Café Society: um sonho amargo

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25 Agosto 2016

Café Society empreende de maneira ajustada o que Woody Allen realiza em essência. Uma visita melancólica ao passado, às amargas memórias, que ele deseja suavizar com o poder humorístico das palavras. Explica-se pela natureza de seu humor que faça um filme por ano.

Mais do mesmo é a surpresa que o cineasta americano tem a dar a cada filme. Suas narrativas repetidas parecem aliviar e recompensar o espectador, à moda das piadas que rapidamente esquecemos, e das quais riremos de novo, quando contadas por mais alguém.

A reportagem é de Rosane Pavam, publicada por CartaCapital, 25-08-2016.

E suas ficções podem até prescindir de felicidade, como as piadas. Quando são tristes, invariavelmente cópias de argumentos dostoievskianos, seus filmes também encenam a caricatura. Seja pelo exagero, seja pela simplicidade, o diretor ainda atinge a criança que há nas pessoas grandes.

Neste filme, ele volta à distopia hollywoodiana. Nos anos 1930 em que Allen nasceu, o cinema, sem distinguir o cinismo do glamour, narrava distrações amorosas em meio à tragédia econômica e à censura operada pelo Código Hays. É isto o que o diretor parece empenhado em contar. A estranha atmosfera que testemunhou. Esse seu tempo insistentemente atual. A safadeza, promovida tantas vezes com inocência por seus personagens ridículos.

Talvez isto diga algo sobre Allen, mas principalmente sobre este enredo. A protagonista vivida por Kristen Stewart, uma atriz no limite do trágico, conforma-se de estar à sombra, depois de ver o sonho de se tornar atriz derrapar. Steve Carell vive sardonicamente o capitão de um grande estúdio, vítima da paixão romântica. E Jesse Eisenberg, um neurótico intérprete dos tiques do Allen ator, basicamente erra, desiludido. Os atores secundários são dramáticos enquanto engraçados, como o ótimo Ken Stott.

Allen tem grande poder com as palavras. “A vida é uma comédia escrita por um cômico sádico.” Mas suas encenações às vezes traem fragilidades. Ora porque não pareça interessado em encontrar um bom lugar para a câmera, ora porque realize a edição apressadamente.

Este filme talvez se destaque porque Vittorio Storaro tomou conta dele. O diretor de fotografia de Apocalypse Now enriquece cada plano. Carell às vezes está metido nas sombras de James Cagney, observado pela câmera baixa. O réveillon, comumente encenado por Allen, agora é visto de cima, da perspectiva de quem joga serpentinas sobre o salão.

Os amantes conversam em um bar filmado com grande-angular, no qual, pelo canto, observa-se um casal calado. O rosto de Kristen Stewart se engrandece, como nos filmes de oito décadas atrás, e não vemos mais o fundo da tela, uma vez que seu personagem está imerso em sonhos. Um filme raro, em que Allen se repetiu para tornar-se melhor.

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