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01 Setembro 2016

Causou muito interesse a dupla refutação feita pelo barnabita Giovanni Scalese e pelo beneditino Giulio Meiattini dos quatro "postulados" aos quais o Papa Francisco pendura, como pregos, o seu pensamento, expostos por ele na exortação programática Evangelii gaudium e retomados em outros de seus documentos e discursos.

A nota é de Sandro Magister, publicada no seu blog Settimo Cielo, 30-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem respondeu ao padre Meiattini – em defesa das razões "pastorais" do papa – foi o teólogo Andrea Grillo, seu colega de ensino no Pontifício Ateneu S. Anselmo em Roma. Com imediata réplica do douto beneditino.

O postulado caro a Jorge Mario Bergoglio sobre o qual os dois polemizam é o primeiro: o que assevera que o tempo é superior ao espaço.

A intervenção que segue abaixo aponta, em vez disso, ao terceiro dos quatro postulados bergoglianos: aquele segundo o qual a realidade é mais importante do que a ideia.

Seu autor é o padre Roberto A. M. Bertacchini, canônico da concatedral de Ortona e ex-jesuíta.

Eis o texto.

Caro Magister,

Acompanho como posso as suas acuradas reflexões sobre a vida da Igreja. Em particular, li com interesse as análises sobre os quatro postulados do pensamento de Jorge Mario Bergoglio.

Gostaria de me deter sobre o terceiro deles: a realidade é mais importante do que a ideia.

Muito oportunamente, Giovanni Scalese desconfiou de uma leitura dele em chave metafísico-tomista. E a sua exegese é clara e compartilhável. Como ex-jesuíta, acrescento um ponto, típico do modo de proceder da Companhia: "Entrar com a deles e sair com a nossa". Traduzindo: "a deles" é a realidade a partir da qual é preciso partir. Por isso, não se parte de um princípio normativo, o que corresponderia ao primado da ideia.

De um ponto de vista pastoral, essa atitude prática repudia grande parte da pastoral católica pré-conciliar e também dá razão do fatídico "Quem sou eu para julgar?", que teve tanto sucesso no mundo laico e igualmente lançou perplexidades sobre o mundo católico. Do ponto de vista das intenções do Papa Francisco, sinto que compartilho a sua vontade crítica em relação a um modo de proceder tradicional, cujos frutos insatisfatórios são inegáveis.

Mas há um problema. Um postulado deve ser inflexível a todo possível ataque da razão, caso contrário, não pode ser definido como tal. E o terceiro postulado – do modo como está formulado – não só é muito frágil, mas também errôneo e contraditório.

Noto, acima de tudo, que a formulação "a realidade é mais importante do que a ideia" é absoluta, desvinculada de qualquer contexto. E, então, reivindica para si mesma um valor tanto filosófico quanto teológico; ou – parafraseando Bernard Lonergan – reivindica um valor de verdade incondicional, ou seja, uma força veritativa invulnerável.

Pois bem, tal alegação é excessiva e é até contraditória com o segundo princípio, de acordo com o qual a unidade prevalece sobre o conflito.

É excessiva no plano filosófico, por ser negada pelo devir e por uma correta visão antropológica. A capacidade projetual humana diz o contrário, ou seja, que a ideia é superior à realidade, ao menos tanto quanto ela é capaz de modificá-la. Um exemplo irrefutável é o homicídio. Se a realidade fosse superior à ideia, ele seria impossível. Em vez disso, quando se mata, a ideia homicida prevalece sobre a realidade/existência da vítima.

Isso não descarta o fato de que, muitas vezes, a projetualidade humana fracassa, de modo que é verdade que a realidade frequentemente manifesta resistências importantes em relação à ideia, ou seja, ao projeto humano. Desse ponto de vista, a correta avaliação da realidade e das resistências que ela opõe à ideia que se persegue é sabedoria. Ou seja, é aquela sabedoria compartilhável que, provavelmente, o Papa Francisco queria evidenciar e propor.

No plano teológico, tal formulação é apenas parcialmente evangélica. É-o porque, nos episódios de milagre, Jesus sempre mostra que parte da realidade: isto é, a partir da fé de quem pede e também das necessidades objetivas que lhe são manifestadas. É antievangélica, porque Jesus, na sua pregação, difunde um imaginário inovador, mas que vai agir eficazmente na história e sobre a história, modificando-a radicalmente.

Costuma-se dizer que o imaginário de hoje é a realidade de amanhã, e um lema de 1968 era "imaginar é poder". Ou seja: posso tomar o poder, tanto quanto eu imagino que possa tomá-lo. Por isso, a imaginação – ou seja, a ideia – é mais fundamental do que a realidade, porque expressa o princípio anamórfico, enquanto a realidade (com as suas resistências), o homeostático-conservador.

Dito de outra forma: as ideias também fazem parte da realidade, porque, no mínimo, fazem parte dos seres humanos e orientam a sua vida. Mas algumas são inovadoras, e outras, não. As primeiras, às vezes, prevalecem, modificando a realidade, mas nem sempre. No entanto, Jesus entende que o plano imaginário é estratégico, e é sobre ele que se joga a batalha decisiva. Se não entendermos isso, entenderemos bem pouco do Evangelho e da pastoral de Jesus. Mas, se a batalha decisiva é uma questão de imaginário, decorre daí que, de acordo com Jesus, a Ideia prevalece sobre a realidade. E, dessa Sua convicção, Ele dá testemunho com a morte de cruz.

Por fim, se a unidade prevalece sobre o conflito – como prega o segundo postulado –, isso significa que o não ser prevalece sobre o ser. O ser é o conflito-realidade. É o ponto de partida. Naturalmente, todo ponto de partida é superável. No entanto, existem dois modos para superar o conflito: o beluíno e o sábio. No modo beluíno, a dicotomia permanece, porque a morte da amizade prevalece. No modo sábio, a amizade prevalece através do perdão (Ef 2, 14-16).

Isso significa que, na visão sábia, a ideia da unidade prevalece sobre a realidade do conflito. Afirmando esse segundo princípio, Bergoglio se mostra, por isso, totalmente alinhado a Jesus e à dogmática neotestamentária. Mas, ao mesmo tempo, se autocontradiz quando afirma o terceiro, isto é, a superioridade da realidade em relação à ideia.

Concluindo, o terceiro princípio é compartilhável quanto à presumível intenção bergogliana; mas está mal formulado, ou seja, não é um princípio geral. Isto é, ele tem um valor veritativo que – no máximo – se restringe dentro dos pressupostos limitativos implícitos, presentes no pensamento que o formula. E como o Papa Francisco várias vezes deu prova de uma humildade apreciável, a questão é qual é a condição de possibilidade de um infortúnio deste tipo: erroneidade e contraditoriedade em um documento papal. Excesso de yes-man no seu séquito? Déficit de pessoas capazes de acribia proporcional? Ou o que mais? Obviamente, eu parto da realidade e me abstenho de imaginar.

Roberto A. M. Bertacchini

Leia mais:

O risco de um ressentimento do espaço contra o tempo: sobre uma crítica ao Papa Francisco. Artigo de Andrea Grillo

Sobre os quatro princípios do Papa Francisco: Stefano Biancu responde a Giulio Meiattini

O tempo é superior ao espaço? Artigo de Ghislain Lafont

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