. “A passagem da comunicação social ao uso generalizado de mídias é um processo gerador e transformador das instituições. Entre estas, as próprias instituições midiáticas e suas lógicas.”

Antes de discutir o ponto específico da midiatização, Braga tratou de algumas relações entre comunicação e instituições. “A língua é uma instituição”, frisou. “Não só a língua – todas as instituições sociais são sistemas de regras e lógicas, que servem de referência para a interação humana. Isso significa que as instituições fornecem o compartilhamento de base necessário para as interações.”

É possível, então, relacionar as instituições e o processo da comunicação. “As instituições são uma base para a interação – que ocorre então em acordo com suas lógicas. As grandes instituições socioculturais são referências comuns, compartilhadas pelos participantes sociais. Nós podemos nos comunicar, malgrado as diferenças entre os humanos, porque temos estes padrões como referência”, afirmou. Na sua perspectiva, apresenta a hipótese de que o ser humano desenvolveu a linguagem verbal em decorrência de competência biológica para a interação. “E, com seu apoio, em interações continuadas, desenvolveu as demais instituições”, explicou. “A sociedade só existe porque os seres humanos se comunicam.”

Braga destacou que a mídia se instituiu ao longo do século 20, sendo percebida como instituição autônoma, distinta das demais. “Uma distinção principal é que a instituição midiática tem como característica produzir e desenvolver ações comunicacionais. As outras instituições, diferentemente das mídias, “têm objetivos definidos, que não são essencialmente voltados para a comunicação”. Ainda assim, precisam manter interação com o ambiente social, de maneira constante, para que cumpram os objetivos que caracterizam sua especificidade.

Ao tratar de midiatização, Braga salientou a necessidade de distingui-la de mídia – um processo e uma instituição. “Quando adotamos a palavra midiatização, já não estamos falando apenas de processos da mídia – mas sim de ações que, de algum modo, relacionam o ambiente social (e seus variados processos) com as mídias”, explica. De maneira simplificada, ele considera que o termo midiatização “diz respeito a relações (diversas) entre as instituições midiáticas e as demais instituições sociais”.

O termo midiatização suscita diferentes questões, “conforme os âmbitos e modos de relacionamento das mídias com outras instituições a que se dê atenção”. Braga apresentou algumas possíveis caracterizações, destacando “o fato de que a sociedade passa a desenvolver processos midiáticos próprios, adequados para as interações de seu próprio interesse”. Conforme o professor, “o ponto de partida de tal invenção pode se situar diretamente nas instituições sociais; ou no ambiente geral da sociedade e mesmo por atores individuais, através de gestos não inscritos em processos diretamente institucionalizados”. Em sua reflexão, optou por desenvolver mais esse ponto, o qual julga importante em uma perspectiva comunicacional. O ângulo preferencial de Braga para estudar o processo de midiatização da sociedade é investigar os “processos tentativos nos quais todas as instituições sociais – e setores externos em tensionamento com as instituições – adotam, mas também reajustam, e ainda, inventam novas lógicas midiáticas”.

Encerrando sua apresentação, Braga apresentou três argumentos principais para estimular tais ângulos de investigação: “1) Nesse espaço, é possível observar a comunicação humana diretamente em seu processo de transformação e criação de instituições; 2) Isso permite ampliar o conhecimento sobre o próprio fenômeno comunicacional humano; 3) Em perspectiva praxiológica, tem-se aí um espaço em que uma crítica da mídia pode se manifestar para além do que já está instituído. É possível, aí, criticar os próprios encaminhamentos instituintes – acionados em experimentação pelas instituições, por atores individuais dispersos – eventualmente, a contrapelo das instituições vigentes”. Conforme Braga, “essa crítica é fundamental, porque aí se encontra, em gestação, o que caracterizará, em futuro próximo, as instituições”.

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