“O pensamento e a espiritualidade de Lutero estavam centrados em Cristo”

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28 Outubro 2016

 “O pensamento de Lutero e toda sua espiritualidade eram completamente cristocêntricos. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era: ‘O que conduz à causa de Cristo’”. É o que disse o Papa Ratzinger, na sexta-feira, dia 23 de setembro de 2011, ao se reunir com os representantes do Conselho da Igreja evangélica na Alemanha, no ex-convento dos agostinianos de Erfurt. Foi o lugar onde Lutero estudou teologia e celebrou sua primeira missa.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 26-10-2016. A tradução é do Cepat.

“O que lhe tirava a paz – disse Bento XVI – era a questão de Deus, que foi a paixão profunda e o centro de sua vida e de todo seu caminho. ‘Como posso ter um Deus misericordioso?’. Esta pergunta lhe penetrava o coração e estava por trás de toda sua investigação teológica e de toda sua luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas uma luta interior consigo mesmo, e depois isto se convertia em uma luta sobre Deus e com Deus”.

“‘Como posso ter um Deus misericordioso?’ Não deixa de me surpreender no coração – continuou Ratzinger, naquela ocasião – que esta pergunta tenha sido a força motora de seu caminho. Quem se ocupa atualmente desta questão, inclusive entre os cristãos? O que significa a questão de Deus em nossa vida, em nosso anúncio? A maior parte das pessoas, também dos cristãos, dá hoje como certo que, em última instância, Deus não se interessa por nossos pecados e virtudes. Ele sabe, com efeito, que todos somos somente carne. Se hoje se acredita ainda em um além e em um julgamento de Deus, na prática, quase todos pressupomos que Deus deva ser generoso e, ao final, em sua misericórdia, não levará em conta nossas pequenas faltas. A questão já não nos preocupa”.

“Mas, nossas faltas são verdadeiramente tão pequenas? Acaso – questionou-se Bento – não se destrói o mundo por causa da corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que só pensam em seu próprio benefício? Não se destrói por causa do poder da droga que se nutre, por um lado, da ânsia de vida e de dinheiro, e por outro, da avidez de prazer daqueles que são viciados nela? Acaso não está ameaçado pela crescente tendência à violência que se encobre, muitas vezes, com a aparência de uma religiosidade? Se fosse mais vivo em nós o amor de Deus e, a partir dele, o amor ao próximo, às criaturas de Deus, aos homens, a fome e a pobreza poderiam devastar regiões inteiras do mundo? E as perguntas, nesse sentido, poderiam continuar”.

“Não – acrescentou o então Pontífice -, o mal não é uma nimiedade. Não poderia ser tão poderoso, se nós realmente puséssemos Deus no centro de nossa vida. A pergunta: Como se situa Deus a meu respeito, como me situo diante de Deus? Esta pergunta candente de Lutero deve se tornar outra vez, e certamente de um modo novo, também uma pergunta nossa, não acadêmica, mas concreta. Penso que isto é a primeira questão que nos interpela ao nos encontrarmos com Martinho Lutero”.

Deus, o único Deus, o Criador do céu e da terra, é algo distinto de uma hipótese filosófica sobre a origem do cosmos. Este Deus tem um rosto e nos falou, em Jesus Cristo feito homem, se fez um de nós; Deus verdadeiro e verdadeiro homem ao mesmo tempo. O pensamento de Lutero e toda sua espiritualidade eram completamente cristocêntricos. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era: “O que conduz à causa de Cristo”. No entanto, isto pressupõe que Jesus Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor a Ele, a intimidade com Ele, oriente nossa vida”.

Bento XVI depois refletiu sobre o que tudo isto tem a ver com o ecumenismo. “Não será tudo isto – questionou-se – somente um modo de se esquivar com muitas palavras dos problemas urgentes a respeito dos quais esperamos progressos práticos, resultados concretos? A este respeito lhes digo: O mais necessário para o ecumenismo é sobretudo que, pressionados pela secularização, não percamos quase inadvertidamente as grandes coisas que temos em comum, aquelas que em si nos fazem cristãos e que temos como dom e tarefa”.

Este foi, explicou o Papa Ratzinger, “o erro da idade confessional”, ou seja, ter visto principalmente “o que nos separa, e não ter percebido de modo essencial o que temos em comum nas grandes pautas da Sagrada Escritura e nas profissões de fé do cristianismo antigo. Este foi para mim o grande progresso ecumênico dos últimos decênios: percebemos esta comunhão e, no orar e cantar juntos, na tarefa comum pelo “ethos” cristão diante do mundo, no testemunho comum do Deus de Jesus Cristo neste mundo, reconhecemos esta comunhão como nosso comum fundamento imperecível”.

Bento XVI concluiu seu discurso sem ler as palavras que havia escrito para indicar dois aspectos que colocam em risco esta comunhão. Antes de mais nada, a propagação de um cristianismo “que se difunde com um imenso dinamismo missionário, às vezes preocupante em suas formas”, um cristianismo “de escassa densidade institucional, com pouca bagagem racional, menos ainda dogmática, e com pouca estabilidade”. “Este fenômeno mundial (que os bispos de todo o mundo continuamente me descrevem) coloca todos nós diante de uma questão: O que nos transmite, positiva e negativamente, esta nova forma de cristianismo? Seja o que for - destacou -, situa-nos novamente diante da pergunta sobre o que permanece sempre válido e o que pode ou deve ser mudado diante da questão de nossa opção fundamental na fé”.

O segundo aspecto problemático apontado pelo Papa Ratzinger foi o desafio da secularização. “A ausência de Deus em nossa sociedade é cada vez mais perceptível”, explicou, “A história de sua revelação, da qual nos fala a Escritura, parece relegada a um passado que se distancia cada vez mais. Por acaso, é necessário ceder à pressão da secularização, chegar a ser modernos adulterando a fé? Naturalmente, a fé tem que ser novamente pensada e, sobretudo, vivida, hoje de modo novo, para que se converta em algo que pertence ao presente. Pois bem, para isso não ajuda sua adulteração, mas vivê-la fielmente em nosso hoje. Esta é uma tarefa ecumênica central, na qual devemos nos ajudar mutuamente, a crer de forma cada vez mais viva e profunda. Não serão as táticas que nos salvarão, que salvarão o cristianismo, mas uma fé pensada e vivida de um modo novo, mediante a qual Cristo, e com Ele, o Deus vivente, entre em nosso mundo”.

“Como os mártires da época nazista propiciaram nossa aproximação recíproca, suscitando a primeira grande abertura ecumênica - concluiu Bento -, do mesmo modo também hoje a fé, vivida a partir do íntimo de nós mesmos, em um mundo secularizado, será a força ecumênica mais poderosa que nos congregará, guiando-nos à unidade no único Senhor, E por isso a oração para aprender novamente a viver a fé, para assim poder ser uma só coisa”.

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