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30 Setembro 2016

"Temos a oportunidade de sugerir dois de seus ensaios importantes, a serem unidos em díptico, porque assim foram concebidos: são agora oferecidos pela editora Lindau, no âmbito do projeto "Chestertoniano", uma espécie de opera omnia do autor inglês", explica o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 25-09-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

O autor de "Racconti di Padre Brown" também abordou temas complexos como o da heresia e da ortodoxia. Mas sempre com ironia. Mantinha colados a televisão 18 milhões (sic) de espectadores e entre eles estava também eu. Devemos, no entanto, voltar para a noite de domingo, de 29 de dezembro de 1970, quando escorria nas telas apenas o único programa “nacional”. Numa série de seis episódios, foram então transmitidos “I racconti di Padre Brown”, cujo protagonista era o animado Renato Rascel, "muito mais caseiro do que o agudo personagem inventado pelo escritor inglês Chesterton”, (Aldo Grasso), padre detetive constantemente em contraponto com seu amigo, o ladrão redimido Flambeau, que tinha então o rosto de Arnoldo Foa. Mas este autor irônico e brilhante, católico professo - "Qual e a diferença entre a Igreja Católica e a Anglicana? A Igreja Católica é a Igreja dos grandes santos e grandes pecadores. A Igreja Anglicana é a das pessoas respeitáveis"- tinha na sua imensa bibliografia não só escritos narrativos. Na verdade, suas principais obras eram de grande teor teórico, tudo sempre recheado com as especiarias do humor britânico.

Aqui estão apenas alguns exemplos, entre os muitos possíveis: "Um grande clássico é um escritor que se pode louvar sem ter lido... Para mim, a única maneira de pegar um trem é perder o trem precedente ... Noé dizia, muitas vezes, a sua esposa quando estava à mesa: não me importo onde a água vai, contanto que não seja no vinho ... Um otimista é um homem que nos olha nos olhos, um pessimista um homem que nos olha os pés ... Quando não se crê mais em Deus, não é verdade que já não se acredita mais em nada, se acredita em tudo", e assim por diante, até o ponto de que existem afirmações apócrifas como a que o Presidente Kennedy lhe atribuía: "Nunca derrubar uma cerca antes de saber a razão pela qual foi construída". Ou aquela moldada pelo seu tamanho físico: "Hoje, no metrô, eu estava feliz para dar meu lugar para dois senhores". É certo que Gilbert Keith Chesterton, nasceu em Londres em 1874 e morreu numa cidade de Buckinghamshire, em 1936, sempre amou o brilho do paradoxo irônico, mas nunca trivial, como estava convencido de que "um gracejo é algo absoluto, sagrado, mas não se pode criticar. Nossas relações com o bom gracejo são imediatas, até mesmo divinas". É por isso que, de acordo com ele, a seriedade é um vício, mais do que uma virtude, e sua admiração ia a São Francisco, porque era "aquele que fez tudo com paixão". Por isso, sempre no limite do paradoxo, estava convencido de que os evangelhos falaram apenas do choro de Cristo, e não do seu riso, porque "era algo demasiado grande para poder ser mostrado, quando ele caminhava nesta terra", e então, desafogava sua alegria na solidão, “quando escalava a montanha para orar". O cristianismo, para Chesterton, era a religião da encarnação na história, do envolvimento com o emaranhado dos acontecimentos humanos e não uma espiritualidade abstrata, voando nos céus míticos e mistificantes. De fato, escreveu: "Toda a iconografia cristã representa seus santos com os olhos abertos para o mundo, enquanto a iconografia budista representa todos os seres com os olhos fechados". O Catolicismo, porém, com seu peso - como foi dito - de santos e pecadores, de glórias e infâmias, participa melhor do realismo da encarnação. E este realismo é expresso no cotidiano simples e modesto, mais do que numa epifania potente e perfeita", com um pouco de paciência, um pouco de compreensão, um pouco de alegria e um pouco de humildade, você não tem ideia do quanto poderá sentir-se bem sobre este nosso planeta Terra".

Esperamos que, através deste lampejo de dicas, tenhamos seduzido aqueles leitores que nunca cruzaram textualmente o escritor londrino, para que tentem enfrentar até mesmo os ensaios mais exigentes, sempre marcados pela emoção de controvérsia irônica (mas nunca, porém, sarcástica e ofensiva).

Na verdade, temos a oportunidade de sugerir dois de seus ensaios importantes, a serem unidos em díptico, porque assim foram concebidos: são agora oferecidos pela editora Lindau, no âmbito do projeto "Chestertoniano", uma espécie de opera omnia do autor inglês.

Vamos começar, então, com Hereges. Numa obra póstuma, O homem comum, Ele ofereceu um retrato evocativo do herege: "No mundo antigo eram chamadas heresias, no mundo moderno são chamados modismos ... O herege, que também é sempre fanático, não é aquele que ama demais a verdade. Em vez disso, é a pessoa que ama a sua verdade mais do que a verdade em si. Ele prefere a meia-verdade que ele mesmo descobriu, à verdade inteira descoberta pela humanidade".

Pois bem, quem são esses hereges / heresias modernos? Chesterton não hesita e, ao invés de recorrer a abscondidas alegorias ou a galanteios criptográficos, aponta o dedo para certos ícones do seu tempo, de Kipling a Shaw, de Wells a Whistler, ou contra os dogmas laicos de sempre, como o ídolo adorado do progresso, o determinismo, o positivismo, o ceticismo, o iluminismo maçônico e o ateísmo marxista, mas também o capitalismo infrene. E é um prazer de ler estas páginas que, entre outras coisas, revelam a fusão entre a clareza cristalina da argumentação dialética com uma muito vasta e maciça história de leituras, confirmando o que ele mesmo disse a respeito de diversas obras literárias: "elas são sempre alegorias de uma qualquer visão total do mundo". E é por isso que em Hereges - que era uma compilação de artigos críticos anteriores, publicada em 1905 - Chesterton decidiu, em 1908, impulsionado também pela solicitação de muitos leitores, de propor sua visão positiva do ser e do existir.

Nasceu, assim, uma das suas obras maiores e mais citadas, provocativa já no título, Ortodoxia, com frequentes apelos à sua fé cristã incontaminada, sem constrangimentos ao mistério que auréola o crente, porque "o homem pode compreender tudo com a ajuda daquilo que não compreende. O lógico morbígeno quer ver claras todas as coisas, com o belo resultado de tornar tudo inexplicável”.

Nenhum constrangimento, mesmo adotando um corte nitidamente apologético em relação à fé, a que se agarrou exatamente porque persuasiva, e, por isso, não hesitava em apresentar-se às encruzilhadas críticas onde objeções, acusações, reservas levavam a bloquear o caminho do crente. Chesterton, no entanto, as nivelava com a leveza de seu estilo cativante e saboroso, mas também com a firmeza de uma argumentação rigorosa e inatacável.

Mas, varridas as "heresias" antigas, e sobretudo modernas, que constituíam a substância também do volume anterior, eis que se abre o horizonte livre, alegre e fecundo do cristianismo: seu respiro moral torna-se, assim, capaz de alimentar "uma vida ativa rica de fantasia, pitoresca e cheia de curiosidade poética, uma vida como aquela que o homem ocidental, de alguma maneira, parece ter sempre sonhado". É precisamente o oposto de um pedante ascetismo, de uma aflição intelectual, de um mesquinho moralismo, como escreverá, um ano depois, nas páginas dos Tremendous trifles (título evidentemente oximoro, "tremendas ninharias" ou "futilidades"): "Se há algo pior do que a debilitação moderna dos grandes princípios morais, é o enrijecimento moderno dos pequenos princípios morais".

Na leitura do livro Ortodoxia, mas não só, pode-se, então, compreender, porque o agnóstico Borges confessou: "A literatura é uma forma de felicidade; nenhum escritor, talvez, me tenha dado tantas horas felizes como Chesterton".

Referências:

CHESTERTON, Gilbert Keith. Eretici (prefácio de Giovanni Roberto Timossi), Turim: Lindau, 262 p, € 22,00.

CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodossia (prefácio de Gianni Gennari), Turim: Lindau, 254p., € 19,50

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