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22 Agosto 2016

Dois meninos com calções curtos são o símbolo do nosso fracasso. Dois meninos incrivelmente compostos no desastre do mundo. Aylan, de três anos, em uma praia de Bodrum, os braços ao longo do corpo, empurrado para trás pelo mar, enquanto tentava escapar da guerra na Síria com a sua família. E, depois, Omran, cinco anos, vítima da mesma guerra, sentado no banco de uma ambulância em Aleppo, com o rosto incrustado de sangue e os olhos enormes.

A reportagem é de Niccolò Zancan, publicada no jornal La Stampa, 20-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dia 2 de setembro de 2015, dia 18 de agosto de 2016. Dois fragmentos. A mesma história. Certas fotografias emergem do ruído de fundo e se impõem à atenção, tornando-se virais. Repercutem em todas as telas do planeta.

Todos devem vê-las. Mas, depois de vê-las, compartilhá-las e comentá-las, depois da indignação, o que resta? Seria equivocado defender que, neste ano, tudo ficou igual. As coisas podem até piorar. E foi o que aconteceu.

De acordo com uma estimativa atualizada, outras 400 crianças se afogaram no Mediterrâneo depois de Aylan, as duas últimas na manhã dessa sexta-feira. Estavam em um pequeno barco de madeira, lotado de famílias sírias. Estando fechada a rota balcânica, tinham passado pelo Egito antes de pagar os traficantes e se confiarem ao mar. Também escapavam da mesma guerra. Também tentavam chegar à Europa. Embora ninguém vai ver essa fotografia, eram duas meninas de seis anos e de cinco meses.

A realidade nos deixa um passo atrás, foge continuamente. Enquanto alguns no Twitter comentavam sobre a história da família de Omran que escapou do bombardeio, outras bombas caíam sobre as casas de Aleppo. Você pode se deparar com um vídeo em que dois médicos tentam fazer a massagem cardíaca em um menino, deitado no chão do hospital na frente dos seus pais. Você pode ver tudo, mas não serve para nada.

A política também está abdicando do seu papel. Depois de Aylan, tinha havido uma enxurrada de declarações. Todos os chefes de Estado tinham se declarado chocados. Parecia realmente que algo podia mudar na Europa. Que a morte de um menino em fuga de Kobane não tinha sido inútil, e que aquela foto simbólica realmente podia incidir na realidade. Em vez disso, foi um progressivo desmoronamento de palavras e intenções. Com a incapacidade de sentir o mundo profundamente, perdeu-se também o poder de torná-lo diferente. Foi o ano do terror multiplicado ao vivo, da morte exibida, do medo crescente, da emotividade rápida, da habituação lenta.

Na enorme quantidade de imagens que passam a cada segundo diante dos nossos olhos, apenas algumas conseguem agora se impor à nossa atenção. São imagens raras. Não explicam a vida nem a morte, mostram-na. Essa é a sua força. São dramáticas, mas perfeitas, porque contêm o horror e a inocência no mesmo enquadramento. Como se já tivessem em seu interior a resposta que é necessária. No entanto, as fotografias de Aylan Kurdi e de Omran Daqneesh, talvez, salvarão as nossas consciências, mas não estão mudando a história.

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