Os "quatro princípios" do Papa Francisco: o debate continua

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02 Setembro 2016

Em seu blog Come Se Non, 28-08-2016, o teólogo italiano Andrea Grillo retoma o recente debate sobre os "quatro princípios" do Papa Francisco, afirmando: "Nos posts anteriores, as críticas aos ‘quatro princípios’ do Papa Francisco abriram um debate entre Giulio Meiattini, Stefano Biancu e o administrador deste blog. Queria retomar, neste post, alguns ‘comentários’ dos próprios autores, para lhes dar o seu devido relevo e alimentar reflexões necessárias sobre o magistério do Papa Francisco. Para compreendê-los é necessário, evidentemente, ter em mente o conteúdo dos posts anteriores sobre o tema"

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o diálogo.

Giulio Meiattini
26 de agosto de 2016

Agradeço ao Prof. Biancu pela sua atenção à questão por mim levantada e pelas suas observações. Como a sua intervenção é apresentada como resposta a Giulio Meiattini, este último se permite a intervir novamente, desculpando-se novamente pelo comprimento da resposta.

Depois da tentativa de Grillo de reportar os quatro postulados ao leito "pastoral", emerge agora outra perspectiva: o "sapiencial-bíblico". É preciso notar, en passant, que "sapiencial" é uma categoria muito escorregadia, analogamente à categoria de "pastoral". B. Seveso, um dos pastoralistas mais preparados na Itália, afirmou que, desde o Concílio, a ideia de pastoralidade permaneceu "indeterminada" ("Teologia" 37 (2012), p. 383-414). Afirmação preocupante, já que todas as reformas pós-conciliares se moveram na onda da "virada pastoral"! "Sapiencial" também é uma categoria vaga. Sapiência dos ditos e dos provérbios populares? Sapiência na acepção da literatura bíblica sapiencial? Sapiência como a teologia dos monges medievais (que não é menos atenta às nuances e ao rigor da escolástica)? São acepções muito diferentes.

Em todo o caso, continuo sendo da opinião de que o postulado (ou os postulados) da Evangelii gaudium é de caráter filosófico. Reporto mais uma vez a "explicação" com a qual o Papa Francisco tenta mostrar na EG 222 que o tempo é superior ao espaço:

"Existe uma tensão bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o limite é o muro que nos aparece pela frente. O ‘tempo’, considerado em sentido amplo, faz referimento à plenitude como expressão do horizonte que se abre diante de nós, e o momento é expressão do limite que se vive num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço" (n. 222).

Como escrevi no meu artigo publicado no site de Magister, essas frases parecem-me incompreensíveis. Li textos mais difíceis da Evangelii gaudium e, algumas vezes também com dificuldade, consegui entendê-los ou, ao menos, pareceu-me entendê-los. Mas esse número 222 parece-me totalmente obscuro e incongruente. Não vejo como, a partir de frases incompreensíveis, pode "emergir um princípio" geral. Já assinalei de modo pormenorizado esse aspecto e não voltarei a ele. Mas a linguagem usada pelo papa é filosófica, não sapiencial-bíblica, até se usa nela o conceito de "causa final", de "utopia" (?), fala-se de "tensão bipolar". Linguagem bíblica? Mas! Não se faz menção à "esperança teologal", não aparece nenhuma citação ou reminiscência escriturística.

Mais uma observação: Biancu cita a valiosa obra de Heschel, "O Sábado", que, com efeito, é uma espécie de hino ao tempo como categoria dominante da Bíblia e do judaísmo, a partir da centralidade do Sábado, enquanto o espaço seria uma categoria secundária ou, de todos os modos, dependente do primado do tempo. Ele, sim, faz uma meditação bíblica. Não há aqui "nem o espaço nem o tempo" para submeter a exame o texto de Heschel. Digo apenas que muitas afirmações daquele livro deveriam ser totalmente pontualizadas, não para serem simplesmente contraditas, mas completadas e reequilibradas. Leiam-se com atenção algumas dessas afirmações: "As festividades celebram os eventos que ocorreram no tempo, enquanto a data do mês fixada para cada festividade é determinada pela vida da natureza" (ou seja, pelo espaço cósmico). Portanto, a partir dessa frase, se poderia dizer que espaço-tempo são inseparáveis no ciclo das festividades. Mas, depois, Heschel afirma, surpreendentemente, que, ao contrário, "a essência do Sábado está absolutamente fora do espaço" (???), "porque ele é completamente independente do mês e não tem relação com a lua" (???). Porém, observo eu, ele tem relação necessária com o sol e com a alternância dia-noite que ele determina com o seu movimento espacial, dando origem aos dias da semana e do ano inteiro.

E então? Eu diria que o belo livro de Heshel é, como disse, um "hino" e uma exaltação do sábado, ou seja, deve ser compreendido em um gênero literário afim ao poético (se quisermos, sapiencial), que usa uma certa hipérbole, que, para ressaltar o valor teológico e espiritual do tempo, usa a ênfase (que, em alguns casos, é legítima), incorrendo em certas unilateralidades talvez aceitáveis "naquele gênero literário".

Dito isso e deixando de lado os outros postulados da Evangelii gaudium, para não colocar muita carne ao fogo, peço ainda que alguém me explique, finalmente, "por que" o tempo deveria ser superior ao espaço. Só para garantir os processos? Repito que bastaria falar de reforma e de conversão ao evangelho, de não ficar agarrados a clichês e experiências repetitivas, para solicitar as mudanças virtuosas, como mais ou menos em todo o tempo da Igreja se deveria fazer. Se, depois, quisermos fazer uma teologia do tempo-espaço, muito bem. Mas façamos teologia, à escuta da ciência e da filosofia, com tudo que isso implica!

* * *

Andrea Grillo
27 de agosto de 2016

Caro Giulio,

na sua resposta a Stefano Biancu, você deixa claros alguns aspectos da sua crítica ao magistério de Francisco que merecem atenção. De fato, se você considera como indeterminado o termo "pastoral" e vago o termo "sapiencial", você alarga em muito e com grandes riscos os objetivos da sua crítica. Pastoral é um termo-chave não só de Francisco, mas do magistério de João XXIII, enquanto sapiencial é o coração da abordagem teológica de Vagaggini e Loehrer. Quem permanece firme nesse exercício de crítica filosófica? Que teologia é realmente adequada? Eu tenho a suspeita de que o ideal filosófico a partir do qual provém a sua crítica só se encontra à vontade com definições dogmáticas e cânones de condenação. E que ele se imuniza da exigência de conversão ao fazer teologia que se expressou precisamente com aquelas palavras.

Aqui eu encontro um ato intelectual demasiadamente apressado, que resolve o julgamento com adjetivações de "indeterminado" e "vago". Em outras palavras: você não acha que está exagerando?

* * *

Giulio Meiattini
27 de agosto de 2016

Caro Andrea, estou bem consciente do risco que você evidencia. Mas não é essa a "dobra" que eu pretendo dar à minha objeção. Eu não ponho em dúvida a "virada pastoral" como tal, nem o interesse da abordagem "sapiencial". A sua pergunta, por isso, me permite me explicar melhor.

1) O caráter "indeterminado" do pastoral é uma observação que eu li no artigo de Seveso citado. É uma observação que me surpreendeu e me permitiu focar melhor alguns ângulos de sombra que eu trazia comigo há algum tempo. A pergunta que me surgiu foi: se um especialista que passou décadas da sua vida estudando e escrevendo sobre a "pastoral" chega a diz que nem o Concílio nem o pós-Concílio chegaram a esclarecer de modo satisfatório o sentido de tal virada pastoral, então em que águas navegamos?

Nesse sentido, o diagnóstico de Seveso é grave, ao menos se for verdadeiro. Talvez, outros pastoralistas pensam de forma diferente, não sei... No campo, não estou informado o suficiente. No entanto, há uma boa dose de confusão, objetivamente, e é ela que eu assinalei na minha primeira resposta que lhe dirigi: diz-se, por exemplo, que a Amoris laetitia não é doutrinal, mas pastoral. E, assim, ela é legitimada. Depois, afirma-se, em outra sede, que o pastoral também tem reverberações sobre o doutrinal... Nesse ponto, desencadeia-se o curto-circuito. O que é, no fim, pastoral, o que é teológico-doutrinal?

Por isso, como eu lhe dizia na minha primeira resposta, o problema decisivo é o de verificar que tipo de relação entre pensamento e ação, teologia e pastoral pretendemos instaurar e promover. Sobre esse ponto, tenho a impressão de que há algo de nebuloso de que alguns se aproveitam e outros permanecem vítimas.

Tomemos a famosa frase programática de João XXIII: trata-se não de mudar a substância, mas a forma. Dita há 55 anos, podia parecer uma operação fácil. Depois, a linguística colocou a pulga atrás da orelha e nos fez ver que a mudança de vestido não deixa o corpo intacto: se você muda o significante, o significado também não é mais exatamente o mesmo. Eu lhe digo, com toda a sinceridade, que não tenho respostas para dar sobre esse busílis, mas, ao menos, tento denunciar as insídias e a pobreza de instrumentos de que dispomos para enfrentar o problema. Absolutamente não é a minha intenção voltar a uma teologia dedutiva.

2) A propósito do sapiencial. Você sabe que a minha tese doutoral e outras publicações posteriores foram dedicadas ao esclarecimento da categoria de experiência em sede teológica, porque (como monge e como teólogo) eu acredito que essa categoria pode servir para sair justamente de uma teologia feita apenas de asserções rígidas e ressecadas da vida e dos afetos. Se eu escolher uma categoria como a de experiência, isso também significa que, mesmo com toda a distância do modernismo, eu considero que o problema modernista ainda deve ser resolvido. Eu não gosto da palavra "sapiencial", embora Vagaggini a tenha usado e embora eu aprecie essa tentativa vagagginiana, com cuja linha me sinto totalmente em sintonia. Mas, em Vagaggini, por mais que eu possa tê-lo compreendido, não há ambiguidade no jogo entre registro pastoral e teológico e litúrgico e espiritual, que são as quatro dimensões essenciais da sua obra maior.

3) A teologia de monges medievais (a famosa teologia monástica, muitas vezes chamada também de "sapiencial") nunca renuncia à precisão "teológica". Se, por exemplo, você ler os Sermões de Bernardo sobre o Cântico, naquela exuberância de símbolos, metáforas, retórica, que parece poesia e literatura (e realmente é), percebemos que nunca se cai em uma linguagem genérica ou descuidada. Sem sair da arte e do símbolo, ele conserva a precisão do teólogo.

O mesmo pode ser dito de Ruperto e de outros. Aqui, a dimensão mística e experiencial não é uma desculpa para rebaixar o nível da reflexão. Parece-me que esse rebaixamento, ao contrário, acontece muitas vezes hoje quando se diz "espiritual", "místico", "sapiencial" e também "pastoral". E isso, como você sabe muito melhor do que eu, também afetou a liturgia. Apesar da boa vontade e da inteligência dos liturgistas que trabalharam na reforma, na prática, disse-se: "Por exigências pastorais, façamos assim e assado", e agora temos uma média de celebrações litúrgicas que, de fato, é justamente "assim-e-assado", miserável. Por exigências pastorais, celebramos a Vigília Pascal às 18h30 (por exemplo, na Basílica de São Pedro), por exigências pastorais, antecipamos a Missa Crismal para a quarta-feira à noite (assim, todos participam!!!), por exigências pastorais, adiamos a crisma para depois da primeira comunhão, por exigências pastorais, tocamos música rock e pop na liturgia...

Desculpe se coloco um pouco de paixão, mas vocês, que, em S. Giustina, estudam a "liminaridade" (e sou profundamente grato a vocês por isso), por que não levantam a sua voz para dizer claramente que, nas nossas liturgias, a experiência de liminaridade está totalmente ausente, sempre "por motivos pastorais"?

Espero agora ter me explicado. Eu não defendo uma teologia fora da sensibilidade da experiência (espiritual) e da práxis pastoral (que é inseparável da experiência, mas não idêntica). Contanto que isso não seja uma desculpa para aceitar linguagens confusas e pensamentos não pensados. Ora, a linguagem e o pensamento de grande parte desse magistério pontifício não está à altura dessa tarefa, isto é, da tarefa de manter uma reciprocidade fecunda entre elaboração teórica e impacto pastoral-espiritual.

Para encerrar. Quer um exemplo positivo de como isso pode ser implementado: releiam-se os escritos do padre Mariano Magrassi e comparem-nos com o seu magistério episcopal, a sua meditação litúrgica, teológica, pastoral e a sua sensibilidade social. Mas o padre Mariano era formado na escola dos padres, que eram "pastores e doutores", os dois aspectos juntos. Além do cheiro das ovelhas, eles também tinham o perfume de Cristo. Este é o título de um pequeno artigo, sem muitas pretensões, que, há algum tempo, eu medito em escrever: "Do comum dos pastores e dos doutores...".

Como você vê, eu me apaixonou um pouco, me acendo, mas sem ressentimentos, nem mesmo em relação ao tempo...

* * *

Andrea Grillo
28 de agosto de 2016

Caro Giulio,

Decidi colocar também esses seus comentários dentro de mais um post, justamente por causa das questões que levantam, com toda a sinceridade e a parrésia com que você as faz emergir. E também estou contente que você, no fim do último comentário, quer se distanciar de leituras que muito facilmente podem ser extraídas das primeiras palavras que você escreveu sobre o tema.

Em outras palavras: se você define como "linguagens confusas e pensamentos não pensados" os termos do magistério de Francisco, isso me preocupa, embora você afirme se apaixonar e se acender sem ressentimentos. Mas as contraposições que você introduz, por exemplo, entre "cheiro das ovelhas" e "odor de Cristo" só confirmam as perplexidades. Se você realmente está consciente dos riscos de uma crítica da teologia "pastoral" e "sapiencial" – e eu não tenho nenhuma razão para não acreditar em você –, por que você sempre deve duvidar do novo como perigoso e se refugia sempre sozinho no antigo?

Dou-lhe um exemplo, apenas um, mas muito claro: a sua discussão sobre a definição de "pastoral", nos termos de uma distinção entre "forma" e "substância", parece ser considerada apenas do ponto de vista dos riscos, e não das vantagens. Você diz: a virada linguística nos colocou a pulga atrás da orelha... Na realidade, ela mudou a relação entre pensamento e linguagem. E essa era a grande intuição do Papa João XXIII, que justificava o Concílio Vaticano II justamente nesse plano; diante do qual você parecem apenas hesitar, ficar em dúvida, confiando em "outra coisa".

E também o julgamento sobre a Reforma Litúrgica que você deixar cair no seu comentário depende de um conceito fraco e baixo de "pastoral", como se fosse a negação de "espiritual" e de "profundo". E, certamente, as motivações da Reforma não têm nada a ver com o que você descreveu como "redução pastoral". Você sempre busca "outra coisa" do que aquilo que foi. Mas o que é esse "outro", senão a teologia anterior? Talvez, o "rubricismo" era a garantia de uma boa liturgia? Você também está convencido de que uma "liturgia objetiva" deve resistir a toda reforma? Eu não acredito.

Por fim, e lhe digo realmente com cordialidade, afirmar que o "magistério pontifício" (de Francisco) não está à altura dessa tarefa parece-me realmente muito "acima (ou abaixo) das linhas". Repito, em outras palavras, mesmo que dentro de muitas palavras de esclarecimento, que você também escreveu e que me satisfazem em parte: não lhe parece exagerada essa demanda de coerência e de rigor ao magistério, quando você mesmo – que é muito mais livre do que o magistério – não saberia como sair dos embaraços "pastorais" e "sapienciais"? Não lhe parece que, aqui, realmente, iniciar processos de debate de resultado incerto é superior a ocupar espaços logicamente certos e garantidos?

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