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03 Setembro 2016

O livro “Ixcán: Massacres e sobrevivência”, do jesuíta Ricardo Falla, foi apresentado em 27 de junho, em Quetzaltenango. É o quarto volume da série “No entardecer da vida…”, que, em nove volumes, compilará os escritos dispersos e inéditos de Falla. Os volumes 3, 4 e 5 foram redigidos em meados dos anos 80, na época em que seu autor acompanhava as Comunidades de População em Resistência, sobreviventes dos massacres perpetrados pelo Exército.

O artigo é de José Luis Rocha, membro do conselho editorial da Universidad San Carlos, Guatemala, publicado por Envío, revista dos jesuítas da Nicarágua, 24-08-2016. A tradução é de Vanessa Perius.

Eis o artigo.

Conheci este texto de Ricardo Falla em 1989. Estava oculto nas catacumbas de uma comunidade jesuíta na Nicarágua, onde o regime sandinista - já à beira de seu colapso - o livrava da perseguição. Estivera ali dez ou quinze anos. Ali não corria risco de ser confiscado, submetido ao escrutínio policial ou queimado. Formava parte de cinco volumosos folders datilografados que seu autor, ou algum bom amigo, havia encoberto entre milhares de outros papéis em um danificado arquivo metálico. Era uma pesquisa impublicável, realizada por uma lenda viva que naquele ano ainda acompanhava as Comunidades de População em Resistência (CPR).

Um livro clandestino

Seu autor, menos visível que sua obra, estava mais exposto ao perigo. Usando uma expressão já em desuso: ambos, autor e texto, estavam “na clandestinidade”.

Essas circunstâncias envolviam o texto em uma áurea de segredo que dava a sua leitura instigação e vertigem. Emprestaram-me isso por muitos poucos dias e só pude ler o suficiente para querer mais e para saber que estava diante de uma obra imprescindível para que os centro-americanos soubessem quem são e de onde vêm. Talvez este texto nunca mais recupere essa condição de fruto proibido, que o marcou em seu nascimento e que conservou durante décadas.

Apelando a essa furtiva origem, convido a seus potenciais leitores e leitoras, particularmente à juventude que quer conhecer sua história e anseia uma Guatemala melhor que aquela descrita em suas páginas e a que daí pode emergir, a devorá-lo em aroma de subversão. Nenhuma de suas páginas os deixará indiferentes.

Em ilustres livros que analisam o mesmo período histórico, os massacres dos quais os povos maias foram vítimas são apenas uma cifra, um par de frases, um parágrafo, um capítulo. Aqui são 700 páginas. O racismo está em cada uma como força envolvente e onipresente, embora não seja sempre explícito. É a causa eficiente dos massacres. O exército foi só a causa material. Os testemunhos são extensos e frequentemente prolixos. Alguns são dilaceradores. "Este livro está banhado em lágrimas", adverte seu autor nas páginas finais.

Livro de 30 anos que está para ser construído

Ricardo Falla não nos esconde o horror que teve que escutar e os seus informantes padecer. Justamente o contrário: repete-o em uma trajetória espiral que retoma, incrementa e se expande. As reiterações cumprem a função de validar os achados, comparando e optando pela versão mais verossímil, e também surtem um efeito retórico para que a mensagem central - da que Falla é um portador - penetre com força desmedida.

Mas esse efeito pode se diluir se o leitor tomar distância dos fatos e do espírito que incita o autor. Em um mundo onde o novo substituiu o bom como plenitude no sistema de valores, um livro de trinta anos pode correr o risco de logo se converter em peça de museu, valiosa como um manuscrito maia, mas inócua como uma estela com hieróglifos ininteligíveis.

O status político deste livro está, de certo modo definido, mas também está em construção. Sua atualidade parece firmemente estabelecida porque os massacres que analisa estão muito recentes: milhares de sobreviventes e de familiares com parentesco próximo às vítimas vivem ainda e enfrentam a dor e o horror, e reclamam justiça e mudanças. Mas também há uma Guatemala que quer, ou até mesmo acredita, ter virado a página e se encaminhado para um ilusório recomeço. Inclusive há uma Guatemala que sempre viveu ignorando a repressão, imersa nos "sonhos blindados" que dão título ao documentário em que Mikael Wahlforss registra esse fenômeno de cegueira e indiferença. Este presente de audiência fragmentada impõe as coordenadas do texto.

Estabeleço o significado do texto nessas coordenadas segundo as categorias temporárias de Agustín de Hipona, quem em suas “Confissões” entendeu o presente como centro gravitacional do tempo, dividido em presente do passado, presente do presente e presente do futuro. Ou como memória presente do passado, intuição presente do presente e espera presente do futuro.


Apresentação do livro “Ixcan: Massacres e Sobrevivência”, Volume 4 da série “No entardecer da vida…”, Editora Universitária. Universidad San Carlos. Guatemala, 2016.

“Devia lhes fazer justiça”

O presente do passado é a interpretação do passado que Falla expõe no presente. A divisão da potencial audiência e dos intérpretes situa o livro de Falla nos “combates pela história”, como diria Lucien Fevbre.

Primeiro as guerras iniciam nas montanhas a tiros e depois em salas de aula e congressos com os livros. Primeiro com sangue e depois com tinta. A Revolução Francesa e a Guerra Civil espanhola foram estendidas pelos historiadores. O frescor da Revolução Francesa foi sublinhado pelo Primeiro-ministro chinês Zhou En lai, em 1953, quando um jornalista lhe perguntou o que pensava sobre esse acontecimento: "Ainda é muito cedo para dizer", foi sua resposta de esfinge. E Eric J. Hobsbawm detecta nas sucessivas revisões e declarações extremistas sobre a Revolução Francesa um sintoma de que não estamos diante de meras emoções acadêmicas. A figura de Robespierre segue sendo inspiração de extremas polarizações. O historiador François Furet lamenta que "o historiador da Revolução Francesa não só tem que ser competente, mas também deve apresentar outros títulos. Deve anunciar suas opiniões. Acima de tudo deve indicar desde que ponto de vista fala, o que é que pensa e o que busca. E o que escreve sobre a Revolução possui um sentido prévio ao próprio trabalho: trata-se de sua opinião, daquele julgamento que não é obrigatório ter sobre os merovíngios, mas que é indispensável possuir sobre 1789 ou 1793".

A vitalidade da Guerra Civil espanhola foi patente quando o historiador britânico Paul Preston advertiu sobre “o labirinto bibliográfico criado pelo fato de que a Guerra Civil Espanhola seguia existindo no papel”.

A revivificação historiográfica das guerras é uma tarefa repleta de significado. Trata-se de restituir um lugar na história e de dotar de um sentido as vidas destruídas e livrá-las do esquecimento. Revela Falla para justificar o minucioso ardor ao aludir nomes e sobrenomes, parentescos e idades. Faz por respeito às vítimas e a seus descendentes, porque “cada nome é uma pessoa e uma constelação de gente”. Já havia explicado em outro de seus livros, “História de um grande amor”, onde diz: “Eu parecia perante eles (suas testemunhas) como um juiz que devia lhes fazer justiça ao transmitir sua palavra… Saí com uma responsabilidade sobre os ombros, a de contar a outros o que foi ouvido”.

Uma entristecedora evidência do genocídio

Mas a história não só é uma oportunidade de reivindicar a sujeitos individuais e a grupos. Também oferece uma síntese do que aconteceu, uma versão dos fatos em que uma comunidade nacional ou étnica pode ou não se reconhecer. No caso deste livro, a vitalidade e a polarização em que transita são mais nítidas porque aborda o tema dos massacres e o dos usos jurídico-políticos que esse passado – na realidade, sua tipificação como genocídio –, podem ter no castigo dos carrascos e no destino presente da Guatemala.

Ricardo Falla foi o primeiro a pedir, em 1983 - perante o Tribunal Permanente dos Povos em Madri – que se condenasse o regime de Efraín Ríos Montt por genocídio “no sentido estrito da palavra”. Este livro não se propõe -como finalidade principal- pronunciar-se a respeito, de fato transborda esse objetivo, como, de forma assertiva, assinala Sergio Palencia no prólogo.
Entretanto, toda sua entristecedora evidência aponta nessa direção. E por isso se situa em um debate repleto de negadores do genocídio. David Stoll, rebatido veementemente por Victoria Sanford, é talvez o mais conhecido, mas não o único. O espectro -entre os acadêmicos- vai desde quem só se limita a negar que os massacres possam ser classificados como genocídio até quem os equiparam aos assassinatos cometidos pela guerrilha, e os inserem nas negociações entre exército e guerrilha, explicando-os como mais um elemento da onipresença do belicismo, em uma atmosfera onde ninguém podia se permitir o luxo de distinguir entre santos e pecadores, mas onde as ações provocadoras da guerrilha foram o detonante elementar.

Uma impossível imparcialidade

Carlos Sabino, historiador argentino, ex-esquerdista convertido ao capitalismo, membro do Center for Global Prosperity, dirigido por Álvaro Vargas Llosa, e autor de “Guatemala, a história silenciada”, assegura nesse livro que a “impotência, ignorância e desejos de vingança foram os combustíveis que alimentaram os massacres. Não o desejo de fazer desaparecer nenhum grupo étnico” e questiona a imparcialidade de Falla: “O Padre Falla relata apenas as ações violentas realizadas pelo exército e explicitamente deixa de lado as cometidas pela guerrilha, em uma curiosa forma de buscar a 'imparcialidade’”.

A imparcialidade não era possível nem desejável nas condições em que este livro foi escrito e seu material aprovisionado. “Não se pode ser neutro em um trem em marcha”, disse o historiador Howard Zinn. Falla não podia sê-lo sobre a marcha fúnebre dos massacres.

Entretanto, parcialidade não é sinônimo de carência de objetividade. Falla declara sua parcialidade ao explicitar o ponto de partida de sua análise: “A guerra contra-insurgente do Exército foi uma guerra contra o povo e os interesses da maioria e, portanto, injusta. Nela se encontra a raiz das violações. Se não se aceitar este ponto de partida, cai-se em uma casuística de que sempre se entendem as ações dos militares como necessárias para o fim da pacificação pretendida por eles”.

Sobre este ponto de partida, Ricardo Falla detalha os efeitos da vontade de extermínio de povos inteiros, a destruição de seus meios de vida e, sobretudo, de sua semente: “por que os soldados matavam crianças inocentes? Este era um elemento contido nas operações da ofensiva… Não podia ser acidental. Foi feito na Nova Concepção de Cuarto Pueblo, em Cuarto Pueblo mesmo só para mencionar os casos melhor documentados… Mas não temos informação de Ixcán para comprovar quais eram as intenções genocidas do Exército ao matar crianças. De outras zonas, sabemos que o Exército, antes de massacrar, ameaçou a população de destruí-la 'até a semente' se deixassem de apoiar a guerrilha. A semente eram as crianças, ainda que fossem recém-nascidos”.

Testemunhos reunidos nos cenários do terror


Foto: Kevin P./Licença Creative Commons.

O tema do genocídio não é o único em disputa. Existem outros não menos candentes: a formação e o rol das Patrulhas de Autodefesa Civil, a continuidade ou não das políticas de terra arrasada durante o regime de Ríos Montt, que pretendeu mascarar-se de benfeitor, o caráter indiscriminado dos massacres e a natureza forçada ou não das aldeias estratégicas.

Também se debate o valor e as dimensões das Comunidades de População em Resistência, as que segundo Yvon Le Bot não tinham mais papel e significado que o de manter “as aparências de uma base social da insurreição”. O livro de Ricardo Falla oferece dados firmes e análise sobre todos estes temas, que seguem sendo debatidos com algo a mais que emoções acadêmicas.

Como foram recolhidos esses dados? Muito de perto. Nos cenários do terror. Golpe a golpe e morto a morto. Às vezes basta uma faísca para o ponto fundamental: “Em apenas um caso, entendi como funcionava o genocídio guatemalteco. Consistia em matar o povo até a semente: ou seja, até as crianças, que não podiam ser inimigos políticos de uma comunidade”. Mas essa faísca chega depois de um paciente trabalho de busca. A objetividade, um prurido que Falla tem como cientista social, busca destilá-la com os mais diversos recursos da investigação qualitativa: o fio condutor (a pergunta básica), as entrevistas com dezenas de informantes, a construção de uma cronologia dia a dia, inclusive hora a hora, os mapas e esboço que situam o cenário para que os relatos tenham consistência espacial, o conhecimento por osmose (a inserção para se pôr no lugar do outro), que agora chamam diálogo ero-epic (conversação livre durante horas e em vários encontros), a confrontação de uns testemunhos com outros.

Este texto parte das árvores (as tragédias individuais, a dor de algumas pessoas descrita com toda sua crueldade), sem perder de vista o bosque (os patrões dos massacres) para decifrar, em sua sistematização e suas tendências, os fins e suas consequências, que não necessariamente coincidem com a intenção nem com os motivos. Embora Falla privilegie um enfoque emic (do ponto de vista dos protagonistas), não renuncia ao enfoque etic (comparar com outras fontes documentárias).

“Falta-me a visão do vencedor”

Estes recursos permitem ao autor penetrar nas intermitências da morte, nas descontinuidades dos massacres, inclusive nas vacilações dos comandos intermediários, todos indícios de que estamos perante políticas, e não ações espontâneas de soldados que trabalharam por iniciativa própria sob o arrebatamento de seus baixos instintos, embora muitos tenham incorrido em excessos horripilantes -violações, formas específicas dos assassinatos-, que não foram precisados nas ordens, mas que cumpriram sua função no teatro do terror.

Falla também tenta penetrar nos fins, motivos e métodos dos soldados, mas o faz sobre um grande vazio: “Não podemos resolver isso com dados sólidos, enquanto não conheçamos os planos das tropas e as mudanças que sofriam sobre o terreno”. Também aponta em outro texto: “Falta-me a visão da outra cara, a do que se considera vencedor: o exército”.

Esta limitação está no passado do texto e afeta suas pretensões de objetividade em aspectos que poderão ser reparados mediante futuras investigações. Levando em conta os elos entre polícia e exército, possivelmente se produza algum esclarecimento ao trabalho de formiga que atualmente é realizado para pôr ordem e montar um ou vários quebra-cabeças com os 88 milhões de documentos, com 7,900 metros lineares de papel do Arquivo Histórico da Polícia Nacional, que em 2005 foram descobertos por acidente.

Um texto do passado que conversa com o presente


Foto: Kevin P./Licença Creative Commons.

Manuel Vela Castañeda realizou um trabalho árduo para explicar o surgimento e forma de operação dos corpos repressivos que perpetraram o genocídio, embora os aspectos mais específicos de seu muito bem documentado trabalho se concentram no massacre na aldeia La Dos Erres.

Necessita-se acesso a documentos oficiais e penetrar na concatenação da cadeia de comando dos massacres de Ixcán para avançar mais um degrau na objetividade. Falla alude uma e outra vez ao caráter um tanto especulativo de alguma de suas hipóteses. Sua solução provisória é distinguir entre motivo, intenção e consequências.

Finalmente, um elemento não menos importante da “objetividade” é a retórica sobre a que se fundamenta a possibilidade de convencimento. Falla assinala que sistematização, análise e redação vão imbricados e que “a redação já leva um elemento de comunicabilidade mais explícito”. Falla opta por um estilo de redação plano, desprovido de refinamentos retóricos, talvez fiel a seu pseudônimo “Marcos”, porque Marcos foi o mais sucinto dos quatro evangelistas. Ou como Santa Teresa, que dizia “Não sou tão humilde a ponto de querer ser considerada tão soberba” e por isso escrevia com um discurso muito direto.

Minha percepção ao ler este livro é que a sua linguagem plana, livre do jargão acadêmico e dos clichês ideológicos da época, atribuem um frescor a este texto do passado que conversa com o presente.

O que as guerras deixam

A intuição do presente é a colaboração deste livro para a compreensão do presente. Carlos Figueroa Ibarra aponta para uma conclusão tenebrosa em “O recurso do medo” quando afirma: “A cultura política do terror é uma viçosa realidade na Guatemala de hoje. Certamente é herança do passado, mas também é necessidade do presente”. A Guatemala do recomeço nega esta afirmação.

Mas há muitos indícios de que muitas das sequelas e prequelas da era do terror estão presentes. Por exemplo, os dois matadores descritos pela testemunha que Falla apresenta como “Juan” são esquartejadores, decapitadores: “É como fazem os esquartejadores. / Só o viram de cabeça para baixo, e pronto, a adaga, / e a tiram com sangue e a lambem! / (A testemunha imita o gesto). / Saboroso o frango, dizem. / E pegam outro e outro”. Em uma cova atiravam os corpos desmembrados, jogavam-lhes gasolina e prendiam fogo até reduzi-los a cinzas.

São os predecessores do famoso Pozolero. A alongada sombra dos kaibiles se estende ao narcomundo mexicano de hoje. As sequelas são numerosas porque as guerras têm umas ondas de longa duração que os acordos de paz não podem subitamente colocar uma barreira.

As prequelas dos massacres, as raízes -o racismo- e as feridas estão vivas e se ramificaram em manifestações imprevistas.

Quando o maior líder e fundador de uma megaigreja na Guatemala, Harold Caballeros, do El Shaddai, vestido com traje militar irrompe no palanque ao grito de “Seremos Kaibiles por Cristo!”, declara uma opção político-militar enaltecida no plano espiritual e encena uma banalização das ações dos kaibiles que só pode se nutrir do desprezo de quem foi suas vítimas. Não ocorreria a nenhum líder religioso discursar aos fiéis dizendo “Sejamos Gestapo, KGB ou Ku Klux Klan por Cristo” porque o nefasto papel que essas instituições desempenharam na Alemanha, na URSS e nos Estados Unidos está amplamente estabelecido.

Se estas grosserias e certas frases, como “Estes índios desde que pensam que são gente...” ainda não pisam no terreno do socialmente repudiável, é essencialmente porque o racismo que motivou os massacres está vivo. E é a razão pela qual os indígenas foram objeto do terror maciço mais que do seletivo, sintoma de uma sociedade cindida entre o rural e o urbano e entre o indígena e o ladino.

O pecado original era ser Maia


Foto: Roberto Urrea./Licença Creative Commons.

Acredito que a teoria de Figueroa Ibarra de que o terror maciço é próprio dos momentos de ascensão revolucionária não se cumpre sempre. Ricardo Falla mostra que não houve proporção entre as ações insurrecionais e o terrorismo de Estado. Em todo caso, essa correlação não está tão evidente como uma conclusão que se desprende deste livro: o terror maciço foi aplicado ali onde se pôde aplicar, onde não se via, onde estão os que não importam, onde era possível fabricar os que agora se denominam “falsos positivos”, neste caso população civil que uma vez morta se contabiliza como baixas de guerrilha.

O livro de Falla revela que não importa apenas o contexto de repressão, mas também as condições da impunidade, do tolerável, que atacaram sem distinção de nível econômico, educação, idade, filiação partidária. Não havia distinção: todos eram indígenas. Por isso em algumas aldeias morreram mais os despreparados e inócuos: carismáticos, filiados a partidos de direita, os convencidos de que o exército não lhes faria mal porque “quem não deve não teme”, como diz do além-mundo alguma das vítimas através das testemunhas que a recordam. Mas cada linha deste livro revela a perturbadora realidade de que tinham sim uma dívida: o pecado original de ser Maia.

A Guatemala que presume o recomeço revitaliza o racismo e o distanciamento que tornou possível viver escondido dos massacres em forma de apartheid social, de segregação social dos excluídos por obra de uma cartografia urbana agora segmentada em zonas selvagens com suas maravilhas e suas florestas e zonas civilizadas com seus condomínios fechados e autossuficientes. Aqui há uma indagação a qual este livro proporciona verdades inquietantes.

Uma homenagem às resistências

O livro não contém apenas o horror dos massacres. Também estão presentes as forças que geraram a resistência, um termo cheio de polissemia que se transforma ao longo dos relatos e da análise. Resistir é meramente sobreviver quando o objetivo é eliminar uma população. Mas resistir é também ocultação, dissimulação diante dos soldados, exagerar o número e equipamentos militares da guerrilha, fazer vigia. Resistir inclui ações mais agressivas como colocar postes para que os aviões do exército não possam aterrissar ou instalar armadilhas. Esse livro homenageia essas formas de resistência. Possivelmente para estimular outras resistências no presente.

É possível que o regime de Ríos Montt tenha sido, efetivamente, um divisor de águas nas estratégias contrainsurgentes, que colocasse os primeiros degraus para outros mecanismos de dominação, como até mesmo os analistas de esquerda sustentam.
Mas essa reviravolta só mudou o altar onde se consumam os sacrifícios humanos: as comunidades maias já não seriam vitimadas em altares do domínio burguês, mas sim da estabilidade e da democracia, que definitivamente são meios para um domínio burguês aparentemente mais anuente à construção de consenso. A resistência a este novo altar pode ser uma mensagem que este livro comunica ao presente.

“Que atravesse gerações e fronteiras”


Foto: Capt Acab./Licença Creative Commons.

O presente do futuro é o futuro do livro que se observa do presente: a espera presente de seu futuro. Falla não oculta seu desejo de falar para o futuro: “Esperamos que suas ondas atravessem gerações na Guatemala e fronteiras”.

Não sabemos quão duradouro será este livro. Ignoramos se sobreviverá às testemunhas que nele falam e assim prolongará sua palavra, ou se desaparecerá para emergir décadas ou séculos depois como os Anais dos Kaqchikeles. Hoje sabemos que, aos seus trinta anos, está pregando como Jesus Cristo, depois de três décadas de vida oculta. Podemos situá-lo milhares de anos depois, como os livros da história de Heródoto, que são nove, também nove são os volumes reunidos sob o título “No entardecer da vida…”, que reúnem os escritos até agora inéditos ou dispersos de Ricardo Falla.

Minha comparação com Heródoto não se deve tanto ao fato de seus nove livros da história narrarem numerosos genocídios. Tampouco a que esses nove volumes contenham passagens que parecem extraídos do livro de Falla: “Os da Erétria não tinham conselho sensato, estavam divididos entre duas ideias. Uns pensavam em abandonar a cidade e distanciar-se dos penhascos de Eubeia, e outros, esperando vantagens particulares dos persas, preparavam a traição”. Por outra parte, como Heródoto, que durante milênios foi o mais antropólogo dos historiadores, Falla matiza sua narração com algumas reflexões existenciais ou alguma sentença generalizadora sobre a condição humana: “Parece, como uma lei da guerra, que a proximidade de grandes êxitos suporta o risco de grandes derrotas”.

“O sangue semeia o que outros colherão”

Minha comparação com Heródoto não é um exercício de erudição. Tem por objetivo desentranhar o modelo de história no qual se inscreve este livro. O historiador alemão Reinhart Koselleck caracteriza o modelo histórico de Heródoto em contraste com o de Tucídides, em que a história é acima de tudo a história do poder e de como se impõe, sem atender ao direito nem à justiça. Em troca, em Heródoto, a história leva à prática de uma justiça que lhe é inerente, e o historiador deve proceder como um juiz que interroga as melhores testemunhas e contrasta seus testemunhos e também se interessa na versão da parte contrária para obter um melhor conhecimento dos fatos.

Heródoto acreditou -como Falla mostra- que é legítimo ter um julgamento sobre seu objeto e habilitar o leitor para que emita esse julgamento. A fiel transmissão dos fatos não está dissociada da formulação de julgamentos, começando pela caracterização da guerra que o exército libera contra o povo como injusta, um julgamento que é o pilar do estudo de Falla.
Este duplo sentido de justiça do Heródoto é praticado por Falla. O primeiro sentido concerne nos procedimentos para reunir os fatos (contrastar, verificar, decidir pelo mais verossímil). O segundo se refere à justiça que se tem que impor. Neste segundo sentido, Falla inscreve uma de suas sentenças conclusivas: “O sangue semeia uma planta que será colhida por outras gerações”.

Foi justa a guerra popular?


Foto: Daniel Mennerich/Licença Creative Commons.

Uma reflexão sobre a finalidade da história contribui para esse segundo sentido: “Embora não tenham passado anos suficientes para ter uma perspectiva a longo prazo, é difícil, neste momento, afirmar que esta guerra popular fora justa, levando em conta o preço em sangue que implicou e os resultados ainda piores de tanto sacrifício. O qual não significa negar a utopia que se desdobrou e a enorme imaginação coletiva que entrou em jogo para sobreviver à repressão e resistir a ela”.

Esta ponderação pode resultar inquietante, inclusive perturbadora, porque pressupõe que a justiça emana dos resultados de um processo, e não de seu valor intrínseco.

Se a afirmação for tomada em um sentido político, pode se levar a pensar que não se deve empreender mais luta que aquela que de antemão podemos prognosticar como bem-sucedida, e esse é um desatino sobre o que Marx -em defesa da Comuna de Paris- pronunciou-se com sarcasmo em uma carta a seu amigo, o doutor Ludwig Kugelmann: “Certamente, seria extremamente cômodo fazer a história universal se só se empreendesse a luta quando todas as probabilidades fossem infalivelmente favoráveis. Por outro lado, a história seria totalmente mística se as 'casualidades' não desempenhassem nela nenhum papel”.

Hannah Arendt também observou que a pluralidade humana introduz um elemento de contingência e indeterminação: as ações de uns incidem sobre as de outros com a consequência de que os agentes podem conhecer suas próprias intenções, mas desconhecem o significado de seus atos. E também suas consequências. Com base nisso, Arendt foi muito enfática em assinalar que a reflexão teórica não tem a finalidade de inspirar a ação. Sua solução foi fazer a distinção entre política e história: a política é contingente e infestada de incerteza. Não é a história, que é a visão a longo prazo.

“Fomos revolucionários fora do tempo”

Como Falla introduz sua reflexão dizendo que “não se passaram anos suficientes para ter uma perspectiva a longo prazo”, acredito que sua afirmação se localiza em uma dimensão histórica, mas em uma história de curto prazo: se a guerra foi justa ou não é um veredicto reservado à perspectiva de longo prazo que agora não temos.

Ponderando a história a partir de um presente não tão longínquo a esse passado, Falla parece coincidir com Mario Payeras, quem já em 1987 -um ano depois que Falla concluíra este livro- censurou a luta armada a que ele mesmo tanto tinha contribuído ao concluir que “a violência só é justificada quando é todo um povo quem recorre a ela, como saída extrema”.

A declaração de Falla também se aproxima da de Edelberto Torres-Rivas: “A vontade frente aos fatos nos colocou, sem saber, contra a corrente da história. Fomos revolucionários fora do tempo… Objetivos reformistas com agentes armados e ânimo radical, nadando contra o fluxo previsível da corrente, da direção em que se movia o fluxo universal da história”.

Possivelmente poderia se ter trabalhado de outra maneira, espionando o fluxo para jogar com as manipulações. Não sabemos, nem esses três autores podem nos esclarecer isso porque o fluxo troca seu rumo com cada ação e porque por esse caminho reflexivo entramos em um terreno das casualidades.

Os três julgamentos são formulados misturando o legado da história e a limitada posição vantajosa do presente. Os três parecem coincidir com Arendt: “As revoluções -longe de acabar com a desgraça- só aceleram de forma temerosa o ritmo de seu desdobramento”.

Um livro banhado em lágrimas


Foto: npatterson/Licença Creative Commons.

Mas como essas casualidades formam parte da história -sem elas, seria totalmente mística-, Falla não descarta que, numa perspectiva a longo prazo, combine essas casualidades em um relato explicativo e sensato. Falla fundamenta essa explicação quando trata do inverso dos massacres: as ações de sobrevivência.

Porque neste texto de Ricardo Falla a justiça não surge de um destino inelutável nem está garantida por um oráculo, como em Heródoto, mas sim emerge da vontade de resistir e está garantida pela colheita que outras gerações farão. A estas está reservado o julgamento sobre a versão da história que prevalecerá.

Para a formulação desse julgamento, ou desses julgamentos elaborados em sucessivos presentes do futuro, este livro será uma peça fundamental porque “está banhado em lágrimas”: as das testemunhas que viveram esse passado, as do autor que tem a coragem de narrá-lo no presente e as de quem o ler no futuro.

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