"Em Assis, 500 líderes religiosos contra o engano do terrorismo" Entrevista com Marco Impagliazzo, presidente da Comunidade de Santo Egídio

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19 Setembro 2016

"Para a Comunidade de Santo Egídio, não foi fácil levar adiante o espírito de Assis. No início, mesmo entre os católicos, havia a ideia de que o evento desejado em 1986 por João Paulo II devia permanecer como algo único. No ano seguinte, organizamos um encontro em Roma, no espírito de Assis, e éramos poucos, com poucos líderes religiosos. Da Igreja Católica, o único bispo era o cardeal Carlo Maria Martini. Mas, quando fomos recebidos, o papa nos disse: ‘Não se preocupem, sigam em frente’."



A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 18-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Marco Impagliazzo, 54 anos, professor de História Contemporânea da Universidade para Estrangeiros de Perugia, desde 2003 é presidente da Comunidade de Santo Egídio. Trinta anos depois da intuição de Wojtyla, Assis volta a ser a capital mundial da paz e do diálogo.

Junto com as famílias franciscanas e a diocese, a Santo Egídio organizou o encontro "Sede de paz. Religiões e culturas em diálogo": mais de 500 líderes religiosos e personalidades da cultura, seis prêmios Nobel da Paz, 29 "painéis" de discussão em três dias.

O encontro iniciou nesse domingo, com o presidente da República italiana, Sergio Mattarella. Na terça-feira, o Papa Francisco vai acompanhar todo o dia conclusivo.

Eis a entrevista.

Por que Assis novamente, hoje?

Porque era necessário voltar para onde se tinha começado. A Comunidade fez com que o espírito de Assis não permanecesse apenas algo simbólico, mas se encarnasse a cada ano na vida de muitas cidades na Europa, nos Estados Unidos, na Terra Santa. Houve momentos memoráveis, como em 1989, quando, na Polônia, antes da queda do Muro, levamos os muçulmanos para Auschwitz...

Mas o que é o "espírito de Assis"?

O diálogo entre as religiões, não ser uns contra os outros, mas trabalhar juntos por alguns objetivos: a paz, acima de tudo. Não significa sincretismo, não é um diálogo teológico. É um compromisso comum para vencer as muitas formas de pobreza e de desigualdade no planeta: fazer ouvir a voz das religiões ao lado das pessoas que sofrem.

O que mudou nesse meio tempo?

Há 30 anos, o mundo era outro, dividido pela Guerra Fria; a ideologia comunista ainda era muito forte, e metade da Europa não era livre. Depois, tudo mudou, veio a globalização. Hoje, as guerras não são feitas mais pelas ideologias, mas pelo dinheiro: tráfico de armas, ouro, diamantes, riqueza. Além disso, insinuou-se o vírus do terrorismo. João Paulo II já tinha intuído que as religiões deviam se ajudar para superar todo laço com a violência.

Francisco repete que há uma "guerra mundial em pedaços", mas "não é uma guerra religiosa". Há alguns dias, ele disse: "Eu gostaria que todas as religiões dissessem: matar em nome de Deus é satânico".

Esse discurso deve ser feito com grande clareza. No mundo globalizado, o homem navega ao largo, e o papel das fés é ainda mais importante. Nem todas as religiões acreditam em Satanás. O mal é dito de modos diferentes, mas é mal. É preciso dizer isso com as palavras do Patriarca Bartolomeu, que ele verá em Assis: toda chamada guerra religiosa é uma guerra contra a religião. O fundamentalismo terrorista trabalha para destruir os laços e a paz social, e colocar-nos uns contra os outros, desencadeando a reação contra os estrangeiros. Não devemos cair nessa armadilha, respondendo com a mesma lógica.

Fala-se de 26 delegações. A presença muçulmana nunca foi tão numerosa. O que isso significa?

Significa que os muçulmanos precisam de ajuda, buscam interlocutores, porque tocaram com a mão como o terrorismo, o uso pervertido do nome de Deus para incitar a violência está ceifando vítimas principalmente no mundo deles. É um momento de grande dificuldade para os teólogos e para as escolas do mundo islâmico. É preciso sair da autorreferencialidade, assumir posições comuns.

Além dos momentos simbólicos, haverá uma grande quantidade de encontros...

Não se caminha juntos apenas assinando abaixo-assinados, mas, como eu dizia, trabalhando sobre questões concretas – ambiente, desigualdades, migrantes – a partir das periferias do mundo: são os pobres, lembra-nos Francisco, que nos explicam melhor a realidade. Os refugiados vão participar dos painéis, vão almoçar com o papa. Uma mulher de Aleppo falará em frente ao Sacro Convento. Como diz Andrea Riccardi, a guerra é a mãe de todas as pobrezas.

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