Escolha do Papa para novo posto no Vaticano anima moderados na Igreja

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18 Agosto 2016

Ao escolher Dom Kevin Farrell, da Diocese de Dallas, para ser o primeiro prefeito do mais recente Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, o Papa Francisco deu uma grande vitória aos moderados pastorais na Igreja e também dirimiu as preocupações de que ele seria hostil a americanos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 17-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ao nomear Dom Kevin Farrell, de Dallas, nesta quarta-feira, 17-08-2016, como o primeiro prefeito para o departamento vaticano recém-criado para os Leigos, a Família e a Vida, o Papa Francisco realizou duas coisas ao mesmo tempo: deu uma outra grande vitória aos moderados pastorais, e afastou a noção de que ele seria hostil aos americanos.

(Farrell, de 68 anos, não é americano de nascimento visto que nasceu em Dublin e chegou à idade adulta na Irlanda. Todavia, ele já passou quase a metade de sua vida nos Estados Unidos, incluindo os últimos 14 anos como bispo.)

Farrell se uniu aos Legionários de Cristo, congregação que ele abandonou bastante cedo, antes que as polêmicas de abuso sexual eclodissem em torno do fundador da ordem, o Pe. Marcial Maciel Degollado. Ele se mudou para a Arquidiocese de Washington em 1984, onde serviu como pastor e assumiu um centro para o ministério hispânico que então era dirigido pelo padre capuchinho Sean P. O’Malley, atual cardeal de Boston.

(Sem dúvida que este histórico fez parte dos motivos que Francisco levou em consideração na hora da escolha. Farrell publica em seu blog nos idiomas inglês e espanhol, e no ano de 2012 ele se tornou o primeiro bispo americano com uma conta de língua espanhola no Twitter)

Os bispos que chegam ao Vaticano vindos de fora muitas vezes enfrentam uma curva íngreme de aprendizagem, mas este provavelmente não é o caso de Farrell, visto que o seu irmão, Brian, é também bispo e tem trabalhado nos últimos 14 anos em Roma, como a segunda principal autoridade vaticana no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos cristãos.

Conheço os irmãos Farrells há um bom tempo. Kevin eu conheço um pouco melhor do que seu irmão, Brian, isso porque geralmente eu o vejo quando falo no congresso ministerial anual de Dallas, e no ano passado Farrell presidiu uma cerimônia de premiação que me homenageou com um doutorado honorário após eu proferir um discurso de formatura na Universidade de Dallas, em maio.

Farrell é considerado um religioso moderado, com um toque pastoral e uma orientação pela justiça social muito em sintonia com o estilo do Papa Francisco.

Por exemplo, quando foi nomeado para a Diocese de Dallas em 2007, Farrell enfrentou uma relação difícil com os elementos mais conservadores da Universidade de Dallas.

Em 2009, Farrell fez um discurso de formatura memorável em que advertia contra o “dogmatismo, o espírito fechado de certos líderes (…) e suspeitas de uns com os outros”.

Ele retomou o assunto em 2011, quando os críticos se opuseram a um novo programa de graduação ministerial que consideravam como uma ortodoxia insuficiente. Na ocasião, Farrell deu um passo incomum lançando um vídeo em resposta.

“Permitam-me lembrar ao povo católico desta diocese que esta é minha responsabilidade”, disse ele. “Eu sou aquele que tem de estar diante de Deus e dizer se algo é ou não verdadeiramente católico. Eis a minha responsabilidade, e eu não descuido de minhas obrigações”.

De maneira não tão sutil, o que ele estava dizendo era: “Eu sou o bispo; e vocês, não. Então relaxem”.

Em vários outros momentos, Farrell se viu sob fortes críticas. Quando ele apoiou recentemente o Pe. Thomas Rosica, assessor de imprensa do Vaticano, quando este denunciou uma “piscina de ódio” na blogosfera católica, alguns dos mesmos blogueiros que não gostaram do que Rosica disse foram atrás de Farrell.

Outros bradaram quando o bispo se opôs publicamente a uma nova lei de porte de armas no Texas, e quando elogiou o presidente Barack Obama por fomentar um maior controle para a compra e venda de mais.

No entanto, os católicos progressistas também têm queixas para com o prelado.

Por exemplo, em 2008 Farrell e Dom Kevin Vann, então bispo da Diocese de Fort Worth, emitiram uma carta pastoral conjunta sobre os católicos e a política, descrevendo o aborto como uma “questão moral definidora não só de hoje, mas dos últimos 35 anos”. A iniciativa foi amplamente vista como um aviso aos católicos que apoiavam Barack Obama e levou a protestos do lado de fora da chancelaria de Dallas.

A reputação de Farrell pelo equilíbrio, portanto, não tem a ver com alguma hesitação em dizer o que pensa, ou com alguma timidez ao traçar certos limites. Essa reputação tem mais a ver com uma aversão instintiva a extremos ideológicos.

Das questões que irão pairar sobre o seu comando agora – o aborto, a contracepção, o casamento homoafetivo e assim por diante –, a que mais se destaca é que o bispo é abertamente pró-vida. Ao mesmo tempo, de forma alguma ele é um guerreiro cultural.

Em seu novo posto, Farrell será o responsável por supervisionar a implementação da recente encíclica sobre a família, intitulada Amoris Laetitiae, que, entre outras coisas, pareceu abrir uma porta aos fiéis divorciados e recasados no civil para que voltem à Comunhão após passarem por um processo de discernimento.

Ainda que Farrell não tenha abordado diretamente a questão da Comunhão, quando o documento foi lançado ele se mostrou amplamente favorável.

“Alguns acham que o Papa Francisco não desenvolve suficientemente a questão daqueles que se encontram em casamentos irregulares; e há outros que acham que este seu documento compromete o magistério tradicional”, disse ele. “A meu ver, [a encíclica Amoris Laetitia] reflete o chamado de Jesus à sua Igreja para continuar a sua cura e sua missão salvífica”.

Farrell também elogiou os comentários sobre Amoris Laetitia feitos pelo Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, quem esteve entre os defensores da abertura da Comunhão aos divorciados e recasados nos dois Sínodos dos Bispos sobre a família.

No nível pastoral, Farrell foi destaque em julho por sua resposta aos ataques contra a polícia, que deixaram cinco policiais mortos, em retaliação a disparos policiais a afro-americanos.

Farrell tem boas avaliações enquanto administrador e gerente (possui MBA pela na Universidade de Notre Dame), e é visto como um forte líder. Eis uma qualidade que virá a calhar no Vaticano, onde pessoas de fora, especialmente as que não fazem parte do círculo clerical italiano, podem facilmente ser suprimidos caso não tiverem cuidado.

Pessoalmente, Farrell é descontraído e acessível, com uma inteligência afiada e um grande senso de humor, sem nada a ver com aquela pessoa que às vezes associamos com os importantes mandarins do Vaticano.

Do ponto de vista americano, Francisco já deu exemplos o suficiente para dirimir as dúvidas sobre certa frieza percebida junto aos estadunidenses, ao nomear Greg Burke, experiente correspondente da revista Time e da Fox News, para ser o seu novo porta-voz, o que acontece desde o dia 1 de agosto.

Mesmo assim, ainda não havia um prelado americano à frente de um grande dicastério vaticano, algo incomum nas últimas décadas – quando a regra informal era que deveria haver pelo menos um.

Portanto, ao nomear Farrell, de novo Francisco mostrou um respeito pela Igreja americana da forma mais indiscutível que um papa pode fazer, uma vez que, no pequeno mundo do Vaticano, nomeações para o departamento pessoal são sempre escolhas políticas.

Eis o essencial da nomeação de Farrell: os moderados podem reivindicar mais uma grande vitória, e os americanos (assim como os irlandeses, evidentemente) podem se sentir como se tivessem ganhado um novo e poderoso amigo em Roma.

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