Será que Francisco tem um 'estratégia P&D' na questão dos divorciados e recasados?

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16 Novembro 2016

Vários meios de comunicação reportaram recentemente que quatro cardeais escreveram ao Papa Francisco pedindo esclarecimentos sobre o que eles descrevem como uma "grave desorientação e grande confusão" relacionada ao seu documento sobre a família, Amoris Laetitia. Mais especificamente, eles questionam se é permitido ou não que as pessoas que se divorciaram ou casaram novamente pelo civil voltem ao Sacramento da Comunhão.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 14-11-2016.

Os quatro cardeais são os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner, juntamente com o italiano Carlo Caffarra e o estadunidense Raymond Burke. Como os quatro são considerados conservadores, é razoável supor que eles estavam esperando que a resposta seria "não".

É importante notar, porém, que exatamente as mesmas questões poderiam ter sido perguntadas por progressistas desejosos de um resultado diferente.

(Para constar, os quatro cardeais pediram que sua iniciativa não fosse vista em um "paradigma progressivo/conservador".)

Sem dúvida, alguns vão pressupor que suas referências a "confusão" são uma crítica ao Papa, mas é difícil contestar a forma como os cardeais descrevem a situação. É fato que, como eles dizem, há "interpretações [da Amoris Laetitia] que não são somente divergentes, mas sim opostas". Quem é o suposto culpado não altera a realidade da situação.

Apesar da forma fascinante e precisa com que estes cardeais elaboraram suas perguntas ao Papa, tecnicamente conhecida como dúbia, provavelmente não há nada de novo no simples fato de eles estarem perguntando. Alguém, em algum momento, tinha de fazê-lo.

Talvez o elemento mais interessante da história seja a resposta do Papa, ou melhor, a falta dela.

"O Santo Padre decidiu não responder", escreveram os cardeais. "Interpretamos a sua decisão soberana como um convite para continuar a reflexão e a discussão, com calma e com respeito."

À primeira vista, pode parecer estranho que o Papa não tenha respondido.

Ou ele realmente tinha a intenção de abrir as portas da Comunhão para os divorciados e os que voltaram a casar, e está possivelmente frustrado que alguns bispos estejam impedindo a sua vontade; ou ele não tinha essa intenção, e então se poderia imaginar igual frustração por sua decisão estar sendo mal interpretada e mal aplicada.

O que, então, devemos fazer a partir do silêncio estratégico do Papa?

Até que o próprio Francisco se manifeste, trata-se, naturalmente, de mera especulação, mas aqui está uma possível razão para sua aparente tolerância a um certo caos pastoral nesse momento: talvez esta seja a sua versão do P&D (pesquisa e desenvolvimento) católico, deixando as coisas acontecerem por um tempo antes de dizer algo que não poderá voltar atrás.

(Francisco teceu comentários em uma recente carta aos bispos argentinos parabenizando-os por sua interpretação do documento, mas isso não é o mesmo que um pronunciamento magisterial oficial.)

Por mais de dois anos, durante os dois controversos Sínodos dos Bispos sobre a família, e agora, após o Amoris Laetitia, o catolicismo foi alvo de intenso debate sobre as implicações da possibilidade de Comunhão por pelo menos alguns católicos divorciados ou recasados civilmente.

Os defensores da ideia argumentam que, assim, um maior clima de misericórdia na Igreja seria promovido no contexto do ano do jubileu do Papa, o que traria pessoas mais afastadas da fé a uma prática mais ativa e ajudaria a amenizar a percepção pública do catolicismo como algo duro e implacável.

Eles também afirmam que tal gesto teria valor ecumênico, especialmente em caso de novo casamento com um cônjuge não-católico.

Os críticos, por outro lado, argumentam que tal concessão levaria a uma diminuição do respeito pelo sacramento do matrimônio, podendo levar a mais casamentos desestruturados, por causa de uma possível crença de que os casais católicos agora têm uma "saída alternativa", e que isso seria também modificaria o entendimento da Igreja do sacramento da Eucaristia de maneira profunda e prejudicial.

De um ponto de vista apartidário, é possível que cada um desses argumentos tenha seus méritos, ou, pelo menos, pode-se entender por que alguém seria poderia pensar dessa forma.

O problema da tentativa de resolver o conflito, no entanto, é que até agora ele tem sido teórico, em grande parte. Não temos nenhum "programa-piloto", por assim dizer, para avaliar como funcionaria na prática o encorajamento para que os católicos divorciados e recasados civilmente voltassem à comunhão depois de um processo de discernimento - bem como avaliar se realmente traria tanto as variáveis positivas quanto as negativas que várias pessoas previram.

(O fato de que isso tenha acontecido por debaixo dos panos durante décadas em diversas partes do mundo não conta, porque não havia encorajamento papal explícito.)

No final, talvez não importe tanto se isso é realmente o que o Papa Francisco tem em mente, pois, de qualquer maneira, do jeito como ele deixou as coisas, o efeito no mundo real aponta para essa direção.

O que parece claro é que, no futuro próximo, algumas dioceses e paróquias responderão "sim" e outras que responderão "não", o que permitirá que as pessoas façam comparações e contraposições.

(Alguma universidade católica criativa poderia estar desenvolvendo ferramentas para estudos longitudinais sobre como os níveis de fé e prática, especialmente no que diz respeito ao casamento e à Eucaristia, mudam ou não em dioceses com diferentes abordagens em relação à implementação de Amoris Laetitia.)

Certamente, o modelo P&D não satisfará quem está convencido de que só está certo um dos lados do debate. Os críticos dirão que não se corrompe ou dilui o ensinamento da Igreja simplesmente para ver o que vai acontecer e defensores ardorosos de Francisco insistirão que as pessoas devem apenas aceitar, permanecer alinhadas à sua visão e parar de tentar impedi-la.

Para outros, no entanto, há um lado positivo intrigante na confusão atual da Igreja em relação ao Amoris: parece que poderemos descobrir qual lado tem a melhor leitura da realidade, para o bem ou para o mal.

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