Pedido de cardeal para volta da postura pré-Vaticano II nas missas atiça debate

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07 Julho 2016

O cardeal de Gana Robert Sarah, principal autoridade litúrgica do Vaticano, insiste que Deus é o centro da adoração e não “pessoas, personalidades e realizações humanas”, o que, segundo ele, se tornou algo proeminente nas últimas décadas – e é por isso que ele quer a postura ad orientem, isto é, de frente para o Oriente, de volta às missas.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 06-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Alguém que tenha se surpreendido com a sugestão recente feita pelo Cardeal Robert Sarah, de Gana, segundo a qual os padres deveriam celebrar a missa ad orientem, de frente para o Oriente e, portanto, de costas para os fiéis, ficaram surpresos somente porque não prestaram muita atenção em seus discursos anteriores.

Sarah, prelado de 71 anos de idade, há bastante tempo tem sido um defensor da doutrina e da prática católica tradicional, e esta sua sugestão, feita na terça-feira, de que os padres adotem a postura ad orientem, a começar no dia 27 de novembro, o primeiro Domingo do Advento, está de pleno acordo com um tal perfil.

“É muito importante que nós retornemos, assim que for possível, a uma orientação comum, dos sacerdotes e dos fiéis virados juntos na mesma direção – para o Oriente, ou pelo menos em direção à ápside –, ao Senhor que volta”, disse Sarah nesta quarta-feira durante a abertura de um congresso em Londres chamado Sacra Liturgia.

Sarah já havia lançado a mesma ideia no início de junho em entrevista à revista católica francesa Famille Chretienne.

Ainda que os seus comentários foram formulados mais como sugestões do que como um decreto, a postura de Sarah a favor de um retorno à postura ad orientem tem gerado, no entanto, uma ampla reação e um forte debate, em grande parte porque esta postura está associada com a antiga missa em latim, em vigor antes do Concílio Vaticano II (1962-1965).

É preciso dizer que Sarah não estava sugerindo uma rejeição da forma litúrgica pós-Vaticano II, mas uma forma mais tradicional de celebrar tal liturgia incorporando a posição ad orientem. Embora essa postura tenha sido abandonada após o Concílio Vaticano II, em princípio não há nenhuma razão pela qual ela não possa ser usada na nova liturgia, e em algumas dioceses ao redor do mundo esta forma de celebrar já é até mesmo comum.

Da maneira como o cardeal ganense vê a questão, um retorno ao estilo ad orientem tem a ver com a ideia de pôr Deus de volta ao centro da vida litúrgica da Igreja.

Na terça-feira, o cardeal disse que o primeiro artigo do Sacrosanctum Concilium, documento do Vaticano II sobre a liturgia, afirma que um dos motivos para as reformas conciliares era o “desejo de se transmitir um vigor cada vez maior à vida cristã dos fiéis”.

Entretanto, Sarah perguntou: “Meus irmãos e irmãs, onde estão os fiéis dos quais os Padres Conciliares falaram a respeito? Muitos fiéis são hoje infiéis: eles não mais comparecem à liturgia”.

Citando São João Paulo II, disse que muitos cristãos de hoje encontram-se num estado de “apostasia silenciosa”, vivendo como “se Deus não existisse”.

Um outro motivo para a reforma litúrgica foi o de alcançar a unidade “entre todos os que creem em Cristo” – o que, como salientou Sarah, também não aconteceu.

“Tivemos algum progresso real no chamamento de todo o gênero humano para dentro da casa do Senhor? Eu não acho. E, no entanto, muitas alterações fizemos na liturgia”.

Sarah reconheceu que “prudência” e catequese seriam necessárias antes da adoção generalizada do rito ad orientem, mas exortou os sacerdotes a terem a “confiança de que isso é algo bom para a Igreja, algo de bom para o nosso povo”.

Após sugerir o primeiro Domingo do Advento [para o início da adoção], ele fechou esta seção do seu discurso citando o “lamento de Deus” proclamado pelo profeta Jeremias: “O povo virou as costas para mim”.

“Voltemo-nos em direção ao Senhor!”, disse o cardeal.

Sarah, então, pediu aos bispos que liderem esta “reforma simples porém profunda” pelo exemplo, escolhendo esta forma de celebrar a missa para grandes celebrações diocesanas e em suas catedrais. Ele também pediu aos bispos que formem seminaristas “na realidade de que nós não somos chamados ao sacerdócio para estar no centro do culto litúrgico, e sim para conduzir os fiéis de Cristo a ele como companheiros de adoração”.

O cardeal, nomeado para a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos pelo Papa Francisco em novembro de 2014, também disse que, como africano, ele não vê a liturgia como um lugar para promover a sua cultura, mas como o lugar “onde a minha cultura é batizada”.

“Certamente, culturas e outros cristãos trazem dons com eles para a Igreja”, disse. “Mas eles trazem esses dons com humildade, e a Igreja, na sua sabedoria materna, usa-os conforme julga adequado”.

“A liturgia não é sobre mim e você”, disse Sarah. “Não é o lugar onde celebramos a nossa própria identidade ou realizações ou onde exaltamos, promovemos a nossa própria cultura e costumes religiosos locais. A liturgia é, antes de tudo, sobre Deus e o que Ele fez por nós”.

Em seguida, o prelado afirmou que alguns “erros de interpretação muito graves da liturgia” se instalaram após o Vaticano II, resultando em celebrações litúrgicas subjetivas, focadas nos desejos da comunidade.

Sarah citou o seu antecessor na congregação vaticana, o cardeal nigeriano Francis Arinze, que chamou este tipo de prática como uma “missa feita conforme o desejo pessoal”.

O cardeal também disse que é “essencial” entender que, no culto católico, Deus é o centro da liturgia, e não “pessoas, personalidades e realizações humanas”, o que, segundo ele, se tornou algo proeminente nas últimas décadas – e é por isso que ele quer a postura ad orientem, de frente para o Oriente, de volta às missas.

“A liturgia não é sobre nós, mas sobre Deus”, disse, citando o Cardeal Joseph Ratzinger, quem depois se tornou o Papa Bento XVI. “Esquecer-se de Deus é o perigo mais iminente de nossa época”.

Sara disse também que deve haver um “equilíbrio” entre o uso de línguas vernáculas e o latim, por exemplo em reuniões internacionais, onde o idioma local não é compreendido por muitos.

Em suas observações, disponíveis por seções na página de Facebook da “Sacra Liturgia”, Sarah disse ainda que Francisco lhe pediu para continuar o trabalho litúrgico que o Papa Emérito Bento XVI começara.

“Só porque nós temos um novo papa não quer dizer que a visão de seu antecessor agora esteja inválida”, disse ele.

“Pelo contrário, como sabemos, o nosso Santo Padre Papa Francisco tem o maior respeito pela visão e pelas medidas litúrgicas que o Papa Bento implementou em fidelidade absoluta às intenções e aos objetivos dos Padres Conciliares”, disse ele.

Sarah também disse que, durante uma audiência privada com o papa em abril passado, este lhe pediu que estudasse “a questão da reforma de uma reforma” para ver como a enriquecer o uso duplo do Rito Romano: a “forma ordinária”, isto é, a liturgia pós-Vaticano II nas línguas vernáculas, e a “forma extraordinária”, ou a missa em latim pré-Vaticano II.

Estas palavras do prelado foram muito elogiadas por alguns blogueiros conservadores e tradicionalistas. Mesmo assim, um deles, o blog Rorate Caeli, destacou, através de sua conta no Twitter: “Se não há nenhum documento (e não há nenhum até agora), temos apenas uma sugestão”.

O grupo, autodefinido como “o blog tradicional católico internacional mais lido”, salientou também o uso constante de Sarah de termos como “talvez” e “de acordo com o seu juízo”.

Desde a sua eleição, Francisco celebra a missa ad orientum pelo menos uma vez por ano, por causa da tradição anual de o papa batizar os recém-nascidos de funcionários do Vaticano na Capela Sistina. Ele também vem usando o latim na liturgia durante algumas ocasiões, por exemplo: em suas viagens ao exterior.

No entanto, o papa também apoia plenamente as alterações apresentadas no documento Sacrosanctum Concilium.

Em março de 2015, quando celebrou o 50º aniversário da primeira missa conduzida em italiano, ele falou que o fato de permitir que os padres celebrassem a missa na língua da congregação local, em vez de fazê-la em latim, ajudou os fiéis a compreenderem a palavra de Deus.

“Demos graças ao Senhor por aquilo que ele fez em sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica (...). Foi um gesto realmente corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus, de modo que as pessoas fossem capazes de compreender bem o que estão fazendo”.

“Não é possível voltar atrás”, disse ele. “Sempre adiante. E aqueles que querem voltar atrás estão enganados”.

Além dos debates sobre normas e teologia, analistas observam pelo menos um obstáculo prático para a implementação da sugestão de Sarah: enquanto as igrejas construídas antes do Vaticano II foram projetadas para acomodar a posição ad orientem, muitas das que foram construídas depois não o foram assim feitas e, em alguns casos, tal mudança exigiria reformas internas significativas para adaptar o altar.

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