A força da esperança. Panorama geral com o prêmio Nobel, Pérez Esquivel: o momento pós-Castro, Trump e América Latina, os golpes brandos e o peso do narcotráfico

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09 Dezembro 2016

Para que fique bem claro, não poupando as palavras: "Espero que o novo presidente Trump tenha bom senso e compreenda que, com os povos da América Latina deve tomar uma atitude de cooperação e não de prepotência". Nos encontramos no Teatro Argentina, em Roma, com Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, ao terminar o seu lectio magistralis sobre "A força da esperança." Com sua lucidez habitual e liberdade, ele descreve um panorama geral das possíveis perspectivas de seu continente e os efeitos do novo curso estadunidense. Do pós-castrismo ao futuro de Cuba, os "golpes brandos", as novas "ditaduras do capital" e o poder nefasto dos narcotraficantes. E por último, mas não menos importante, a situação no seu país, a Argentina.

A entrevista é de Stefania Falasca, publicada por Tierras de América, 07-12-2016. A reportagem é de Henrique Denis Lucas.

Depois de Fidel Castro, que futuro terão as relações entre Havana e Washington?

Foram restabelecidas as relações com Washington e isso abre grandes possibilidades de colaboração mútua. A melhor coisa que poderia fazer o novo Presidente Trump, neste momento, é cancelar o embargo e resolver os problemas que ainda existem, respeitando as diferenças de cada uma das partes. Os Estados Unidos devem alterar o seu olhar em relação à Cuba e à América Latina. Já não é mais possível comportar-se como no passado e resolver os problemas enviando tropas.

Trump disse que pretende reforçar o embargo e que não irá prosseguir com o projeto de Obama. Por que seria benéfico para os Estados Unidos mantê-lo?

Obama conseguiu algumas coisas, mas não conseguiu levantar o embargo. Espera-se que o novo presidente reconheça à Cuba o seu direito a auto-determinação. O problema é ideológico, mas se posto em prática, os Estados Unidos estarão contra seus próprios interesses, porque os empresários americanos querem levar seus negócios para Cuba. De qualquer forma, os Estados Unidos devem compreender que não podem continuar a manter uma prisão em Guantánamo ou seguir oprimindo povos, além de dever acatar, por exemplo, as múltiplas resoluções da ONU que pedem à Washington para que se termine o bloqueio contra Cuba. Trump conquistou o governo dos EUA, mas não o poder de seu país. O poder norte-americano não está na Casa Branca, mas no complexo industrial e militar, e nas grandes corporações. Portanto, creio que de Trump podemos esperar discursos, mas a realidade desse poder que me refiro o obrigará a ter uma visão mais realista e menos ideológica do mundo. Em breve poderemos ver.

Que peso você crê ter para o destino de Cuba a questão dos exilados cubanos que vivem nos Estados Unidos, especialmente em Miami?

Me trouxe uma impressão muito ruim ver os festejos que aconteceram em Miami pela morte de Castro. Em Miami, a maioria são descendentes daqueles que sempre se opuseram à revolução, porque há cinquenta anos perderam os privilégios que tinham na ilha. É verdade que eles têm poder econômico, especialmente em Miami. São profissionais da dissidência que estiveram à serviço dos interesses dos Estados Unidos. Isto está documentado. No entanto, acho que eles são um grupo politicamente esgotado.

Você acha que depois que Raul Castro saia de cena, em 2018, Cuba pode voltar a ser novamente para os Estados Unidos o que era antes da era Castro?

Não creio que haja qualquer possibilidade de retrocesso. As condições do mundo e do povo cubano de hoje não são as mesmas de ontem. Há mais consciência política, mais consciência unitária. Os tempos são distintos. Certamente que também hajam contradições dentro de Cuba. E esses desafios são tarefa das novas gerações que vêm depois de Raul Castro. É evidente que Cuba precisa de muitas mudanças internas, mas sem renunciar aos progressos e os avanços conquistados. Como por exemplo, no campo da educação, da ciência e da medicina. Nisso não pode haver retrocesso, em todo caso, os novos líderes terão a missão de aprofundar essas áreas e alcançar novos objetivos.

A América Latina está vivendo um momento complexo e contraditório. Como você crê que a nova trajetória de Trump irá encarar o continente?

Até agora, os discursos de Trump têm sido prepotentes, mas como eu disse, vamos ver. Na América Latina, esse tipo de comportamento não é mais tolerado. Espero que o novo presidente saiba como usar o senso comum, que é o menos comum dos sentidos. Ou seja, que ele seja capaz de entender que com os povos da América Latina deve-se ter uma atitude de colaboração e não de arrogância, de diálogo, deixando de lado qualquer inconstância de imposição. O respeito pelo direito dos povos é fundamental hoje. Se deseja governar construindo uma liderança, neste momento há de fazê-lo com ideias, com diálogo, não com armas.

Fala-se de "golpes brandos" e que o poder financeiro internacional e dos grandes capitais não apenas influenciam, mas determinam os governos e suas economias, fazendo com que a democracia se torne estéril. Pode explicar de que maneira operam?

As democracias que vivemos na América Latina são fracas. Muitos acreditam que a democracia é simplesmente votar. Votar é um exercício democrático, mas não é a democracia em si. Democracia significa direitos e igualdade para todos. Em uma época se utilizavam exércitos e golpes de estado para suprimir a democracia. Basta recordar todas as nossas ditaduras sangrentas dos anos sessenta e setenta, até 1983. Após os regimes militares, foi posto em funcionamento um novo mecanismo, uma nova forma de impor ou favorecer governos cúmplices e subordinados aos grandes interesses financeiros. Tudo começou em Honduras, com o presidente Zelaya, onde fez-se uso do Parlamento e da cumplicidade do poder judicial para derrubá-lo. O último desses "golpes brandos" ocorreu no Brasil, contra Dilma Rousseff. Paradoxalmente os políticos que destituíram ela do cargo, acusando-a de corrupção, são um grupo de políticos corruptos, que neste momento trabalham para aprovar uma anistia e encobrir seus crimes. O atual presidente brasileiro, Michel Temer, aplica políticas neoliberais, com grandes benefícios para as multinacionais. É o epílogo de uma nova ditadura do capital que condiciona e determina a liberdade e a decisão do povo. A nova escravidão econômica e política onde o povo já não é mais quem decide o governo de seu próprio país porque a lógica destes golpes responde aos interesses das grandes multinacionais, não ao poder político, mas ao financeiro, que privilegia as rendas e lucros e não as vidas das pessoas. Portanto, o objetivo que perseguem é claro: esvaziar a democracia, marginalizar e descartar os povos.

Como é possível reverter o curso?

Pode ser que os "golpes brandos" não violem os direitos humanos, mas certamente violam os direitos dos povos, e não afetam apenas a América Latina: é um modelo que tende a ser aplicado também em outras situações e continentes, mesmo na Europa. Por isso, o momento histórico exige um deslocamento de uma democracia representacional para a democracia participativa.

O que você pensa sobre a situação na Venezuela?

Me parece que o próximo golpe que pode estar sendo preparado é contra Maduro, uma razão a mais para buscar o sucesso do diálogo que começou entre as partes e poupar este povo do sofrimento final: o sequestro de sua democracia.

Você foi um dos observadores internacionais no processo de paz na Colômbia. O diálogo, como repete constantemente o Papa, permitiu chegar a um acordo de paz. Mas até que ponto esse modelo é seguido em outros conflitos?

Para o Papa Francisco, pontes são construídas sobre a diversidade dos povos, não sobre a uniformidade. Dessa forma, o Papa está fazendo uma contribuição moral autorizada à humanidade, e provavelmente sua voz é a mais crível neste momento, no mundo inteiro. Essa é uma das razões pelas quais a paz pode ser alcançada na Colômbia. Acompanhei de perto este processo. Falei com o presidente Santos e muitas outras pessoas, e participei da renegociação dos acordos. As duas câmaras do Parlamento acabam de aprovar o novo acordo. Mas na Colômbia não é suficiente assinar um acordo de paz para que realmente haja paz.

Por quê?

Porque o país tem muitos problemas a serem resolvidos, ainda que gradualmente. Um desses problemas graves é a questão dos deslocados internos. Há sete milhões de colombianos exilados no interior do país. Seis milhões estão fora. Há também o problema dos grupos paramilitares e os casos em que muitos jovens são sequestrados e assassinados por serem feitos passar por guerrilheiros. Varreduras eram feitas, inclusive em casas noturnas, colocavam-lhes um uniforme de guerrilha e depois os matavam. Durante muito tempo, os militares usaram esse recurso para fazer mérito diante de superiores e avançar em suas carreiras. Durante muito tempo, matar guerrilheiros foi uma honra ou mérito. Atualmente na Colômbia existe a grande preocupação de que possam matar os guerrilheiros "desmobilizados", como aconteceu com a guerrilha do M19, que depois de assinar a paz, foram dizimados. Isso não deve ser repetido.

Então, qual é o principal desafio para a Colômbia neste momento?

O principal desafio é a unidade política e social da nação para enfrentar juntos o desafio da verdadeira paz. Nesta tarefa devem se sentir envolvidos todas as pessoas. Mas a condição essencial é que todos devem estar desarmados. Caso contrário, este projeto não tem futuro. Espero que Santos possa avançar nessa direção.

Um dos grandes dramas do continente é a violência criminal e o poderio dos narcotraficantes. Recentemente o Papa voltou a falar do problema do tráfico de drogas estimulando o rastreio da cadeia de comercialização até chegar nos grandes circuitos de lavagem de dinheiro. Em que medida os governos dependem desse poder?

Hoje o tráfico de drogas é uma das piores maldições que afeta a nossos povos. Está penetrando em todos os níveis da sociedade. Não é um problema simples, porque o tráfico de drogas está sempre junto com o tráfico de armas. As guerras se pagam, se financiam com o narcotráfico. Tem sido documentado na América Central a guerra que foi declarada pelos Estados Unidos contra os sandinistas na Nicarágua, em Honduras, El Salvador e Guatemala. O tráfico de drogas encontra cúmplices na classe política, na polícia, forças armadas e também nos grandes homens de negócio. No meu país, a Argentina, é um problema prioritário, grave. Na fronteira com o Paraguai e com a Bolívia continuamente interceptam cargas de duas mil toneladas de drogas destinadas ao país. Mas nas redes sempre acabam peixes pequenos, nunca os que ganham enormes cifras com o tráfico de drogas. A corrupção desempenha um papel em tudo isso. Hoje a Argentina é um país de consumo de drogas e pode se tornar um país produtor. Os funcionários do governo sempre tentam esconder o problema, quando na realidade é a primeira coisa que deveríamos falar.

Mas a morte do padre Juan Viroche, comprometido com a luta contra todas as formas de tráfico e consumo de drogas, desafiando as máfias que controlam o narcotráfico na área de Tucumán, fez aumentar o nível de denúncia da Igreja...

A Comissão Nacional de Justiça e Paz do Episcopado argentino disse claramente que as máfias lucram com o tráfico de drogas e não hesitam em ameaçar e matar aqueles que consideram como um obstáculo para seus interesses. Mas a resposta, para além da repressão contra este comércio, também deve ser um trabalho educativo decidido e sólido. Os danos causados pela droga mais difundida - que é feita a partir de restos da produção de cocaína, chamada de "paco" - é a destruição da atividade neural do cérebro, convertendo o usuário em um idiota. Fazem anos que esta praga está dizimando e destruindo as novas gerações, e não só a elas. A verdadeira corrupção é tê-las deixado abandonadas nas mãos de traficantes de drogas. O governo não implementa nem tampouco tem propostas para a recuperação e reintegração de usuários. Há poucos lugares que se ocupam desta situação de emergência. Algumas mulheres formaram o grupo "as mães do paco" para lutar contra este terrível flagelo. Mas, nas frentes de prevenção, desintoxicação e recuperação estão nas primeiras linhas de batalha os religiosos como Viroche, que levam esse mesmo compromisso adiante corajosamente, sobretudo os padres das vilas, como o Padre Pepe Di Paola na Vila La Cárcova e muitos outros nos bairros pobres de Buenos Aires. É necessário apoiá-los. É necessário que estes projetos sejam divulgados.

Na Argentina a pobreza está crescendo. O que pode fazer o governo de Macri para esta situação que é reiteradamente denunciada, inclusive pela Igreja? Estão sendo criadas as condições para uma nova crise grave como em outras partes do continente?

Na Argentina, o Presidente Macri aplica uma política neoliberal; isso significa privilegiar o capital financeiro sobre a vida das pessoas. E isso é vender o nosso país. De acordo com o observatório social da Universidade Católica Argentina, em poucos meses aumentaram os pobres em mais de quatro milhões, somando-se àqueles que já haviam no país. A classe média empobreceu e segue empobrecendo cada vez mais. Foram cortados os fundos para a educação e a saúde. Penso também no encerramento das orquestras juvenis. É um empobrecimento em todos os níveis. Infelizmente, no país não há uma oposição com projetos e objetivos alternativos que possam confrontar o que o governo está fazendo. Neste momento, estão crescendo as mobilizações sociais por fora dos partidos e que tendem a identificar-se com uma problemática específica. Parece que o governo se dispõe a introduzir algumas medidas de melhoria econômica, pelo menos, para as festas de fim de ano. Isso porque temem que ocorram saques, algo que vivemos e que não queremos voltar a viver.

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