A mais recente inovação tecnológica do Japão: tele-entrega de sacerdotes

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23 Setembro 2016

O sacerdote budista acende um incenso em um pequeno altar de madeira exatamente da mesma forma que os membros de sua ordem fizeram durante séculos. Enquanto o sacerdote entoa sutras, Yutaka Kai fecha os olhos e reza por sua esposa, falecida ano passado de complicações decorrentes de uma substituição do joelho.

A reportagem é de Jonathan Soble, publicada por The New York Times, 20-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Kai, 68, deixou de lado a budismo devoto de sua família quando saiu de sua cidade natal décadas atrás para trabalhar numa fábrica de pneus na cidade. Isso significou que ele não tinha um templo perto para ir quando no primeiro aniversário da morte de sua esposa, um marco para os budistas japoneses.

Novidades da internet: no Japão moderno, um sacerdote budista pode agora ser encontrado após alguns poucos cliques no Amazon.com.

“É acessível, o preço é claro”, disse o filho mais velho de Kai, Shuichi, 40. “Não precisamos nos preocupar com a quantia que teremos de desembolsar”.

Junku Soko, o sacerdote no memorial da senhora Kai, faz parte de um negócio polêmico que vem perturbando os serviços funerários no Japão. Num país onde os as leis e interesses poderosos têm bloqueado a maior parte da assim-chamada “economia GIG” – o Uber é apenas um exemplo aqui –, uma rede de sacerdotes que trabalham como freelancers está ganhando espaço na esfera da religião.

A aventura é vista por uns como indecorosa e vem sendo condenada por líderes budistas. Um grupo que representa muitos segmentos budistas no país queixou-se publicamente depois que o Amazon começou a oferecer o “obosan-bin” – tele-entrega de sacerdotes – em sua versão japonesa no ano passado, em parceria com uma start-up local.

Os sacerdotes e seus apoiadores dizem, no entanto, que o que fazem é suprir necessidades reais. Afirmam que o obosan-bin tem ajudado a preservar as tradições budistas tornando-as acessíveis a milhões de pessoas no Japão, a pessoas que se afastaram da religião.

“Os templos vendem para você velas de 10 ienes por 100 ienes”, disse Soko, de 39 anos. “Eles estão protegendo os próprios interesses”.

Essas falas soam familiares a qualquer um vem assistindo empresas de comércio eletrônico derrubar outras partes da economia, desde casas publicitárias a empresas aéreas, de táxi e hotéis.

No Japão, até mesmo em áreas bem mais sensíveis do que a religião, as iniciativas comerciais recebem uma recepção fria. Aqui, estas empresas iniciantes (“start-ups”) são mais raras do que nos demais países ricos. Entre as explicações estão uma escassez de capital de risco, a influência política exercida por empresas estabelecidas e uma cultura que valoriza a estabilidade em detrimento da destruição criativa que impulsiona o crescimento em países como os Estados Unidos.

No entanto, o campo da religião pode representar uma exceção. Ele é tão opaco – e tão distanciado da vida diária de muitos japoneses modernos – que uma pequena ruptura tecnológica pode mostrar-se bem-vinda.

Nesse caso, o que está em jogo são questões materiais assim como espirituais. Como acontece com instituições religiosas em muitos outros países, os templos no Japão recebem isenções fiscais generosas.

“Se o valor pago se transformar num dinheiro pago pelo serviço ao invés de uma doação, e o governo declarar: ‘Ok, vamos cobrar impostos como se fosse um negócio regular’, como poderemos contrariar?”, diz Hanyu Kakubo, sacerdote da Federação Budista Japonesa, que se opõe ao obosan-bin.

Como acontece também com os adeptos de muitas religiões, os budistas geralmente fazem doações aos sacerdotes por seus serviços. Os proponentes do obosan-bin dizem que os templos convencionais já operam como negócios: empresas que põem os consumidores em desvantagem ainda que sem deixar claros quais os preços cobrados. A quantia é deixada à escolha do doador, um costume que leva muitos a doar valores bem acima, segundo Soko.

“Eles não querem deixar as coisas às claras”, falou.

A maior parte da reação no Japão ao obosan-bin tem sido positiva, por motivos igualmente familiares: ele oferece conveniência, preços baixos e previsíveis.

“Há uma crítica feroz por parte de círculos budistas, mas atualmente muitas pessoas estão abandonando a prática de funerais religiosos”, declarou Noriyuki Ueda, antropólogo que pesquisa o budismo no Instituto Tecnológico de Tóquio. “Pelo menos, as pessoas que usam o obosan-bin pensam que ter um sacerdote é necessário”.

Kakubo, da Federação Budista, concorda que muitos templos vêm fazendo um serviço insuficiente para se adaptar às novas realidades.

“Precisamos refletir sobre o fato de somos nós quem criou esta situação, em que as pessoas veem a necessidade de voltar-se para a internet”, falou, acrescentando: “Será que estamos protegendo os nossos interesses pessoais? Obviamente que sim”.

O processo para reservar um sacerdote no sítio Amazon pode parecer desconcertantemente secular. Os usuários clicam em uma das várias opções e a adiciona ao carrinho de compras virtual, da mesma forma como comprariam um espremedor de frutas ou um par de calçados. Os preços estão fixados. Uma cerimônia memorial básica na casa do falecido custa 35 mil ienes ou cerca de 1.100 mil reais.

O pacote mais caro, com uma segunda cerimônia no cemitério e com a garantia de um nome budista póstumo especial, custa 65 mil ienes.

Originalmente, o obosan-bin foi uma criação do Minrevi, start-up virtual com fins lucrativos. Antes de assinar com o Amazon em 2015, a iniciativa construiu uma rede de 400 sacerdotes e recebia reservas via telefone e em seu próprio website, que ainda continua ativo. Neste endereço, lê-se que a empresa fica com cerca de 30% dos honorários que coleta; o resto vai para o sacerdote. A empresa adicionou outros 100 sacerdotes a fim de dar conta da demanda gerada pela nova parceria com o Amazon, segundo Jumpei Masano, seu porta-voz. Espera-se que o número de reservas aumente em 20% este ano, chegando a 12 mil aproximadamente.

“Muitas pessoas não têm nenhuma ligação com algum templo, então elas não sabem onde ir ou o que fazer quando precisam organizar um funeral”, afirmou Masano. “Vimos que havia uma necessidade”.

O sítio Amazon não quis comentar. Em resposta por escrito à Federação Budista em abril publicada pela imprensa japonesa, tem-se que o objetivo é “fornecer informações tanto quanto for possível” aos usuários para que “possam tomar as suas próprias decisões”.

Quando a esposa do sr. Kai, Chieko, morreu, o funeral foi feito numa sala funerária comum. Mas para o aniversário de um ano, Kai decidiu que queria a presença de um sacerdote.

“Tínhamos um grande altar na casa onde cresci”, disse ele, gesticulando em seu pequeno e arrumado apartamento num complexo habitacional.

Segundo disse também, ele raramente pensava sobre religião até a morte da esposa. Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, moradores de áreas rurais como Kai rumaram para lugares como Sakai, bairro industrial de Osaka. Poucos relativamente foram os que se preocuparam em continuar com as tradições religiosas na cidade.

Hoje, 70% dos japoneses identificam-se como sem religião ou ateus, embora muitos dizem que ainda seguem os costumes religiosos tradicionais de ir a um santuário xintoísta no Ano Novo ou visitar periodicamente os túmulos dos ancestrais.

A nora do sr. Kai foi quem descobriu o endereço na internet da Minrevi. O único pedido que ela fez era que o sacerdote pertencesse à ordem a qual a família Kai pertencia em sua cidade natal, em Ehime na ilha de Shikoku.

Soko, o sacerdote, preencheu os requisites. Na cerimônia, feita no apartamento de Kai, o religioso proferiu uma breve homilia sobre a fé e lembrou dos mortos.

Os familiares pareceram satisfeitos: disseram que irão pedir a presença de Soko para o próximo aniversário importante da morte, a daqui dois anos.

O sr. Soko afirmou que as inovações como o obosan-bin são fundamentais para a sobrevivência do budismo. Grande parte das congregações que costumavam ir a centros budistas está deixando este costume de lado, isso em decorrência das mudanças sociais e de um despovoamento rural.

A renda destes locais também vem decrescendo. As receitas nos templos e em outras instituições religiosas diminuíram 1/3 nos últimos vinte anos, em parte por causa de uma queda no número de doações de membros antigos, segundo a Agência para Assuntos Culturais do governo japonês.

“No seminário, nos ensinam a entoar sutras, mas não ensinam nada a respeito de como administrar um templo”, refletiu Soko. “Temos de tentar coisas novas”.

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