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12 Setembro 2016

Uma série de detenções na França esta semana inaugura uma inédita irrupção no mundo do terrorismo: tratou-se de um comando de jihadistas mulheres composto por seis jovens, cujas idades variam entre 16 e 35 anos.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 11-09-2016. A tradução é de André Langer.

Faltou muito pouco para um novo desastre. A polícia francesa desmantelou a tempo um grupo de jihadistas filiado ao Estado Islâmico que se preparava para cometer uma série de atentados em Paris e cujo perfil inaugura uma inédita irrupção no mundo do terrorismo: tratou-se de um comando de jihadistas mulheres composto por seis jovens, cujas idades variam entre 16 e 35 anos.

O fio condutor desta investigação parte do bairro latino da capital francesa. Durante a madrugada de três para quatro de setembro, a polícia encontrou um carro suspeito – um Peugeot 607 – estacionado na Rue de la Huchette. O carro não tinha placa e estava estacionado com o pisca-pisca aceso. No veículo, os investigadores encontraram um baú com cinco botijões de gás e um galão cheio de gasolina. A pista seguida pela contra-espionagem (DGSI) e a seção antiterrorista da Brigada Criminal (SAT) levou até o proprietário do carro e, sobretudo, à sua filha de 19 anos, Inés Madani, cujo próprio pai a descreveu como uma jovem “radicalizada”. Outras duas pessoas foram presas nas horas seguintes: um homem de 34 anos, que foi libertado após quatro dias, e sua companheira e mãe de seus dois filhos, uma mulher de 29 anos, ambos fichados com a designação de “S”, por estarem vinculados à esfera islamista radical. A mulher, Ornella G., estava ligada à jovem Inés Madani e, segundo informações da imprensa, tinha a missão de ativar os explosivos encontrados no carro.

A operação fracassou e por isso deixaram o veículo, não longe da Catedral de Notre Dame de Paris. No dia 08 de setembro, a polícia prendeu Inés Madani e outras duas mulheres, Sarah H., 25 anos, e Amel, 39, na localidade de Boussy-Saint-Antoine (Essonne), a 25 quilômetros da capital. Durante a operação, Inés Madani atacou um policial com uma arma branca e ficou ferida em um pé. Entre seus pertences foi encontrada uma carta em que proclamava sua lealdade ao Estado Islâmico: “ataco-os em sua própria terra para marcar seus espíritos e aterrorizá-los”, dizia na carta.

O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, assegurou que as mulheres “preparavam novas ações violentas e, sobretudo, iminentes”. As três mulheres presas projetavam cometer dois atentados: um no centro de Paris, na Gare de Lyon, e outro em uma estação nos arredores. Segundo fontes policiais e da imprensa, seu objetivos consistia em vingar a morte do porta-voz e número dois do Estado Islâmico, Abu Mohammed al-Adnani, apelidado de “ministro dos atentados”. Adnani morreu durante um bombardeio da coalizão ocidental contra as bases do Estado Islâmico.

A relação entre este primeiro comando de jihadistas femininas, o próprio Estado Islâmico e os autores dos atentados cometidos em Paris em 2015 não demorou a se confirmar. O vespertino Le Monde adiantou que as mulheres tinham relações com um “chefe” instalado nas zonas do califado proclamado pelo Estado Islâmico em 2014, entre a Síria e o Iraque. Trata-se de Rachid Kassim, um jihadista francês considerado como o instigador do assassinato do padre francês Jacques Hamel, na localidade de Saint Étienne-du-Rouvray, em 26 de julho passado. Kassim é muito ativo nas redes sociais e é um dos principais promotores do jihad feminino. Em uma das mensagens divulgadas através do Telegram e dirigido aos homens, Kassim escreve: “Por que vocês demoram tanto – em cometer atentados –; não veem que as mulheres estão ultrapassando vocês em honra?”

Além disso, o matutino Le Parisien revelou que uma das mulheres mantinha também contatos através da internet com Hayat Boumeddiene, a companheira – atualmente fugitiva – de Amedy Couylibaly, o homem que perpetrou em 2015 o atentado contra o supermercado judeu do leste de Paris. Outras duas mulheres quiseram contrair matrimônio primeiro com Larossi Abballa, responsável pelo assassinato de dois policiais, e depois com Adel Kermiche, um dos assassinos do padre Jacques Hamel.

Nunca até agora se havia detectado uma célula terrorista composta essencialmente por mulheres muito jovens. As autoridades, isso sim, seguiram a pista de casos isolados, mas não uma estrutura que havia programado e estruturado a mecânica de um ou vários atentados. Em agosto de 2015, uma adolescente de 16 anos foi incriminada após anunciar no Telegram sua intenção de realizar atentados. Em março do mesmo ano, duas adolescentes falaram no Facebook sobre a ideia de cometer um atentado contra uma sala de espetáculos de Paris. No ano passado, outras três adolescentes evocaram sua intenção de matar judeus em Lyon.

O desmantelamento da rede contradiz a análise que, até agora, dominava a estratégia dos serviços secretos: pensar que as mulheres que viajaram ao Iraque ou à Síria o fizeram apenas para acompanhar os passos de seus companheiros e não para alistar-se sob as bandeiras do Estado Islâmico. O drama evitado em Paris prova que as mulheres são perfeitamente capazes de se transformar em jihadistas ativas. Até agora, 59 mulheres foram incriminadas por laços com o terrorismo, 18 das quais estão detidas e 12 são adolescentes.

Em uma entrevista ao Le Monde, o promotor de Paris, François Molins, comentou: “a intervenção destas mulheres teledirigidas por indivíduos que se encontram na Síria ou no Iraque demonstra que o Estado Islâmico aspira a fazer das mulheres verdadeiras combatentes. Se, no princípio, o Estado Islâmico confinou essas mulheres às tarefas domésticas ou familiares, é forçoso constatar que essa visão está, atualmente, ultrapassada”.

A pesquisadora Géraldine Casutt explicou ao matutino Libération que “na Síria ou no Iraque essas mulheres têm a missão de ter filhos para perenizar a ideologia do Estado Islâmico. Mas nos países ocidentais, podem ser mobilizadas para cometer atentados”. A este respeito e no que toca à mesma personalidade das mulheres jihadistas, François Molins reconheceu que “nos últimos meses observou-se uma aceleração dos dossiês implicando jovens menores. Seus perfis são inquietantes. Têm personalidades muito duras e, muitas vezes, estão à frente de projetos terroristas que, no plano intelectual, começam a estar muito bem preparados”.

Atentados em massa, lobos solitários e, agora, mulheres jihadistas, o Estado Islâmico conta com poderosos e imprevisíveis recursos para expandir o terror, esteja ou não debilitado em seus feudos pelos bombardeios das potências aliadas.

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