Francisco exige mudanças para as religiosas contemplativas e pede uma revisão de suas constituições

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “A mulher precisa, e as religiosas sobretudo, sair daquele papel de que ela é inferior”. Entrevista com a Ir. Maria Freire

    LER MAIS
  • “A eleição de uma mulher negra parecia um muro intransponível”. Primeira mulher negra eleita vereadora em Curitiba fala sobre o racismo na cidade

    LER MAIS
  • Apreensão, sensibilidade e propósito: a policrise e o mundo porvir

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


26 Julho 2016

O Papa Francisco emitiu um novo e amplo conjunto de diretrizes sobre como as dezenas de milhares de religiosas católicas que vivem em comunidades contemplativas em todo o mundo devem regular os seus estilos de vida, convidando-as a implementarem mudanças em 12 áreas diferentes, da vida de oração aos hábitos de trabalho.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 22-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pontífice também ordenou que cada uma das comunidades globais de religiosas contemplativas adaptem as suas várias constituições ou regras de governo às novas mudanças e enviem as novas versões dos seus documentos ao Vaticano para aprovação.

Francisco fez essas alterações em uma nova constituição apostólica divulgada na sexta-feira, 22 de julho, intitulada Vultum Dei quaerere ("Buscar a face de Deus"). O documento é dirigido apenas às religiosas católicas de comunidades contemplativas, como aquelas que vivem em claustros ou cujas vidas são marcadas por um estilo de vida dedicado principalmente à oração, em vez da ação evangélica ou do trabalho.

Embora o pontífice use o novo documento para emitir elogios efusivos para essas mulheres – especialmente elogiando a sua capacidade de servir de exemplo de estabilidade em um mundo contemporâneo muitas vezes marcado por compromissos temporários – ele também lhes pede para começarem a instituir mudanças, em particular nas suas vidas de oração.

Em um exemplo, o papa ordena que todas as comunidades religiosas contemplativas femininas pratiquem a adoração eucarística. Ele também enfatiza o uso da Lectio divina, a tradicional prática beneditina de leitura das Escrituras, meditação e oração.

Comentando a sua razão para escrever às mulheres com as novas normas neste momento, Francisco afirma: "Este tempo viu um rápido progresso da história humana: com ela, é oportuno tecer um diálogo que, porém, salvaguarde os valores fundamentais sobre os quais está fundamentada a vida contemplativa".

"Através das suas reivindicações de silêncio, de escuta, de chamado à interioridade, de estabilidade, a vida contemplativa pode e deve ser um desafio para a mentalidade contemporânea", continua o papa.

Depois, o pontífice solicita que as religiosas em todo o mundo implementem mudanças, depois de refletir sobre 12 aspectos da tradição monástica: formação, oração, a Palavra de Deus, os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, a vida fraterna em comunidade, autonomia, federações, o claustro, trabalho, silêncio, os meios de comunicação e a ascese.

O papa termina o documento com 14 artigos que estabelecem novas normas canônicas sobre como as religiosas contemplativas devem viver, dizendo que ele está deixando de lado quaisquer cânones do Código de Direito Canônico que "sejam diretamente contrários a qualquer artigo da presente Constituição".

Entre as maiores mudanças diretas, estão as ordens para que cada comunidade contemplativa:

  • reveja a sua vida de oração "para avaliar se o Senhor é o centro dela" e "preveja tempos apropriados de adoração eucarística, oferecendo a possibilidade também aos fiéis da Igreja local de deles participar";

  • faça parte de algum tipo de federação com outras comunidades, a menos que obtenha uma permissão vaticana para não fazê-lo;

  • solicite a aprovação do Vaticano "sempre que se requeira uma forma diferente de clausura em relação à vigente";

  • evite "o recrutamento de candidatas de outros países com o único fim de salvaguardar a sobrevivência do mosteiro", afirmando que isso deve ser "absolutamente evitado";

  • espere por mais instruções da Congregação para a Vida Religiosa do Vaticano sobre como implementar as mudanças nas 12 áreas específicas da vida, afirmando que "os artigos das Constituições ou Regras dos institutos individuais, uma vez adaptados às novas disposições, deverão ser submetidos à aprovação da Santa Sé".

O arcebispo José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, disse em uma coletiva de imprensa de apresentação do novo documento, na sexta-feira, que o seu escritório agora estará trabalhando na elaboração de uma nova instrução para especificar como as comunidades devem fazer as mudanças nos seus estilos de vida.

O novo documento substitui a instrução da Congregação de 1999, intitulada Verbi sponsa, e regulará a "formação, autonomia e reclusão" das comunidades contemplativas, disse Rodríguez.

O arcebispo também disse que as comunidades contemplativas masculinas não foram consideradas de tal forma pelo papa ou pela Congregação para os Religiosos neste momento, acrescentando que os tipos de vida religiosa vividos por homens e mulheres católicos são diferentes.

Preocupações sobre como as comunidades contemplativas femininas individuais estão lidando com a diminuição de seus números ao longo das últimas décadas – que os analistas atribuíram a um aumento a-histórico no número de mulheres que se uniram às ordens no início do século XX – parecem ser a principal razão para o pedido do Vaticano em relação a essas grandes mudanças.

Um dos artigos nas 14 novas normas diz às freiras que a sua "autonomia jurídica", ou relativa independência na lei da Igreja para governarem a si mesmas, "deve corresponder a uma real autonomia de vida".

Se os requisitos para uma "autonomia genuína" em qualquer comunidade estão faltando, a norma estabelece que a Congregação dos Religiosos "avaliará a oportunidade de constituir uma comissão ad hoc formada pelo Ordinário [bispo], pela Presidente da federação, pelo Assistente da federação e pela Abadessa ou Priora do mosteiro".

"Em todo o caso, tal intervenção tenha como objetivo colocar em curso um processo de acompanhamento para uma revitalização do mosteiro, ou para iniciar o seu fechamento", afirma a norma.

"Esse processo poderia prever também a filiação a outro mosteiro ou o ato de confiá-lo à Presidente da federação, se o mosteiro for federado, com o seu Conselho", continua. "Em todo o caso, a decisão última compete à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica."

A União Internacional das Superioras Gerais (UISG), grupo com sede em Roma que reúne lideranças das comunidades religiosas femininas do mundo inteiro, disse em um e-mail que ainda estão estudando o novo documento.

Francisco começa a sua constituição com elogios para as comunidades contemplativas, afirmando: "A Igreja aprecia muito a sua vida inteiramente doada".

"A Igreja conta com a sua oração e com a sua oferta para levar aos homens e às mulheres do nosso tempo a boa notícia do Evangelho", afirma o papa. "A Igreja precisa de vocês!"

"Assim como o marinheiro em alto mar precisa do farol que indique a rota para chegar ao porto, assim também o mundo precisa de vocês", continua. "Sejam faróis, para os próximos e sobretudo para os distantes. Sejam tochas que acompanhem o caminho dos homens e das mulheres na noite escura do tempo."

Depois, o pontífice aborda cada um dos 12 aspectos que as comunidades devem refletir sobre em ordem, com foco especial para a formação das freiras mais jovens e o papel da oração na vida diária das freiras.

Sobre a formação, Francisco afirma que as comunidades devem prestar "grande atenção ao discernimento vocacional e espiritual, sem se deixarem levar pela tentação do número e da eficiência".

Para a oração, o papa usa uma imagem sugestiva de Moisés que levanta seus braços em oração a Deus para implorar a ajuda para o seu povo.

"Esse texto me parece ser uma imagem muito expressiva da força e da eficácia da sua oração em favor de toda a humanidade e da Igreja, particularmente dos seus membros mais frágeis e necessitados", afirma o pontífice. "Também hoje, como então, podemos pensar que os destinos da humanidade são decididos no coração orante e nos braços levantados das contemplativas."

Francisco, depois, pede que as comunidades contemplativas vejam os seus claustros ou conventos como lugares para mostrar ao resto do mundo como as pessoas podem viver juntas em comunidade e comunhão.

"Vocês, que abraçaram a vida monástica, lembrem sempre que os homens e as mulheres do nosso tempo esperam de vocês um testemunho de verdadeira comunhão fraterna que, com força, manifeste, na sociedade marcada por divisões e desigualdades, que é possível e bonito viver juntos (cf. Sl 133, 1), apesar das diferenças geracionais, de formação e, às vezes, culturais", afirma o papa.

"Que as suas comunidades sejam sinais credíveis de que essas diferenças, longe de serem um impedimento para a vida fraterna, enriquecem-na", continua. "Lembrem-se de que unidade e comunhão não significam uniformidade, e que elas se nutrem de diálogo, partilha, ajuda recíproca e profunda humanidade, especialmente em relação aos membros mais frágeis e necessitados."

Mas Francisco também adverte as contemplativas de ficarem muito isoladas na sua própria autonomia em relação aos outros.

"A autonomia favorece a estabilidade de vida e a unidade interna de cada comunidade, garantindo as condições melhores para a contemplação", afirma o papa. "Tal autonomia não deve significar, todavia, independência ou isolamento, particularmente dos outros mosteiros da mesma Ordem ou da mesma família carismática."

"Cuidem para se preservarem ‘da doença da autorreferencialidade’ e conservem o valor da comunhão entre os diversos mosteiros como caminho que abre para o futuro, atualizando, desse modo, os valores permanentes e codificados da sua autonomia", exorta Francisco.

Francisco termina essa parte do documento com um chamado para que as contemplativas sejam "‘faróis’ que iluminam o caminho dos homens e das mulheres do nosso tempo".

"Essa deve ser a sua profecia", afirma o pontífice. "A escolha de vocês não é um fugir do mundo por medo, como alguns pensam. Vocês continuam estando no mundo, sem ser do mundo (cf. Jo 18, 19)."

Citando o documento Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, ele continua: "Embora separadas do mundo, mediante sinais que expressam o seu pertencimento a Cristo, não deixem de interceder constantemente pela humanidade, apresentando ao Senhor os seus temores e as suas esperanças, as suas alegrias e os seus sofrimentos".

Concluindo com uma citação da sua própria exortação apostólica Evangelii gaudium, o papa exorta as contemplativas a escutarem "o grito dos seus irmãos e irmãs que são vítimas da ‘cultura do descarte’" e a se exercitarem na "arte de escutar, ‘que é mais do que ouvir’".

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Francisco exige mudanças para as religiosas contemplativas e pede uma revisão de suas constituições - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV