Com as escolhas para cardeais de Francisco, a “túnica inconsútil” de Bernardin está de volta

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10 Outubro 2016

Ao nomear Blase Cupich, de Chicago, Joseph Tobin, de Indianápolis, e Kevin Farrell, ex-bispo de Dallas, o Papa Francisco moveu o alto comando da Igreja Católica americana para uma posição centrista, afastada das guerras culturais – movimento que lembra a “túnica inconsútil” do Cardeal Joseph Bernardin.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 09-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No domingo, o Papa Francisco anunciou aquilo que pode representar uma mudança grande na hierarquia católica dos Estados Unidos, elevando não um ou dois, mas três novos cardeais do país, todos vistos como pertencendo à ala centrista, afastada das guerras culturais do país.

O pontífice anunciou um consistório, evento em que novos membros são levados a participar do clube mais exclusivo da Igreja, o Colégio Cardinalício. O consistório será no dia 19 de novembro, coincidindo com o final de seu Ano Santo da Misericórdia.

A lista total inclui 13 novos cardeais eleitores, ou seja, prelados com menos de 80 anos e aptos a votar na escolha de um novo papa. Entre eles estão três americanos, sendo que nos dois últimos anos – 2014 e 2015 – Francisco não havia nomeado nenhum deste país.

Os três americanos são os arcebispos Blase Cupich, de Chicago, e Joseph Tobin, de Indianápolis, além do ex-bispo de Dallas, Dom Kevin Farrell, recentemente escolhido por Francisco para ser o presidente do novo Dicastério para a Família, os Leigos e a Vida.

Ainda que nenhum deles possa ser considerado um “progressista” segundo os padrões seculares, na hierarquia católica eles são percebidos como defensores de ideias progressistas.

Dos três, Cupich e Farrell já eram esperados. Chicago é uma arquidiocese que há tempos é liderada por um cardeal, e o novo dicastério de Farrell no Vaticano parecia acenar para que tivesse um cardeal no topo.

Tobin, no entanto, é uma surpresa. A Arquidiocese de Indianápolis não é uma sé que tradicionalmente conta com um cardeal à frente, e o seu nome não havia recebido muito destaque na maior parte das especulações anteriores ao anúncio do consistório.

Ainda que a escolha de uma cidade americana relativamente pequena para ter um cardeal possa ser vista como estando em sintonia com a paixão do papa por estender a mão às periferias, tomado em conjunto parece mais plausível dizer que o que Francisco estava fazendo era uma declaração a respeito da direção na qual quer que os americanos sigam.

Se Francisco tivesse feito suas escolhas americanas mais de acordo com as convenções, os candidatos lógicos além de Cupich teriam sido Dom Jose Gomez, de Los Angeles, e Charles Chaput, da Filadélfia. Estas duas cidades são historicamente lideradas por cardeais.

Também haveria uma lógica por trás de cada caso aqui, na medida em que Gomez, nascido no México, seria o primeiro cardeal hispânico na histórica católica americana, e Chaput foi o anfitrião de Francisco quando o pontífice visitou a Arquidiocese da Filadélfia em setembro passado para o Encontro Mundial das Famílias.

Não obstante, tanto Gomez quanto Chaput são amplamente tidos como “conservadores” e, portanto, teriam reforçado aquilo que já é visto como uma maioria conservadora forte entre os cardeais do país, os quais tendem a ter uma influência desmedida em definir o tom para a Igreja, seja em termos de percepções na imprensa, seja na liderança interna dela.

Há algum tempo que o cardeal emérito Theodore McCarrick é visto como uma figura um tanto isolada entre os cardeais dos EUA no tocante à visão de mundo centro-esquerda, orientada para a justiça social que ele tem, e em sua capacidade de falar com os democratas tão confortavelmente quanto com os republicanos. Nesta postura se juntou o Cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, mas o envolvimento de Mahony nos escândalos de abuso sexual clerical limitou, até certo ponto, a sua eficácia.

Todavia, com Cupich e Tobin, aquilo que se poderia chamar de o “eleitorado de McCarrick” entre os cardeais americanos se fortaleceu.

Sabe-se bem que, nos dois Sínodos dos Bispos sobre a família, Cupich se afastou do bloco mais tradicionalista, sinalizando uma abertura em questões tais como encontrar novas abordagens pastorais para acompanhar os fiéis LGBTs, e também em abrir as portas aos católicos divorciados e recasados no civil para que possam vir a receber a Comunhão.

Tobin foi Superior Geral Congregação dos Redentoristas. De 2010 a 2012, serviu como a autoridade número dois na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, mais conhecida como “Congregação dos Religiosos”, durante a época em que o Vaticano conduziu duas investigações sobre as irmãs americanas.

Tobin criticou publicamente essas investigações, dando a entender que elas foram lançadas sem um diálogo ou consulta às religiosas, e nos bastidores isto nem sempre cai bem com alguns dos prelados que haviam se esforçado para que as mesmas investigações acontecessem. Muitos analistas dizem que a sua transferência em 2012 para Indianápolis, antes do período costumeiro de cinco anos num dicastério romano, refletia alguma insatisfação com a sua postura mais conciliatória.

Mais recentemente, Tobin entrou em rota de colisão com o governador do estado de Indiana e vice-candidato republicano à presidência dos EUA Mike Pence. O conflito se deu por causa da determinação de Tobin em acolher refugiados sírios na Arquidiocese de Indianápolis apesar das objeções de Pence.

Quanto a Farrell, em seus anos como bispo de Dallas ele tentou conduzir a Universidade de Dallas a uma posição mais centrista, convencional, por vezes evitando entrar em conflito com os sentimentos de forças mais conservadores da instituição. Ele também vem se mostrando um líder a favor do controle de armas, o que é uma postura ousada no contexto texano, e também a favor de leis imigratórias mais brandas.

De uma só vez, portanto, Francisco remodelou o caráter do nível mais alto da hierarquia americana, afastando esta daquilo que alguns consideram uma postura partidária nas últimas décadas e indo ao encontro do que é descrito como a “ética consistente da vida”, ethos associado com o falecido cardeal Joseph Bernardin, também de Chicago.

Bernardin igualmente empregava a expressão “túnica inconsútil” para capturar essa visão.

Embora certamente defensor da doutrina católica em temas como o aborto e a eutanásia, o cenário está mais inclinado a ver estas questões como parte de um espectro que também inclui imigração, pena de morte, meio ambiente, preocupação pelos pobres, e assim por diante.

Em 2011, o escritor católico americano amplamente respeitado George Weigel escreveu um influente ensaio publicado na revista First Things, onde declara que “a Era Bernardin acabou e a Máquina Bernardin não existe mais”, depois que o Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, derrotou Dom Gerald Kicanas, de Tucson, na corrida pela presidência da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. Na época a análise de Weigel foi difícil de ser contestada.

O que nem Weigel nem ninguém mais poderia ter antecipado, no entanto, era a ascensão de um pontífice latino-americano que reviveria o legado de seu vizinho do norte.

Enquanto este realinhamento não terá, provavelmente, nenhum impacto imediato na forma como a Igreja americana aborda a eleição de 8 de novembro, posto que o consistório só acontecerá 10 dias mais tarde, ele – o realinhamento – irá remodelar a maneira como a Igreja se envolve nos pormenores, seja em termos de tipos que questões que prioriza, seja com quem as lideranças da Igreja no país são capazes de conversar a respeito delas.

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