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26 Novembro 2016

"Casa é também o espelho que nos devolve sem subterfúgios as rugas, os cabelos brancos, os danos que tempo cavou em nosso rosto. Mas o espelho da casa/lar devolve igualmente o olhar que, por sua vez, desvela a alma nua, sem falsidade. E ali o peso dos anos deixaram impressos sucessos, alegrias e vitórias, sem dúvida, mas também vestígios indeléveis de tristezas e medos, fracasso e insegurança, angústias, incertezas e interrogações", escreve em artigo Alfredo J. Gonçalves, padre carlista e assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

“O homem é condenado a ser livre” – setenciou o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre. A liberdade, irmã siamesa da responsabilidade, pode tornar-se efetivamente um dos maiores fardos do ser humano. Nas últimas décadas, com a revolução dos transportes, das comunicações e da informática, ampliou-se de forma desmedida o espaço da liberdade individual. Isso vale sobretudo para o uso da Internet, a formação das redes sociais e um espaço virtual aparentemente sem limites. Neste campo livre, aberto e sem fronteiras, tudo parece permitido, inclusive invadir a privacidade do cidadão, particularmente quando este vem a ser uma “celebridade” no mundo da política e da economia, da televisão e do cinema, da moda, do esporte e da arte.

Ao mesmo tempo que se ampliam vertiginosamente os espaços da liberdade, porém, o mesmo ser humano corre o risco de perder o valor da “casa”. Casa como lugar de referência, de refúgio, de bem-estar. Ambiente íntimo e familiar, calor do que chamamos lar. Lugar onde o indivíduo é livre para ser ele mesmo, para despir as muitas máscaras que é obrigado a usar na sociedade real ou virtual. E para revelar sem medo nem vergonha a própria nudez, bem como a fraqueza e debilidade que a todos nos fragiliza. Uma pessoa somente é capaz de desnudar-se diante do olhar de quem a ama. De outra forma, sentir-se-ia exposta à curiosidade alheia, em plena praça pública. O amor reveste a nudez do ser amado. Daí o ditado popular segundo o qual “mesa e cama só se partilha com quem ama”.

Casa é também o espelho que nos devolve sem subterfúgios as rugas, os cabelos brancos, os danos que tempo cavou em nosso rosto. Mas o espelho da casa/lar devolve igualmente o olhar que, por sua vez, desvela a alma nua, sem falsidade. E ali o peso dos anos deixaram impressos sucessos, alegrias e vitórias, sem dúvida, mas também vestígios indeléveis de tristezas e medos, fracasso e insegurança, angústias, incertezas e interrogações. Nos últimos tempos, em especial, as perguntas parecem substituir as antigas respostas prontas, que tínhamos na ponta da língua. Ao mesmo tempo, as dúvidas se instalaram no lugar das tradicionais “verdades e certezas”. Dito de outra forma, as perguntas se tornaram maiores e mais inquietantes que nossa capacidade de responder. E isso é sinônimo de crise! E na crise, emerge com força o desejo de resgatar a identidade.

Resulta evidente a necessidade de uma casa, referência ou identidade. De uma forma ou de outra, sentimo-nos atropelados e arrastados pelo rio de águas turvas, revoltas e turbulentas que representa a globalização econômica e política, a imposição do mercado total, o ciclo crescente e em espiral da produção e consumo. Em meio a essa corrente cada vez mais impetuosa, com a água a bater no pescoço, tentamos com a ponta dos pés tocar o solo firme, pedra ou rocha sólida onde encontrar segurança. É a busca da casa num universo que, pouco a pouco, se transforma em “não lugar”, para usar a expressão cunhada por Mar Augé, etnólogo e antropólogo francês. Na contramão da globalização, erguem-se fortemente as resistências indentitárias, saudosas da própria casa.

A liberdade no sentido de “fazer o que se quer” debilita, neutraliza e liquidifica os marcos fixos e sólidos da experiência humana, seja na relação com a história em geral, seja na relação com a tradição pessoal, familiar ou nacional. Entende-se tradição aqui em seu significado positivo, como transmissão de valores profundos e essenciais da existência. São esses valores que nos levam a outro sentido da liberdade que é o de “fazer o que, para a maioria da população, constrói oportunidades iguais, justiça e paz”. Conectar a liberdade à responsabilidade e à solidariedade conduz-nos a encontrar alguns pontos de apoio naquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman batizou de “sociedade líquida”. A conclusão é que a liberdade, nesta perspectiva, em lugar de um sentimento de necessária condenação, é antes uma abertura viva, livre e positiva a um projeto maior de cuidado e de recriação do planeta terra, da história da biodiversidade sobre ele, com particular atenção à vida humana.

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