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Por: André | 29 Junho 2016

A coalizão entre o Podemos e a Esquerda Unida manteve seu número de deputados, mas perdeu mais de um milhão de votos em relação a dezembro. E não conseguiu tomar a dianteira dos socialistas.

A reportagem é de Flor Ragucci e publicada por Página/12, 28-06-2016. A tradução é de André Langer.

“Esperem um pouquinho mais, esperem que vamos governar, que somos a força do futuro. Somos a força que culturalmente marca o destino da Espanha, construímos a Espanha nova que já vem”. Dessa maneira, Íñigo Errejón tentava, no domingo à noite, animar os milhares de simpatizantes do Podemos que, reunidos na Praça do Museu Rainha Sofia de Madri, que tomavam conhecimento de alguns resultados decepcionantes.

“Nada vai acontecer. Nada vai acontecer”, gritava a praça cheia, tentando consolar um Pablo Iglesias visivelmente frustrado por não ter conseguido ultrapassar o Partido Socialista (PSOE), o que todas as pesquisas anunciavam. O que deu errado? O que fez o Podemos perder mais de um milhão de eleitores e que a união com a Esquerda Unida não aumentasse o número de cadeiras? Estas são as perguntas com as quais a Espanha amanheceu nesta segunda-feira de ressaca eleitoral e, evidentemente, em relação às quais os membros da coalizão estão batendo cabeça.

Em suas declarações à imprensa após a reunião que a Executiva do partido teve depois das eleições para analisar os resultados, o secretário de Organização, Pablo Echenique, admitiu que o Conselho de Coordenação não foi capaz de chegar a um consenso na explicação da perda de um milhão de votos entre dezembro e o domingo passado. “Ninguém sabe por que o resultado não foi o esperado. Nem nós. Todas as pesquisas e a totalidade dos analistas políticos se equivocaram e previram algo que não aconteceu”, reconheceu Echenique.

Para jogar luz sobre o baque destas últimas eleições, a direção do Podemos encomendou uma análise “científica” que permita encontrar as razões da defasagem entre os resultados e as previsões próprias e alheias. “Decidimos analisar demograficamente o resultado e em base a isso fazer uma análise rigorosa e não dar opiniões”, assinalou Echenique. O que sim puderam defender com segurança tanto o secretário de Organização como Pablo Iglesias e o líder da Esquerda Unida, Alberto Garzón, é a continuidade da aliança de esquerda apesar de não ter alcançado as expectativas que provocou.

“O espaço de mudança representado pelo Unidos Podemos consolidou-se. Esses cinco milhões de votos não vão para nenhuma parte. Por uma simples questão demográfica acreditamos que a coalizão irá crescer”, explicou Echenique na segunda-feira. Do mesmo modo, Alberto Garzón quis desfazer dúvidas sobre o seu apoio à confluência e remarcou, em uma entrevista coletiva – depois de que também seu partido se reunira para avaliar os acontecimentos do domingo –, que essa aliança política foi “uma decisão acertada”.

A criação do Unidos Podemos, que neste dia 26 de junho fez 71 deputados com uma perda de um milhão de votos, “em termos políticos foi uma grande ideia”, assegurou Garzón, embora sem deixar de reconhecer que “não foi suficiente, já que lutou para ganhar um país e isso não conseguiu”.

O secretário-geral da Esquerda Unida continua apostando na coalizão como uma alternativa às políticas neoliberais do Partido Popular e acredita que é preciso desenvolvê-la para além do momento eleitoral. Garzón considera que este processo deve ser realizado na base da “participação e da mobilização de baixo para cima”, uma premissa que ao longo destes seis meses de negociações parece ter se descuidado.

Na opinião de Juan Carlos Monedero, ex-membro do Podemos e um dos seus fundadores, o partido sofreu os seis meses de debates estéreis no Congresso e perdeu a novidade que o catapultou em dois anos para brigar com o PSOE pela hegemonia da esquerda espanhola. “O Podemos se mimetizou na tediosa discussão parlamentar para formar governo, no tedioso debate a quatro, na estrita presença parlamentar, na falta de originalidade na organização interna. Não se trata de ser esquerdista, mas de ser original”, apontou o cientista político no começo da semana em seu blog.

Por outro lado, Monedero aponta que outra possível causa da perda de votos do Podemos seja o fato de não ter encarado o enfrentamento com o que era o seu rival natural por medo do dia seguinte às eleições, o PSOE. “O Cidadãos criticava apenas a Rajoy porque pensava se criticasse o PP que não iriam votar nele. E aí está o resultado. O Podemos fazia o mesmo com o PSOE, evitando criticar o partido para ganhar os seus eleitores, limitando-se a criticar a liderança. Dando, às vezes, a sensação de que o que realmente queria é ocupar o lugar do PSOE, sem se dar conta de que o PSOE faz parte de um mundo que já pertence ao passado”, argumenta Monedero.

Contudo, também o ex-correligionário de Iglesias mantém seu apoio à coalizão de esquerdas e entende que é o caminho correto para destronar a direita. “Se não tivessem se apresentado juntos o resultado teria sido pior”, aponta Monedero, e destaca que “o problema não está na aliança, mas em entender o que falhou, para que eleitores que apoiaram estes partidos tenham decidido não fazê-lo nestas eleições”.

Essa é a tarefa que a partir de hoje cabe à esquerda espanhola. A autocrítica paira sobre o ambiente, mas ainda sem que ninguém se atreva – exceto Monedero, que se caracteriza por não morder a língua – a solidificá-la em palavras. Os membros do Unidos Podemos acreditam que ainda é cedo e que com mais informações sobre as eleições e análises sociológicas poderão aproximar-se de conclusões mais claras. Enquanto isso, há algo que dizem em voz alta: a tristeza que lhes deu o fato de que o bipartidarismo continua a ser a opção preferida do eleitorado espanhol e a direita volta a ter o caminho aplainado para governar.

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