O que a viagem à Armênia nos diz sobre o Papa Francisco?

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29 Junho 2016

As viagens papais são importantes por muitas razões, incluindo o que revelam sobre a personalidade e as prioridades do Papa. A viagem do Papa Francisco para a Armênia nos dias 24 a 26 de junho não foi exceção. Através dela, pode-se ter uma visão mais clara sobre a importância da Argentina, sua seriedade sobre a ortodoxia e seu estilo um tanto teimoso.

A reportagem é de John L. Allen Jr. , jornalista, publicada por Crux, 27-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

As viagens papais são importantes por muitas razões, incluindo a sua importância geopolítica, seu significado para as relações com outras Igrejas Cristãs e outras religiões, seu impacto na comunidade católica local e a cobertura da mídia que elas geram.

Como resultado, viagens ao exterior estão entre os eventos anuais em que o Papa dá mais de si mesmo – mais tempo preparando discursos e gestos, mais energia pensando sobre as mensagens que pretende transmitir, e assim por diante.

Tudo isso significa que há um outro nível de interpretação cada vez que um papa pega a estrada, que é o que a excursão revela sobre a sua própria personalidade e sobre suas prioridades.

Tendo isso em mente, vale a pena perguntar o que a viagem do Papa Francisco à Armênia, entre 24 e 26 de junho, nos fala sobre o próprio pontífice. Analisando tudo o que aconteceu, três conclusões são sugeridas.

A importância da Argentina

Desde o início, tem sido marcante a frequência com que o Papa Francisco invoca o seu passado na Argentina quando pressionado a explicar uma determinada declaração ou opção política.

Há realmente muitos exemplos que podem ser contabilizados, mas para escolher apenas um quase ao acaso, é possível citar uma sessão com os sacerdotes da diocese de Roma, no início deste mês, em que o Papa Francisco provocou polêmica ao sugerir que há casos em que é melhor que os casais morem juntos por algum tempo antes do casamento, ao invés de ter um casamento forçado.

"Este é um fato social em Buenos Aires", disse ele. "Eu proibi casamentos religiosos em Buenos Aires em casos que chamamos de matrimônios de apuros, 'às pressas', quando um bebê está a caminho".

Na verdade, o Papa citou sua experiência em Buenos Aires nada menos do que cinco vezes nesta fala aos padres, em vários tópicos.

O mesmo ponto surgiu na viagem à Armênia, especialmente na conferência de imprensa que ele realizou no avião papal em seu retorno. Francisco citou a Argentina em três pontos distintos:

• Para explicar sua escolha de adicionar a palavra "genocídio" em um discurso na sexta-feira sobre os massacres sofridos pelos armênios nas mãos de turcos otomanos, em 1915; quando disse que na Argentina essa palavra é amplamente usada e que "ela foi levada comigo para Roma".

• Brincando sobre o furor em torno de sua decisão de criar uma comissão para estudar as mulheres diáconos, ele citou um ex-presidente argentino que dizia que, se você não sabe como resolver um problema, "crie uma comissão".

• Explicando por que ele acredita que os gays não são o único grupo que merece um pedido de desculpas dos cristãos, ele citou sua experiência de quando era criança, em Buenos Aires, quando "não se podia entrar na casa de uma família divorciada".

Tudo isso é bastante natural, porque a Argentina não só é casa do pontífice, mas ele é bastante conhecido por não gostar de viajar para fora do seu país. Ele passou pouco tempo de sua vida no exterior antes de ser eleito Papa. Assim, inevitavelmente seus pontos de referência serão, na sua maioria, advindos de sua experiência em seu país natal.

Em outras palavras, se você quiser entender a mente e o coração deste Papa, a Argentina é seu destino certo.

Seriedade sobre os ortodoxos

O ecumenismo, ou seja, a pressão pela unidade dos cristãos, tem sido um compromisso corporativo da Igreja Católica durante os últimos cinquenta anos, e todos os papas recentes tentaram suscitar mudança através de várias denominações e movimentos no mundo cristão.
Enquanto todos têm considerado prioridade estreitar laços com os ortodoxos, uma vez que a ruptura entre o oriente e o ocidente em 1054 é o cisma principal, em resumo, alguém pode não pensar que esta seria uma vontade pessoal de Francisco. Afinal, os ortodoxos são muitas vezes reconhecidos exatamente pelo tipo de "rigidez" doutrinária que é uma pedra no sapato deste Papa, além de sua abordagem litúrgica formalista, que realmente não faz o estilo do Papa Francisco.

No entanto, é evidente que Francisco está genuinamente empenhado na aproximação com o mundo ortodoxo.

O Cardeal Jorge Mario Bergoglio também foi do Ordinariato dos Católicos Orientais na Argentina, pois eles não tinham o seu próprio prelado e Francisco tinha laços estreitos com líderes ortodoxos no país.

Desde sua eleição, fez uma valorosa amizade com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu de Constantinopla, tornando-se seu parceiro em várias frentes – recentemente, um clérigo ortodoxo sênior disse à Crux que eles brincam bastante que Papa Francisco e Bartolomeu seriam praticamente "BBFs", melhores amigos pra sempre. Francisco também organizou um encontro histórico com o Patriarca Kirill de Moscou, em Cuba. 

Na Armênia, a implicância ecumênica da visita foi impressionante. Francisco ficou no Palácio Apostólico de Karekin II, o Catholicos da Igreja Apostólica Armênia, uma das seis igrejas ortodoxas orientais, e os dois realizaram absolutamente todas as atividades do cronograma juntos.

"Nós nos encontramos, nos abraçamos como irmãos, oramos juntos e compartilhamos as dádivas, as esperanças e as preocupações da Igreja de Cristo", disse o Papa Francisco a Karekin no domingo, depois de participar de um Divina Liturgia Ortodoxa na sede da Igreja Apostólica de Etchmiadzin.

"Sentimo-nos como um só coração e acreditamos e vivenciamos a Igreja como uma", disse ele.

Observando a linguagem corporal de Francisco durante toda a viagem, parecia claro que ele foi movido pela experiência.

Além disso, Francisco terminou a viagem avaliando positivamente o recente "Santo e Grande Concílio" das igrejas ortodoxas orientais, que sofreu um grande baque com a desistência da Igreja Ortodoxa Russa e de outras três Igrejas.

Em sua conferência de imprensa durante o voo de volta a Roma, o Papa Francisco, entretanto, considerou o fato um "passo à frente".

"Eles conseguiram se olhar uns aos outros no rosto, rezar juntos e conversar, e talvez haverá alguns resultados desse movimento", acrescentou. "Isso é positivo".

A conclusão é que, quando se trata do relacionamento entre Católicos e Ortodoxos, o Papa Francisco não está apenas falando da boca para fora – ele está falando sério.

Francisco, o teimoso

Apesar de sua merecida reputação por sua humildade e simplicidade, há um outro aspecto da personalidade do Papa Francisco que é um pouco menos comentado: ele também é teimoso como uma mula quando coloca algo na cabeça.

Sua viagem à Armênia começou e terminou lembrando-nos disso.

O Papa usou o termo "genocídio" para descrever o massacre de armênios durante a Primeira Guerra Mundial durante uma liturgia que marcava o seu centenário, em abril de 2015, em Roma, o que fez com que a Turquia suspendesse seu embaixador e emitisse um protesto diplomático.

Na preparação para esta viagem, as autoridades do Vaticano pareciam não esperar que ele usaria tal termo novamente. Em uma reunião antes da viagem, o porta-voz Federico Lombardi insistiu em que o uso recorrente do termo não era necessário e o próprio Papa recentemente disse que preferia o termo "martírio" para descrever o sofrimento atual dos cristãos no Oriente Médio.

Quando foram distribuídas aos jornalistas as cópias dos discursos de Papa Francisco previstos para a sexta-feira, a palavra "genocídio" não aparecia nenhuma vez. No entanto, ao se pronunciar perante os políticos e diplomatas, o Papa acabou utilizando a palavra "genocídio" para se referir ao que aconteceu.

No avião papal, a caminho de Roma, o Papa Francisco disse que pensou que teria sido "muito estranho" vir à Armênia e não usar o termo.

Claro, ele sabia que isso não seria bem aceito na Turquia, outro país visitado por ele e, diga-se de passagem, com clara importância estratégica e inter-religiosa para o Vaticano. Rapidamente, o vice-primeiro-ministro do país acusou o Papa de demonstrar uma "mentalidade de cruzadas" e uma autoridade do Ministério das Relações Exteriores acusou a linguagem do pontífice de complicar os esforços de paz na região.

Obviamente, no entanto, o Papa Francisco decidiu fazê-lo de qualquer maneira.

No final da viagem, o pontífice realizou mais uma de suas famosas conferências de imprensa durante o voo; neste caso, estendendo-se a quase uma hora.

Mais uma vez, ele certamente sabe que há cada vez mais críticas sobre estas sessões papais espontâneas em alguns círculos católicos. Os críticos dizem que o Papa Francisco fala demais, especialmente em ambientes que requerem uma fala de improviso em que ele corre o risco de pronunciar-se de maneira a gerar controvérsias e, às vezes, confusão sobre o papel do Papa e da Igreja em vários âmbitos.

Vários exemplos claros disso têm acontecido ultimamente, incluindo uma declaração de que a "grande maioria" dos casamentos sacramentais atuais são nulos porque os casais não entendem o que significa um compromisso de vida, e também seu comentário sobre como viver juntos às vezes é melhor do que casar às pressas por causa de uma gravidez.

Nesse contexto, teria sido compreensível se Francisco tivesse sido um pouco mais discreto e contido e não quisesse falar com os jornalistas por muito tempo, talvez, inclusive, colocando alguns limites sobre as perguntas que responderia.

Ao invés disso, lá estava ele, totalmente à vontade para falar de uma gama impressionante de temas – pedido de perdão aos gays, Brexit, Martin Luther King, mulheres diáconos, Papa Bento XVI, o Concílio Ortodoxo, entre outros. Mais uma vez, seus comentários tornaram-se o assunto do dia no meio católico, com algumas reações extremamente favoráveis ao pontífice e outras corrosivamente sugerindo que ele deve se restringir.

Outras figuras públicas podem simplesmente decidir não ir tão a fundo ou que essa agitação somente os retira de seu foco, mas o Papa Francisco claramente decidiu não se calar.

Mais uma vez, em outras palavras, este é um Papa determinado a fazer as coisas de seu próprio jeito.

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