Francisco fala claramente: uma segunda família é melhor que uma família desestruturada

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16 Setembro 2016

O Papa Francisco tem dois modos de lidar com a oposição: um modo é via manobras pacientes, que podem durar anos; e a outra é por explosões súbitas, apresentadas em poucas e memoráveis palavras. Na questão sobre como lidar com os fiéis católicos divorciados e recasados no civil, ele convocou dois encontros mundiais dos bispos, em 2014 e 2015, e os viu debater em público com uma ferocidade inédita sobre se – e como – a Igreja deveria reconhecer os segundos casamentos.

A reportagem é de Andrew Brown, publicada por The Guardian, 14-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Cardeais pesos-pesados declararam que não se pode fazer algo assim. Sete deles publicaram um livro pouco antes do Sínodo dos Bispos de 2015 visando ressaltar suas crenças. Um dos principais conservadores, o Cardeal Robert Sarah, comparou o liberalismo sexual ocidental aos ISIS – ambos, aparentemente, enviados do demônio: “Precisamos ser inclusivos e acolhedores a tudo o que é humano; mas o que vem do Inimigo não pode e não deve ser assimilado. Não se pode unir Cristo e Belial! As ideologias homossexuais e abortistas ocidentais e o fanatismo islâmico são hoje em dia o que o nazi-fascismo e o comunismo foram no século XX”.

Sarah também pediu que os padres celebrem a missa com as costas viradas para a congregação reunida, como se fazia antes das grandes mudanças introduzidas no Concílio Vaticano II na década de 1960. Tal sugestão foi desqualificada firme e publicamente pelo Vaticano.

Contra a postura inflexível do Cardeal Sarah e outros conservadores pesos-pesados – como o cardeal australiano George Pell –, há uma variedade de vozes progressistas, em sua maioria vindas da Europa ocidental, mas também de outras partes do mundo, em particular os países em desenvolvimento, onde as famílias se formam e reformulam-se sem levar muito em conta certas burocracias. O documento que surgiu do embate entre essas duas visões foi um resumo um tanto longo e, aparentemente, ambíguo escrito em grande parte pelo próprio papa.

O texto reafirmou a doutrina inalterada segundo a qual o matrimônio é um compromisso para a vida inteira, mas deixou em aberto também a possibilidade de que a Igreja deve reconhecer que, em algumas sociedades, esta doutrina simplesmente não funciona. É o que já existe nos países ocidentais. Na prática, os cônjuges, onde um ou os dois já estiveram casados antes, têm a permissão de participar da Sagrada Comunhão mesmo quando não passaram pelo processo de anulação através do qual a Igreja declara que o primeiro compromisso matrimonial que outrora tiveram foi inválido. Esta anulação sempre foi algo muito mais fácil de ser alcançado por fiéis ricos e bem-relacionados. Porém a ambiguidade presente no documento do Papa Francisco – a exortação apostólica Amoris Laetitia – permitiu que os continuassem sustentando que tal abertura não poderia, nem deveria, nunca acontecer.

A tão comentada ambiguidade hoje teve o seu fim. Numa carta aos bispos argentinos, que já tinham publicado uma interpretação progressista do documento, o pontífice diz que “não existem outras interpretações”. Isso significa que ele concorda com a ideia de que padres com formação adequada podem decidir por sua própria iniciativa sobre se os parceiros que voltaram a se casar devem ser admitimos à Comunhão mesmo quando estão fazendo – acredite se quiser – sexo (uma das posturas conservadores mais apreciadas é que os divorciados recasados são, evidentemente, bem-vindos à Comunhão desde que não estejam transando um com o outro).
Esta é uma forma ligeiramente superficial de olhar o assunto, mas Francisco não é superficial quanto ao matrimônio. Ele apoia as reformas porque acredita que uma segunda família é, às vezes, melhor do que uma família desestruturada.

Mas tampouco os opositores escondem a oposição que representam ao papa. No ano passado, um blog católico de direita escreveu que os conservadores anseiam pela sua morte. O papa está com 79 anos. Ele tem um pulmão apenas. O que ele fez pode não alterar a doutrina, mas garante que a corrida para escolher o seu sucessor será extraordinariamente amarga, bem como será o motivo de apostas muito altas.

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