"Que a unção chegue às periferias": o sonho do arcebispo Jorge Mario Bergoglio

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12 Novembro 2016

O jornal Avvenire, 10-11-2016, publicou um trecho do livro Nei tuoi occhi è la mia parola [Nos teus olhos está a minha palavra] (Ed. Rizzoli) que reúne as homilias e os discursos proferidos pelo então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, durante os anos de 1999 a 2013, quando ele era pastor (criado cardeal em 2001) da arquidiocese argentina.

Em particular, o texto que segue é a homilia preparada para a Missa do Crisma, do dia 28 de março de 2013, quinta-feira santa, escrita antes de ir para Roma para participar do conclave que o elegeria papa. E, portanto, nunca pronunciada.

A reflexão do futuro pontífice se refere às leituras do dia: Isaías 61, 1-3.6.8-9; Apocalipse 1, 5-8; Lucas 4, 16-21. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As leituras nos falam dos Ungidos: o servo de Javé de Isaías, Davi e Jesus, nosso Senhor. Os três têm em comum o fato de que a unção que recebem é para ungir o povo fiel de Deus ao qual servem; sua unção é para os pobres, para os cativos, para os oprimidos...

Uma imagem muito bela desse "ser para" do santo crisma é a do Salmo 133: "É como o óleo precioso derramado sobre a fronte, que desce sobre a barba, a barba de Aarão, que desce sobre a orla de seu manto" (Sl 133, 2). A imagem do óleo que se derrama – que desce – sobre a a barba de Aarão e cai até a orla das suas vestes sagradas é a imagem da unção sacerdotal que, através do ungido, chega até os confins do universo representado nas veste.

A vestimenta sagrada do sumo sacerdote é rica em simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ônix que adornavam as ombreiras do éfode, do qual provém a nossa casula atual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis sobre a do ombro esquerdo. No peitoral também estavam gravados os nomes das 12 tribos de Israel. Isto é: o sacerdote celebra carregando sobre seus ombros o povo fiel e levando os seus nomes gravados no coração. Ao nos revestimos com a nossa humilde casula, pode nos fazer bem sentir sobre os ombros e sobre o coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires.

Da beleza daquilo que é litúrgico, que não é puro adorno e gosto pelos paramentos, mas presença da glória do nosso Deus resplandecente no seu povo vivo e consulado, olhemos para a ação. O óleo precioso que unge a cabeça de Aarão não fica perfumando a sua pessoa, mas se derrama e alcança as periferias. O Senhor dirá isto claramente: Sua unção é para os pobres, para os cativos, para os doentes, para os que estão tristes e sozinhos. A unção não é para nos perfumar, muito menos para que a guardemos em um frasco, já que o óleo se tornaria rançoso... e amargo o coração.

Reconhece-se o bom sacerdote pelo modo como o seu povo é ungido. Quando a nossa gente é ungida com óleo de alegria, isso se nota: quando sai da missa, por exemplo, com cara de ter recebido uma boa notícia. A nossa gente agradece o Evangelho pregado com unção, aprecia quando o Evangelho que pregamos chega à sua vida cotidiana, quando desce como o óleo de Aarão até as bordas da realidade, quando ilumina as situações limites, as periferias onde o povo fiel está exposto à invasão dos predadores sedentos de sua fé.

Elas nos agradecem por isso, porque sentem que rezamos com as suas coisas – com as suas penas e alegrias, com suas angústias e esperanças. E, quando sente que o perfume do Ungido chega através de nós, elas se animam a nos confiar coisas delas que querem que cheguem ao Senhor: "Reze por mim, padre, porque eu tenho este problema...". "Abençoe-me" e "reze por mim" são o sinal de que a unção chegou até a orla do manto, porque volta convertida em pedido. Quando estamos nessa conexão e a graça vai e vem através de nós, somos sacerdotes, mediadores entre Deus e os homens.

O que eu quero assinalar é que sempre temos que reavivar a graça e intuir, em todo pedido, às vezes inoportuno, às vezes puramente material (aparentemente), às vezes banal (insisto de novo, aparentemente) o desejo da nossa gente de ser ungida com o óleo perfumado que ela sabe que nós temos.

Intuir e sentir como o Senhor sentiu a angústia esperançosa da hemorroíssa, quando tocou a orla do Seu manto. Esse momento de Jesus, metido no meio das pessoas que o apertam por todos os lados, encarna toda a beleza de Aarão revestido sacerdotalmente e com o óleo que desce sobre as suas vestes. É uma beleza oculta que resplandece somente para os olhos cheios de fé da mulher que padecia de perdas de sangue (Mt 9, 20-22). Os próprios discípulos – futuros sacerdotes – não veem ainda, não conectam: na periferia existencial, só veem a superficialidade da multidão que aperta Jesus por todos os lados até sufocá-Lo (cfr. Lc 8, 42). O Senhor, em vez disso, sente a unção na periferia do Seu manto.

É lá que é preciso sair para experimentar a nossa unção, o seu poder e a sua eficácia redentora: nas periferias onde há sangue derramado, cegueira que deseja ver, cativos de tantos maus patrões. Não é precisamente em autoexperiências nem em introspecções reiteradas que vamos encontrar o Senhor: na vida, alguns cursos de autoajuda não fazem mal, mas viver de curso em curso, de método em método nos leva a nos "pelagianizar", a minimizar o poder da graça que se ativa e cresce na medida em que saímos para nos dar e para dar o Evangelho aos demais; para dar aquele pouquinho de unção que temos aos que não têm nada de nada.

O sacerdote que sai pouco de si, que unge pouco (não digo "nada", porque a nossa gente nos rouba a unção, graças a Deus), perde o melhor do nosso povo, que é capaz de ativar o mais fundo do seu coração presbiteral. Quem não sai de si, em vez de mediador, vai se convertendo, pouco a pouco, em intermediário, em gestor.

Todos conhecemos a diferença: o intermediário e o gestor "já têm o seu pagamento", ganham às custas das partes e, assim como não "não põem a própria pele e o próprio coração", assim também não recebem um agradecimento de coração. Daí provém precisamente essa insatisfação de alguns, que acabam tristes e convertidos em colecionadores de antiguidades ou de novidades, em vez de serem pastores com cheiro de ovelha e pescadores de homens.

É verdade que a assim chamada "crise de identidade sacerdotal" ameaça a todos nós e vem montada sobre uma crise de civilização; mas, se soubermos furar a sua onda, poderemos ir mar adentro em nome do Senhor e jogar as redes. É bom que a própria realidade nos leve ali onde aquilo que somos por graça se nota que é pura graça, nesse mar do mundo atual onde só vale a unção (e não a função) e são fecundas as redes jogadas unicamente no nome d’Aquele a quem nos confiamos: Jesus.

Que o Pai renove em nós o Espírito de Santidade com que fomos ungidos, que O renove no nosso coração de tal maneira que a unção chegue às periferias, ali onde o nosso povo fiel mais o necessita e mais o valoriza. Que a nossa gente se sinta discípulos do Senhor revestidos com os seus nomes, que não querem outra identidade; e que possa receber através das nossas palavras e obras esse óleo de alegria que Jesus, o Ungido, lhes veio trazer.

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