"Não somos nós que salvamos a criação, mas Deus." Entrevista com Christophe Boureux

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02 Setembro 2016

Christophe Boureux acaba de publicar pela editora Queriniana uma obra teológica de grande empenho sobre os temas da criação e do criado, em que oferece intuições extremamente estimulantes para dar uma profundidade bíblica e cristológica à reflexão sobre o tema.

Publicamos aqui abaixo o trecho de uma entrevista concedida pelo dominicano francês ao semanário católico La Croix no momento do lançamento do livro. Das suas palavras, emerge o corte especificamente crístico para se entrar como crentes no mistério da criação. Parece-nos a melhor maneira de olhar para a celebração do 1º Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, instituído pelo Papa Francisco.

Nas intenções originais, o dia quer enfatizar a nossa vocação de cuidadores da criação e quer fazê-lo "com uma oração de agradecimento a Deus pela obra maravilhosa que Ele confiou aos nossos cuidados".

A reportagem é de Dominique Greiner, reproduzida no sítio Teologi@Internet, 01-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

No seu novo livro, você fala do "teólogo-jardineiro". De onde provém essa qualificação?

De uma experiência pessoal. Eu era mestre dos estudantes no convento dominicano de Lille e cuidava do jardim da comunidade. Um dia, o cozinheiro tinha esta consideração sobre mim em voz alta: "Em você, convivem dois personagens: de um lado, o professor, de outro, o jardineiro". Em um primeiro momento, fiquei chocado, mas o cozinheiro da comunidade tinha visto bem. O teólogo e o jardineiro são, com efeito, dois lados do meu caráter, copresentes em mim, que, desde então, eu tento conciliar. Fazer jardinagem me ajuda a reconciliar as duas cabeças, as duas mãos, me liberta da tensão gerada pela concentração que é necessária para qualquer trabalho intelectual.

A figura do jardineiro também está muito presente na Bíblia. Que significado ela pode ter?

Cristo ressuscitado aparece como jardineiro a Maria Madalena. Ele retoma a figura de Deus que estabelece um jardim no Éden, no ato da criação do mundo, um jardim confiado, depois, ao ser humano. Nesses dois momentos fundamentais – na criação e na ressurreição – o ser humano, portanto, se encontra posto em um jardim e é aí que é chamado a responder a Deus. De algum modo, o ser humano que responde a Deus é, acima de tudo, um jardineiro.

Por que o ser humano é posto justamente em um jardim?

O jardim é o lugar da convivialidade universal. Quando há um jardim, as pessoas param para admirar e começa o diálogo. Entre os jardineiros, trocam-se as plantas... Mas, se olharmos ainda mais em profundidade, o jardineiro trabalha nessa convivialidade: ele faz com que, no jardim, todas as plantas obtenham a sua colocação, tenha espaço, sombra, alimentação suficiente; ele é como o maestro da orquestra que realiza esse ordenamento. Desse modo, o jardineiro é também o anunciador da recapitulação de todas as coisas em Cristo, do ordenamento final de toda a criação. Em contato com a terra, o jardineiro participa da realização da profecia de Isaías, que anuncia a plena reconciliação para todas as criaturas e a possibilidade para elas de viverem juntas: "O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito..." (Is 11,6-9).

Então, por que Adão e Eva foram expulsos do Éden?

Ao comer o fruto que lhes era proibido, puseram em curto-circuito o tempo do trabalho, o tempo do amadurecimento, o tempo da produção. Rejeitaram o ritmo lento que as plantas têm. Porém, Deus tinha lhes pedido para cuidar do jardim, ou seja, para respeitar a temporalidade própria da natureza. A jardinagem, então, nos coloca precisamente em uma relação mais correta com o tempo. Ela faz como a liturgia, em suma, que nos confronta com outro ritmo, que ajuda a nos libertar do tempo rápido que nos aprisiona, que nos consome.

A reflexão cristã sobre a ecologia se volta de bom grado para os passos do Gênesis. Mas isso não ocorre às custas da figura de Cristo?

Do século XVII ao XX, grosso modo, o pensamento foi dominado pelo teísmo herdado da filosofia iluminista: tinha uma concepção de Deus como princípio em sentido estrito, quase impessoal, desprovido de qualquer subjetividade, distante de toda figura crística. Um dos objetivos do meu trabalho é justamente o de reencontrar o caminho para uma criação crística da forma como ela é encontrada nos Padres da Igreja. Tenho em mente as miniaturas medievais que ilustram os sete dias da criação em que se vê claramente que é Jesus que preside a ação criadora. A figura do Deus invisível de que fala a Carta aos Colossenses (1, 15) é Cristo, "o primogênito de toda a criatura". É através de Cristo que os cristãos devem entrar no mistério da criação!

Qual é a convicção que você tira dessas reflexões para elaborar e desenvolver uma "ecologia cristã"?

Há um perigo à espreita: o de utilizar a causa ecológica para acusar as pessoas de todos os males possíveis e imagináveis. Tentemos não ser "ecoterroristas", mas, ao contrário, seguidores de Cristo que anunciam a boa nova. E não nos esqueçamos de que não somos nós que salvamos a criação, mas Deus. Além disso, há ainda outra convicção que me vem da experiência direta: um discurso ecológico não se sustenta e é inútil se, no fim, não é recebido também pelas pessoas que têm interesses concretos em torno da exploração e da rentabilidade dos bens da criação, por exemplo, as florestas e os solos. Estou experimentando isso com o colégio florestal e com os agricultores com quem estou em contato na gestão da área circundante ao convento de Tourette, onde eu moro atualmente.

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