"A análise de Bergoglio é anti-histórica, pois nega as raízes religiosas de terror." Entrevista com Domenico De Masi

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08 Novembro 2016

"Bergoglio troca o Isis pelas Brigadas Vermelhas. A sua análise podia ser boa para a luta de classes dos anos 1960, mas hoje é um absurdo negar a matriz religiosa do terrorismo e ver apenas a econômica e política, como faziam antigamente os teólogos da libertação." O sociólogo Domenico De Masi cita a encíclica Populorum progressio de Paulo VI, mas especifica: "Ali, estávamos em 1967, e havia a revolta social, não o fundamentalismo islâmico que mata em nome de Alá".

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 06-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que não o convence no discurso do Papa Francisco?

Em nível científico, no terrorismo atual, foram isoladas diversas causas. Pessoalmente, logo rebati aqueles estudiosos que se recusavam a reconhecer a evidência. A raiz religiosa é tão forte que torna impossível não ver como as coisas realmente são. O papa comete o mesmo erro de certos analistas, isto é, nega que o Isis combate em nome de uma visão de fé. A religião tem a ver, sim, ou, melhor, é um dos principais motores da desestabilização.

E as desigualdades, ao contrário, não criam as condições favoráveis à difusão do terrorismo?

A parte mais convincente do raciocínio do papa é aquela no qual ele defende que a exploração e a especulação são a causa dos desequilíbrios políticos e sociais dos quais derivam a guerra e o terrorismo. Mas, depois, Francisco dá um passo lógico que não encontra confirmações na maioria dos estudos realizados em nível internacional.

Qual é o ponto fraco, a seu ver, nessa reconstrução?

A avaliação de Bergoglio está evidentemente equivocada quando ele se arrisca a defender que não se pode falar de terrorismo religioso. A realidade diz o contrário. Achatar a reflexão no plano econômico-político e das relações de poder é uma tentativa infeliz de reduzir a complexidade do fenômeno.

Portanto, o papa faz um raciocínio político demais?

Determinístico, eu diria. Bergoglio demonstrou outras vezes que tem a visão mais longa do que os governantes ou da ONU, mas aqui ele sobrepõe planos diferentes e indica mecanismos de causa e efeito que não estão fundamentados.

Pobreza e terrorismo não estão correlacionados, na sua opinião?

Não há dúvida de que a minha filha tem mais possibilidades de se realizar na vida do que um rapaz que atravessa meia África para chegar da Mauritânia à Itália e que, talvez, também tenha que se defrontar com um muro de discriminações e de injustiças sociais. Mas o estudo dos focos mundiais demonstra que não é automática a passagem da condição desfavorável ao terrorismo.

O que falta na análise?

Em uma situação subjetiva de grave desvantagem econômica, abandonamo-nos em geral ao desespero, à resignação, à depressão, até ao suicídio. Para passar para o terrorismo, é preciso a coragem de matar e de ser morto, e isso não é adquirido automaticamente com a pobreza. É o elemento individual que falta na análise economicista da teologia da libertação.

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