Primeira-ministra da Inglaterra traz uma religiosidade anglicana tranquila ao cargo

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15 Julho 2016

"Theresa May: É por isso que, apesar de ter apoiado a permanência da Inglaterra na União Europeia, ela convenceu a maior parte de seus partidários de que ela é a pessoa certa para guiar o país neste momento de crise", escreve Austen Ivereigh, jornalista britânico e autor da mais recente biografia sob o título The Great Reformer: Francis and the Making of a Radical Pope [O Grande Reformador Francisco e a construção de um papa radical, em tradução livre.], em artigo publicado por Crux, 13-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo

Theresa May, nova primeira-ministra da Inglaterra, é filha de um vigário anglicano e de uma mulher de religiosidade tranquila, apesar de manter posições sobre o casamento gay e a adoção contrárias com o pensamento social conservador. Sua escolha foi bem-recebida pelo Cardeal Vincent Nichols, de Westminster.

É difícil explicar como a democracia parlamentar mais antiga do mundo pode produzir uma nova primeira-ministra sem uma eleição, apenas três semanas após o país se dividir em dois por causa de um referendo que vai catapultar a Inglaterra da União Europeia.

Mas depois destas três semanas de muito drama nos dois principais partidos, numa época de grande incerteza na sequência do referendo, quando a Inglaterra superou a Argentina no tocante a quem tem a moeda de pior desempenho do mundo, parece providencial ter de repente uma mulher assumindo o comando, uma pessoa calma, tímida, judiciosa – o tipo de anglicano tranquilo que representa o melhor do partido conservador.

Theresa May mora a 20 minutos de minha casa, em Sonning, na fronteira do condado em Berkshire, mas cresceu aqui na zona rural de Oxfordshire; é filha de um vigário cujo nome – o Rev. Hubert Brasier – poderia ser tirado diretamente de algum livro de Anthony Trollope.

Todos os domingos em que é possível, ela vai à igreja de St. Andrew, em Sonning, típica igreja anglicana antiga (parte dela foi construída no século X) usada em séries de filmes e televisão da Inglaterra de séculos atrás.

O seu vigário, o Rev. Jamie Taylor, diz que ela é “dá muito apoio” à comunidade religiosa, e que frequenta não só as cerimônias com o marido Philip, mas também se faz presente em ocasiões especiais.

“Rezamos semanalmente por Sua Majestade e as pessoas postas em autoridade sob o seu comando”, diz o vigário, “e estas orações irão ter uma maior significação para nós da St. Andrew nos próximos anos”.

Theresa May, de 60 anos, era a filha única que foi mandada para uma escola primária para receber o tipo de educação com financiamento público reservado, na época, para crianças brilhantes de classe média, mas sem riqueza.

“Eu não deveria dizer, mas provavelmente eu era a Goody Two Shoes” [1], ela declarou certa vez.

Já aos 12 anos ela sabia que queria atuar na política.

“Geralmente a gente não pensa nisso, mas existem certas responsabilidades que acontecem quando somos a filha do vigário. Devemos ter um determinado tipo de comportamento”.

Theresa May, futura primeira-ministra, aos 8 anos de idade com os pais Zaidee e Hubert. (Foto: Picdesk scan.)

Ela foi para Oxford estudar Geografia, onde conheceu o seu marido Philip em uma festa do Partido Conservador (após cerca de 40 anos juntos, eles ainda se amam e estão próximos). Amigos da época lembram dela como uma pessoa conscienciosa, sem interesse em fofocas ou frivolidades. O casal acabou cursando faculdades na área de finanças.

Em seguida, veio uma série de tragédias: em 1981, o seu pai morreu em um acidente de carro, no ano seguinte a sua mãe morreu de esclerose múltipla, e o casal descobriu que não poderiam ter filhos.

“Simplesmente não aconteceu”, diz ela. “A gente olha para as famílias o tempo todo, e percebemos que há algo nelas que nós não temos”.

Qual o significado do cristianismo para May?

Como muitos anglicanos que atuam no ambiente público, ela é cautelosa ao se referir publicamente à sua fé. Os políticos ingleses que falam sobre isso abertamente deparam-se constantemente com perguntas desagradáveis.

Perguntada sobre o assunto na BBC Radio 4, em 2014, May disse que é “acertado nós não trazermos presente essas coisas para dentro do cenário político”. Mas também disse que sua religião impacta na sua atuação política – como demonstra o seu histórico de votação.

Em 1998, ela votou contra a redução da idade de consentimento para relações sexuais homoafetivas, e em 2002 votou contra a adoção gay. Em 2008, votou para reduzir o limite de tempo para a prática do aborto de 24 para 20 semanas – postura que ela diz ainda manter.

Mas ela mudou também. Venceu as eleições pelo Partido Conservador na cidade de Maidenhead durante a eleição de Tony Blair, em 1997, e, como David Cameron, aprendeu com a capacidade de Blair a alcançar o outro lado do eleitorado e governar a partir do centro.

May fez parte do grupo reformista Tory Reform Group, de 2001, que procurou (como fez David Cameron) trazer os conservadores de volta ao centro. No ano seguinte, no congresso do partido ela afirmou que a base social e os valores adotados pela cúpula partidária eram muito estreitos.

“Sabem como algumas pessoas nos chamam? O partido desagradável”, acrescentando que o partido deve ser semelhante à Inglaterra do século XXI, em vez de “desejar ser como um lugar mítico chamado Inglaterra Média, rebaixando-se a uma prática hipócrita e moralizante (…)”.

Tendo reconhecido que a sua própria origem social era uma exceção, ela se tornou parte do projeto Cameronian, de liberalização social que levou às vitórias eleitorais conservadoras estreitas em 2010 e 2015.

Criou uma campanha para eleger mais mulheres deputadas ao Parlamento, e como primeira-ministra é provável que ela vá ter mais mulheres em cargos ministeriais do que os governos anteriores.

Como secretária do Ministério do Interior, ela apoiou a lei de adoção gay, pedindo, em 2010, por uma “mudança cultural” de combate à homofobia, tornando-se também uma forte defensora do casamento homoafetivo, introduzindo uma votação no ano seguinte para expandir os mesmos direitos aos funcionários das forças armadas que moravam no exterior.

“Se duas pessoas cuidam uma da outra, se elas se amam, então devem poder se casar”, disse ela.

Estes seus pontos de vista deixaram desconfiados os conservadores sociais, enquanto os progressistas vêm apontando para a sua retórica anti-imigratória.

No ano passado, May se recusou a aceitar um sistema de quotas obrigatórias para refugiados em resposta à crise no Mediterrâneo e a manifestantes indignados – que incluíam alguns cristãos – por decidir excluir a Inglaterra de participar de um sistema futuro da União Europeia de realocação a requerentes de asilo que fizerem com sucesso a travessia via Mediterrâneo.

Mas o arcebispo de Westminster, Cardeal Vincent Nichols, crítico do governo no tocante às suas políticas migratórias e de refugiados, diz que ficou “pessoalmente feliz” pelo fato de ela ter se tornado primeira-ministra.

Em palavras efusivas para um representante de Igreja ao se referir a um líder político, o presidente da Conferência dos Bispos da Inglaterra e País de Gales elogiou a sua “maturidade de julgamento, a sua grande determinação; o senso de justiça e integridade pessoal; o calor humano que sempre você demonstrou”, em uma carta de felicitações.

Pelo menos em parte, estes sentimentos positivos resultam do apoio dela, do seu próprio apoio e do apoio do Papa Francisco à iniciativa de deter o tráfico humano. Como secretária do Ministério do Interior, ela falou na primeira reunião do grupo de Santa Marta, no Vaticano em 2014, quando se encontrou com o Papa Francisco, e desde então vem sendo uma apoiadora da iniciativa.

Ninguém se torna primeiro-ministro sem entrar em tais contradições e tensões. A sua capacidade de perdurar tanto tempo nos altos postos da política – ela foi secretária por seis anos, em um trabalho avaliado positivamente – deve-se muito à sua força interior e à capacidade de ver o contexto maior. Isso tudo está ligado à sua fé anglicana.

É por isso que, apesar de ter apoiado a permanência da Inglaterra na União Europeia, ela convenceu a maior parte de seus partidários de que ela é a pessoa certa para guiar o país neste momento de crise. Resistente, esforçada, fria quando está sob críticas, moral porém pragmática, Theresa May representa, a partir de hoje, a melhor oportunidade de conduzir a Inglaterra através de águas turbulentas nos próximos anos.

Nota

[1] A “História de Little Goody Two-Shoes” é um relato infantil publicado por John Newbery em Londres, no ano de 1765.

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