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06 Dezembro 2016

As mudanças no quadro internacional despertam expectativas no Kremlin e nos analistas. O especialista Boris Kagarlitski argumenta que se trata "da reação tardia da opinião pública, testemunha da política que levou à crise e que responsabiliza a classe política".

A reportagem é de Agustín Fontenla, publicada por Página/12, 05-12-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Com o triunfo do Não no referendo convocado pelo primeiro-ministro italiano Mateo Renzi, o Kremlin se encaminha para fechar um ano de grandes celebrações. O euroceticismo que impediu uma reforma política na Itália patrocinada pelo establishment europeu, soma-se ao triunfo de Donald Trump, a saída do Reino Unido da União Europeia, as eleições primárias na França e os recentes comícios presidenciais na Moldávia e Bulgária (ambos antigos satélites da URSS, ainda que o último tenha sido uma república soberana), que na Rússia são interpretadas como uma mudança em favor de seus interesses.

O otimismo é constatado entre as mais altas autoridades da nação. Em seu discurso de fim de ano frente à Assembleia Federal Russa (o parlamento) e aos milhões de cidadãos que o assistiam em rede nacional, o presidente Putin afirmou que as recentes eleições na União Europeia mostravam a crescente "demanda por uma política e uma economia independentes" nos Estados Unidos. Nas entrelinhas, Putin referia-se à administração de Obama, que impulsionou a UE a tomar medidas contra Moscou pela guerra no leste da Ucrânia.

Dias antes, a influente porta-voz do senado russo, Valentina Matvienko, afirmou exultante que estavam sendo geradas "mudanças tectônicas" nas relações internacionais, e que havia um crescente interesse em ouvir a Rússia. Mais otimista foi um dos assessores da presidência russa, Sergei Glazyev, que chegou a dizer que, com a chegada do magnata norte-americano à Casa Branca, "pela primeira vez na história geral, há uma chance de se alcançar uma nova ordem econômica para o mundo sem lutar uma guerra mundial".

Os fatos parecem dar-lhe razão. Além do Não a Renzi, dias atrás, o presidente da França, François Hollande, anunciou dramaticamente que não concorreria à reeleição no próximo ano. Hollande foi um dos mais rígidos opositores de Moscou na Europa. Juntamente a Barack Obama e Angela Merkel, ele impulsionou as sanções contra a economia russa pela guerra no leste da Ucrânia e a anexação da Crimeia.

Com sua recusa a concorrer a um segundo mandato presidencial, Hollande deixa o caminho livre para a direita, representada pelo ex-primeiro-ministro François Fillon e pela ultranacionalista Marine Le Pen, que mantêm boas relações com Putin e se opõem a seguir o mandato de Washington.

Em suma, as mudanças geradas em 2016 no panorama internacional despertam expectativas por uma nova era, talvez mais de acordo com os interesses do Kremlin. Segundo Alexander Rahr, presidente do Fórum Russo-Alemão e membro do Valdai Club (um popular local de discussões perto do Kremlin), "a situação será melhor para a Rússia, porque haverá uma ruptura no Ocidente, com a visão de líderes como Obama, Hollande e outros europeus, que priorizavam muito mais a política externa baseada em valores do que a real politik ou a política em termos de interesses." Do seu ponto de vista, a chanceler alemã, Angela Merkel, é "a última líder ocidental que persegue esses valores liberais dominantes".

Em uma análise diferente, o sociólogo marxista russo de ampla trajetória acadêmica e partidária, Boris Kagarlitsky, argumenta que não se trata de uma guinada a favor do Kremlin, mas de uma "reação tardia da opinião pública, que foi testemunha da política que levou à crise econômica e pela qual responsabiliza a elite e a classe política".

Em sua opinião, essa reação não implica em uma mudança de tendência a favor do Kremlin, nem crê que se modifiquem substancialmente as relações entre Moscou e do mundo. Na realidade, a Rússia "está se beneficiando, em parte, porque a elite liberal e os oligarcas do Ocidente colocaram Putin como o principal oponente do sistema em um nível geopolítico; e como as pessoas estão contra o sistema, sua reflexão é que talvez Putin esteja fazendo o correto".

O caso da Bulgária e da Moldávia é expressivo sobre o modo em que Putin capitaliza o ódio social contra o establishment. Segundo Kagarlitski, "os partidos socialistas da Moldávia e da Bulgária conseguiram se mostrar dissociados da política das oligarquias (embora não aconteça realmente assim), pois se associaram com a Rússia e isso prova de alguma forma que eles estão no lado oposto." Neste caso, "a histeria sobre Putin" expressa pelo Ocidente, "terminou caindo de paraquedas no colo dos partidos socialistas da Bulgária e Moldávia".

O editor da revista Russia in Global Affaris, Fiodor Lukianov, também menciona a "histeria" sobre Putin, mas em um sentido contrário. Enquanto que no mundo a imprensa e o establishment estavam alarmados com a suposta harmonia entre Trump e Putin, Lukianov argumenta que se tratava do discurso "da máquina de propaganda de Hillary Clinton." Na realidade, "se formos observar as nomeações para o gabinete de Trump, existem apenas alguns sinais de que esta administração poderia aproximar-se da Rússia".

O mesmo ceticismo sobre os Estados Unidos é mantido em relação a saída do Reino Unido da União Europeia e um eventual triunfo da direita na França. "Alguns políticos russos imaginaram que poderia haver alguma mudança em direção a Moscou, mas não há nenhuma razão para acreditar que há alguma melhora, porque os ingleses estão totalmente confusos com seus assuntos internos". Quanto às eleições francesas, "se Fillon se tornar presidente e quiser remover as sanções contra a Rússia, existe um funcionamento interno na União Europeia que deve ser respeitado".

Kagarlitski acredita que "a União Europeia, na sua forma atual, caminha rumo a desintegração. Mas, em caso de que mude drasticamente sua forma de integrar-se, deveria fazê-lo conjuntamente à Rússia. O problema é que, na ausência de ideias na Europa, "nem Putin, nem os políticos russos de hoje podem oferecer novas ideias ou um novo modelo."

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