O risco de viver em uma bolha. "O sacrifício de imigrantes para o sucesso dos EUA". O'Malley: por que o sistema de imigração fracassou e tem que ser reformado

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17 Novembro 2016


O Cardeal O'Malley compartilha da comunhão, em um ponto do muro na fronteira dos EUA com o México / Foto: reprodução Tierras de América

Publicamos o prólogo de um livro que acaba de ser lançado nos Estados Unidos, Power from the Margins. The Emergence of the Latino in the Church and in the Society (Orbis Books), cujo autor é Ricardo Ramírez, Bispo emérito de Las Cruces, Novo México.

O texto é de Sean Patrick O’Malley, cardeal arcebispo de Boston, publicado por Tierras de América. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o texto.

Trabalhei durante vinte anos em Washington com imigrantes provenientes de El Salvador, Guatemala, Nicarágua e, em geral, de toda a América Latina. A maioria deles não tinha um estatuto jurídico e muitos haviam chegado nos Estados Unidos para escapar da violência das guerras civis na América Central. Eu já contei muitas vezes, mas agora parece útil fazê-lo novamente, contando a história dos primeiros dias que passei no Centro Católico e uma vez em que um homem de El Salvador veio falar comigo. Ele sentou-se à frente de minha mesa e começou a chorar enquanto me entregava uma carta de sua esposa, que tinha ficado em seu país: a mulher o repreendeu por ter abandonado ela e seus seis filhos em situação de pobreza e fome. Quando o homem conseguiu se recompor, explicou-me que havia vindo para os Estados Unidos, para Washington, como tantos outro s, porque a guerra havia invadido o seu país e era impossível de sustentar uma família com o trabalho no campo.

Então um coiote (pessoas que ajudam os imigrantes ilegais a passar pela fronteira, nota da redação) o levou para Washington e, naquele momento, ele dividia um quarto com muitos outros homens que se encontravam em uma situação parecida. Seu trabalho consistia em lavar pratos em dois restaurantes, um no almoço e outro no jantar. Para economizar, ele comia as sobras remanescentes nesses mesmos pratos. Ia para o trabalho a pé para não gastar nem sequer o dinheiro de uma passagem nos meios de transporte. Com esta vida, ele poderia enviar todo o dinheiro que ganhava para a sua família. Disse-me que havia enviado dinheiro todas as semanas e estava transtornado porque agora, depois de seis meses, sua esposa dizia que nunca havia recebido uma carta sua e o acusou de abandoná-la. Perguntei-lhe se ele havia enviado cheques ou se tinha feito transferências de dinheiro. Ele me respondeu dizendo que havia enviado dinheiro vivo. E explicou-me: "toda semana colocava o dinheiro que havia ganho em um envelope com todos os selos necessários e depositava na caixa de correio azul da esquina." O problema era que aquela não era uma caixa de correio, mas uma lata de lixo.

Essa história triste me ajudou a ver o que estava acontecendo e compreender melhor as dificuldades e humilhações sofridas por tantas pessoas que vêm aos Estados Unidos fugindo da pobreza e da opressão, com o intuito de dar uma vida melhor para seus filhos. Infelizmente muitos imigrantes passam anos e anos sem poder enviar nada para seus entes queridos. Acontece que muitos avós que ficam em seus países têm de cuidar dos netos, porque os pais emigraram para os Estados Unidos em busca de trabalho para, mais cedo ou mais tarde, ganhar dinheiro e enviá-lo para casa. O Papa Francisco nos encoraja a ir para as "periferias" e olhar nossos próximos que se encontram em situações obscuras e dolorosas. […]. O sistema de imigração que temos nos Estados Unidos fracassou e atormenta os imigrantes que chegam às nossas fronteiras em busca de uma vida melhor para si e para seus filhos. Somos um país de imigrantes e, como tal, deveríamos nos sentirmos identificados com eles e trabalhar para acabar com o seu sofrimento e dor causados por nosso sistema de imigração, que não está funcionando bem e é injusto. Os Estados Unidos são uma nação de imigrantes, de filhos de imigrantes, de netos e bisnetos de pessoas que vieram de todo o mundo. Devido à grande fome irlandesa (em meados do século XIX, nota da redação) e à opressão política, o meu povo veio da Irlanda para cá. Milhares e milhares de pessoas morreram de fome sob aquelas circunstâncias. Nos barcos em que viajavam os imigrantes irlandeses, morreu um terço dos passageiros. Os tubarões seguiam os navios, esperando pelos corpos que seriam "sepultados" no mar. Suspeito que somente os escravos que foram trazido s para o Novo Mundo por navios negreiros tiveram um transporte e uma sorte pior do que a deles.

O escritor Frank McCourt, autor do famoso livro "As Cinzas de Angela", escreveu uma peça intitulada “The irish… and how they got that way" ("Os Irlandeses… e como eles chegaram lá"). Em uma cena, os imigrantes irlandeses se deixam levar pelas memórias e dizem: "Nós viemos para a América porque pensávamos que as ruas eram pavimentadas com ouro. Quando chegamos, descobrimos que as ruas não eram cobertas com ouro, nem sequer eram pavimentadas. Assim, descobrimos que seríamos nós que deveríamos pavimentá-las". O trabalho duro e o sacrifício de muitíssimos imigrantes são o segredo do sucesso deste país. Apesar dos sentimentos xenófobos de uma parte da população, o nosso povo imigrante contribui muitíssimo para a economia e o bem-estar dos Estados Unidos.

Em Lampedusa, o Papa Francisco nos advertiu contra a "globalização da indiferença". Falando da fronteira Europeia, o Papa afirmou: "Perdemos o senso de responsabilidade fraterna. Caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do ministro do altar, dos quais Jesus fala na parábola do Bom Samaritano: olhamos para um irmão agonizando na beira da estrada e talvez pensemos "pobre", mas continuamos por nosso caminho, pois ele não é tarefa nossa. E com isso nos tranquilizamos e nos sentimos bem. A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos torna insensíveis aos gritos dos outros, faz com que vivamos em nossas próprias bolhas, que são bonitas, mas não são nada". Nosso país recebeu o apoio de muitos grupos de imigrantes que tiveram a coragem e a perseverança para vir à América. Eles vieram superando as condições horríveis e alimentando o sonho de uma vida melhor para seus filhos. Eles têm sido alguns dos cidadãos mais trabalhadores, ambiciosos e empreendedores do nosso país, além de trazerem consigo uma energia enorme e uma injeção de boa vontade à sua nova pátria. Trabalharam duro e os sacrifícios que realizaram fizeram desta nação grandiosa.

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