O undécimo mandamento. Artigo de Enzo Bianchi

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27 Setembro 2016

"Existe uma relação vital entre o homem e a natureza, e é por isso que o ser humano não pode destruir a natureza, mas deve abraçá-la, contemplá-la, tornar-se a sua voz e o seu guardião, até ser o seu cantor. Por poucos dias, somos seres vivos sobre a terra: como podemos não amá-la? Como podemos não senti-la como nossa mãe e nutriz?"

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado o jornal La Stampa, 21-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há anos, eu volto insistentemente sobre duas das minhas convicções sobre a nossa relação com a terra e com os alimentos. A primeira é uma espécie de undécimo mandamento, que eu acho que emerge fortemente a partir de uma leitura aprofundada das páginas do Antigo e do Novo Testamento: "Ama a terra como a ti mesmo".

A segunda eu aprendi com o livro aberto da vida cotidiana, em particular do dom da amizade que atravessou como bálsamo a minha existência: "O melhor modo de dizer a uma pessoa ‘Eu gosto de ti!’ é fazê-la comer bem".

Agora, eu reencontro esses dois grãos de sabedoria combinados no título escolhido este ano para a Terra Madre e para o Salone del Gusto: "Querer bem a terra".

"Amar a terra como a si mesmos" refere-se ao único mandamento bíblico duplo de "amar a Deus e amar o próximo como a si mesmos" (Lv 19, 18; Mc 12, 31 e par.). De fato, a terra (adamah), a partir da qual todo terrestre (adam) foi tirado (cf. Gn 2, 7), é a nossa matriz, dela somos feitos, a ela voltamos (cf. Gn 3, 19). Mas a terra não é só pó, é um organismo vivo que devemos respeitar, amar, contemplar e, sobretudo, sentir solidário conosco. Sem a terra, nós não somos, e também a nossa vida interior não é alheia à terra, às plantas, aos animais, à natureza. Ou, melhor, é vida interior verdadeira e viva se englobar todas as cocriaturas com as quais somos a terra que corre no universo.

Existe uma relação vital entre o homem e a natureza, e é por isso que o ser humano não pode destruir a natureza, mas deve abraçá-la, contemplá-la, tornar-se a sua voz e o seu guardião, até ser o seu cantor. Por poucos dias, somos seres vivos sobre a terra: como podemos não amá-la? Como podemos não senti-la como nossa mãe e nutriz?

Além disso, se conjugarmos esse "querem bem a terra" nas três modalidades propostas pela Terra Madre/Salone del Gusto – ser agricultor, ser coprodutor, fazer uma horta – damo-nos conta de que o ato de comer, especialmente quando ocorre na convivialidade típica e unicamente humana de se sentar à mesma mesa, é momento de consciência e de gratidão. Consciência porque, enquanto nos nutrimos com o alimento, nunca devemos esquecer de onde e de quem ele vem até nós: daqueles que o prepararam como prato bonito de se ver e desejável para o paladar, é claro, mas, antes ainda, daqueles que o cultivaram, fizeram-no crescer, produziram para que nutrisse a existência sua e dos seus entes queridos, antes mesmo do que a nossa.

Depois, de quem tornou possível que ele chegasse à nossa mesa e sobre como esse trajeto, longo ou curto, foi feito: e aqui a dimensão do "coprodutor" se torna crítica das injustiças que, muitas vezes, se multiplicam ao longo da fileira que leva um alimento desde os campos ou dos estábulos até os nossos pratos. Injustiças e violências contra os trabalhadores, contra os animais, contra o solo...

Por fim, "fazer uma horta", dedicar-se – como eu tive a alegria e também a obstinação de fazer desde a minha infância até hoje – a cultivar pessoalmente um pedacinho, mesmo que minúsculo, de terra nos torna conscientes do esforço que acompanha cada bocado de comida e de que aquilo comemos exala o trabalho de gerações e gerações de homens e de mulheres que fizeram do cultivo uma cultura.

Essas consciências não podem deixar de desembocar, então, na gratidão e no agradecimento. Não por acaso, a tradição cristã chamou com o termo de eucaristia, "ação de graças", a refeição que faz memória do mistério da morte e da ressurreição do Senhor. Mas eu acredito que a tradição mais laica também não pode e não deve se eximir de reaprender a pronunciar com o coração a palavra "obrigado", recolhendo, em um termo quase esquecido, o sentimento mais genuíno que brota quando nos damos conta de que outros, e não nós, possibilitaram que nós vivêssemos e desfrutássemos os frutos desta terra, abençoada e amada.

Por fim, a ética da terra requer que pensemos com consciência e responsabilidade nos direitos das gerações futuras: cada geração deveria ir embora da terra depois de tê-la tornado mais bonita, conhecida, amada e defendida, mas, na realidade, sobretudo as nossas últimas gerações parecem capazes apenas de deixar feiúra na paisagem, no ambiente, e parecem responsáveis pelo avanço dos desertos sobre todas as terras.

Realmente, há uma "conversão global" a ser feita, há um mandamento universal a ser proclamado: "Ama a terra como a ti mesmo, e a terra te recompensará". E não nos esqueçamos deste aviso da sabedoria monferrina repetida por gerações de agricultores: "Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes, a terra não perdoa nunca o mal que lhe é feito".

Leia mais:

Sabor e saber: a verdade que nasce dos alimentos. Artigo de Enzo Bianchi

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