Aids na África, os cristãos e o mal esquecido

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18 Novembro 2016

"Às vezes, eu tenho a impressão de que, quando se fala de Aids na África, a questão do preservativo seja apenas uma distração..." O padre Jacquineau Azetsop, 44 anos, é um jesuíta natural de Camarões que leciona na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde foi decano da Faculdade de Ciências Sociais. Ele acabou de organizar um livro intitulado HIV and AIDS in Africa: Christian Reflection, Public Health, Social Transformation [HIV e Aids na África: reflexão cristã, saúde pública, transformação social] (Orbis Books), o estudo mais completo sobre o problema da Aids em âmbito cristão, que reúne cerca de 30 contribuições de especialistas africanos. O livro contém reflexões e análises de acordo com as diversas perspectivas – teológica, pastoral e sanitária – e foi apresentado e discutido nessa quinta-feira, 17 de novembro, na Gregoriana.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 14-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em 2012, cerca de 23 milhões de pessoas na África subsaariana foram infectadas pelo vírus HIV que causa a Aids. Uma pandemia que é, como explica o padre Azetsop, "de forma abrangente, um mal físico e moral que pôs à prova tanto a medicina quanto a sociedade humana". O jesuíta nos diz que, "quando se fala de Aids e, em particular, da sua difusão na África, sempre se menciona a transmissão do vírus devida aos comportamentos e à cultura daqueles que são infectados. Fala-se da ‘promiscuidade’ dos africanos e do seu comportamento. Fala-se muito menos – continua o organizador da obra – do tema social: a marginalização, a pobreza, a discriminação contra as mulheres". Os fatores sociais, as condições de vida da população, de fato, são "fatores fundamentais" para a difusão do vírus.

Depois, existe responsabilidades das lideranças políticas africanas, que não atuam como deveriam para combater a doença e para construir condições mais humanas de vida para as suas populações. "No livro, são relatados testemunhos interessantes, como o do bispo de Rustenburg, na África do Sul, Kevin Dowling, que narra a desolação das pessoas jovens vítimas do apartheid, da desolação psicológica daqueles que pensam que não podem fazer nada contra a doença. Eles dizem: ‘Eu não posso mudar nada, porque minha vida não vale nada!’."

A abordagem para enfrentar a emergência, assim como o livro indica, é "global, holística", que leva em conta todas as dimensões e todos os fatores. Começando pela abordagem cristã ao problema. A epidemia e as suas consequências "são abordadas aqui a partir do ponto de vista bíblico e teológico, para chegar à dinâmica social da doença e fazer com que a Revelação ajude as pessoas afetadas a viver".

De que modo os cristãos africanos ajudam as pessoas infectadas e como as suas comunidades – especialmente as comunidades cristãs pequenas – apoiam os necessitados? A que fundamentos bíblicos e teológicos os fiéis podem recorrer na vida e no trabalho, em vários papéis, de cuidadores a diretor de saúde? Quais são os valores e as práticas, tanto públicos quanto pessoais, que deveriam ser adotados para melhorar o bem-estar público e evitar pandemias futuras? Como se pode adorar o Deus da abundância de vida e celebrar os sacramentos em um contexto ferido pela dor evitável e pelo sofrimento inútil? De que modo as Igrejas cristãs deveriam formar as suas lideranças, lidar com os conflitos e projetar intervenções baseadas na realidade nos momentos difíceis? Essas são as questões abordadas no livro.

"A minha intenção – continua o padre Azetsop – não era de editar um livro dedicado à Europa ou aos Estados Unidos, embora haja teólogos estadunidenses que contribuíram com ele, mas, sobretudo, para as novas gerações de africanos, para ajudá-los a se posicionar diante desse drama e acompanhar as pessoas afetadas."

O estudioso confirma "que a Igreja está fazendo muito, muitíssimo por aqueles que sofrem e para evitar a difusão do vírus. Em alguns países, ela faz mais do que os governos. Trabalha-se para fazer com que a doença não equivalha a uma sentença de morte e, especialmente, para remover o estigma de maldição que a acompanha. Eu não estou nada de acordo – diz o jesuíta – com aqueles que colocam a Igreja e os seus ensinamentos morais sobre a sexualidade no banco dos réus. A Igreja faz muitíssimo".

Por fim, perguntamos ao padre Azetsop o que ele pensa das polêmicas que surgiram da frase de Bento XVI pronunciada em 2009 durante o voo rumo a Camarões, quando o Papa Ratzinger, baseando-se nos resultados positivos obtidos por campanhas educativas, havia observado que o problema não podia ser resolvido apenas com a distribuição de dinheiro e de preservativos.

"Às vezes, a discussão sobre o preservativo é uma distração. É preciso abordar as causas estruturais da pobreza. É preciso visitar as favelas, onde homens, mulheres e crianças vivem amassados... Por que os mais pobres também são os mais infectados? Há um problema de condições de vida, de promiscuidade, de acesso aos tratamentos pediátricos, de acesso aos medicamentos. Comportamento, cultura é educação são importantes, mas, sem abordar a questão das condições sociais e do desenvolvimento humano integral, não vamos resolver o problema."

Em conclusão, vale a pena lembrar a resposta que, a esse propósito, tinha sido dada em novembro de 2015 pelo Papa Francisco, ao retornar da viagem à África, quando um jornalista alemão experiente lhe perguntou, depois de falar sobre a difusão epidêmica da Aids, se não era o caso de a Igreja mudar de posição sobre o "não" ao preservativo.

O papa tinha definido a pergunta como "parcial" e a tinha comparado com aquelas que eram feitas a Jesus pelos doutores da lei. A pergunta citada pelo pontífice tinha sido feita pelo Nazareno aos fariseus, quando ele se encontrava como hóspede na casa de um deles e "diante de Jesus havia um homem hidrópico". Foi o próprio Jesus que fez a pergunta aos apaixonados pela casuística: "É lícito ou não curar no sábado?".

Francisco tinha lembrado que, sim, o preservativo "é um dos métodos" para limitar a difusão da infecção e que "a moral da Igreja se encontra, nesse ponto, diante de uma perplexidade", tendo que ter em mente tanto a necessidade de preservar a vida das pessoas, evitando que sejam infectadas, quanto de defender o exercício de uma sexualidade aberta à transmissão da vida. "Mas esse não é o problema", acrescentara o papa. "O problema é maior."

"É obrigatório curar!", explicara Bergoglio, assumindo a resposta de Jesus, que curou o doente de hidropisia, embora fosse sábado. E continuou: "A desnutrição, a exploração, o trabalho escravo, a falta de água potável, estes são os problemas. Não falamos se se pode usar tal curativo para tal ferida. A maior injustiça é uma injustiça social, a grande injustiça é a desnutrição. Eu não gosto de descer em reflexões casuísticas quando as pessoas morrem por falta de água e por fome. Pensemos no tráfico de armas. Quando não houver mais esses problemas, eu acho que se poderá fazer a pergunta: é lícito curar no sábado? Por que se continua fabricando armas? As guerras são o maior motivo de mortalidade. Não pensem se é lícito ou não lícito curar no sábado. Façam justiça, e, quando todos forem curados, quando não houver injustiça neste mundo, podemos falar do sábado".

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