Por que Ricci e seus companheiros apostaram no apostolado da imprensa

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17 Setembro 2016

"Os missionários jesuítas usavam a ciência e a tecnologia para atrair a atenção dos chineses cultos. Traduziram as obras matemáticas de Euclides, com os comentários do famoso matemático jesuíta Cristóvão Clavius, trabalhavam na Agência Astronômica Imperial, escreveram livros sobre o calendário, sobre anatomia, agricultura e tecnologia e imprimiram um mapa, de grandes dimensões, que incluía os resultados das últimas explorações mundiais", escreve Gerolamo Fazzini em artigo publicado por La Stampa, 10-09-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

A missão na China, no século XVII, teve lugar num contexto absolutamente particular, que forçou os missionários a privilegiarem uma forma de anúncio bem específico, o chamado "apostolado da imprensa". Entre estes, o jesuíta Matteo Ricci, pioneiro das missões modernas na China, que em carta, escreve: "Neste Reino, as letras são muito apreciadas e, consequentemente, a ciência e as opiniões fundadas da razão". O esforço de Ricci e seus companheiros produziu, no espaço de poucas décadas, um corpo de obras de fundo religioso-teológico, no idioma local, que pelo número e qualidade do conteúdo, representa provavelmente um único na história da missão católica universal.

Dado o nível de sofisticação no campo do pensamento, da ciência, da cultura a que China tinha chegado, poderíamos dizer que esse País representa o "caso sério" da evangelização daquele tempo. E que, portanto, a missão que Ricci e seus companheiros exerceram não poderia jogar-se num terreno mais estimulante e, ao mesmo tempo, mais difícil.

Os traços peculiares do contexto cultural chinês desse período são efetivamente resumidos num artigo da edição mais recente da Civiltà Cattolica, intitulado "A Missão à China no século XVII: o apostolado da imprensa e o desenvolvimento de uma teologia local". É a última parte (por hora) de uma série de percepções históricas (e não só) sobre a missão católica na China, em demonstração do interesse com que a Santa Sé acompanha os acontecimentos do "Reino do Meio" (é sabido que os projetos da Civiltà Cattolica passam pela Secretaria de Estado do Vaticano). Assina a contribuição o jesuíta e especialista sinólogo belga Nicolas Standaert, residente há anos na "Grande China".

Standaert identifica quatro fatores específicos: a igualdade dos meios reprodução cultural; a posição dominante da parte chinesa; o imperativo cultural; a classificação das ciências.

O primeiro fator que favoreceu a introdução do cristianismo na China, no século XVII, é o fato de que "China e Europa eram culturas com complexidade institucional, intelectual e material relativamente iguais. Em muitas outras partes do mundo - América Latina, África, Índia, Filipinas – o contato ocorreu entre culturas com diferentes níveis de complexidade". Em que a China e a Europa se pareciam naquele tempo? Nas técnicas de impressão (desenvolvidas na China bem antes de Gutemberg) e o método de educação: aquele chinês, não menos avançado do que o europeu, ao ponto que - observa Standaert - os jesuítas (conhecidos por terem aberto faculdades de qualidade em todo o Velho Continente) nunca tentaram fazer o mesmo na China, pelo menos no início. Aquela chinesa, no século XVII, foi na verdade "uma sociedade altamente instruída, ansiosa para trocas filosóficas ou científicas, manifestada na aprendizagem dos livros".

Um segundo aspecto importante é a ausência, quase total, na missão jesuítica na China, de um poder colonial ou externo. No intercâmbio cultural entre os dois mundos, o lado chinês estava em posição dominante: por exemplo, ao contrário do que acontecia no Japão (onde um japonês aprendia português ou latim), na China, no momento da presença de Ricci e de seus companheiros, os estrangeiros eram obrigados a aprender o chinês, uma vez que nenhum chinês, com muito poucas exceções, praticava línguas estrangeiras. "Este é um aspecto importante - assinala Standaert -, porque, antes de dar respostas, as ideias (teológicas) tinham que ser comunicadas e eram filtradas através da língua chinesa e dos seus padrões de pensamento".

Uma terceira característica, coligada à precedente: os estrangeiros tinham que submeter-se ao ''imperativo cultural" chinês, que os obrigava a respeitar a cultura local. Isso quer dizer que o cristianismo não tinha outra alternativa possível, senão aquela de fazer as contas com o confucionismo. Deste modo - observa efetivamente Standaert - "o cristianismo teve que confrontar-se com um "outro", que levantava questões fundamentais em relação com a tradição cristã (...) Este confronto com o “outro” produziu não somente publicações na China, mas também um grande número de publicações na Europa, o que causou uma desorientação mental na teologia europeia". Como sempre acontece, quando o encontro é profundo e autêntico, nunca deixa intactos seus interlocutores.

O último aspecto diz respeito à classificação das ciências. Os missionários jesuítas usavam a ciência e a tecnologia para atrair a atenção dos chineses cultos. Traduziram as obras matemáticas de Euclides, com os comentários do famoso matemático jesuíta Cristóvão Clavius, trabalhavam na Agência Astronômica Imperial, escreveram livros sobre o calendário, sobre anatomia, agricultura e tecnologia e imprimiram um mapa, de grandes dimensões, que incluía os resultados das últimas explorações mundiais. Escreve Standaert: "No século XVII, ‘ciência’ e ‘religião’ não eram ainda campos tão distintos, como acontecerá no período pós-iluminista. (...) Isso explica porque, para os missionários jesuítas, matemática ou astronomia não estavam em conflito com a difusão do cristianismo".

A combinação dessas características torna verdadeiramente única a missão chinesa no período de Ricci. Para dizer com Standaert: "Estas quatro características explicam por que o apostolado, através da imprensa, tornou-se um dos principais meios de expansão do cristianismo entre as elites literárias. O número de textos produzidos na China pelos missionários e cristãos chineses é impressionante, se comparado com o de outras áreas missionárias": mais de 120 textos relativos a Europa e as ciências, e pelo menos 470 textos (a maioria ainda disponíveis) que tratam principalmente de teologia, moral e religião.

"Isto - conclui Standaert - produziu o desenvolvimento de uma teologia local que pode ser considerada a base da reflexão teológica na Igreja chinesa". O que, por um lado, nos restitui a magnitude do esforço de Ricci e companheiros e dos seus colaboradores (acima de todos Xu Guanaqi - o "doutor Paolo", o mais importante dos chineses convertidos). Por outro lado, esta produção teológica deu excelentes resultados no sentido de que caiu numa espécie de "monoteísmo confuciano" (como o chama Standaert), centrado na fé num Senhor do Céu, criador onipotente e severo juiz. O ponto crucial deste esforço de síntese foi a transformação do abstrato e impessoal termo "Céu", a mais alta força ou princípio cósmico, num Senhor do Céu pessoal.

Tudo isto demonstra que - sugere o autor - um profundo encontro não só entre a China e o Ocidente, mas entre a cultura chinesa e da fé cristã é possível e, na verdade, proveitosa. Mesmo hoje em dia.

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