Não só de lixo é feita a vida, mas de eros e amor

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21 Junho 2016

Tudo o que descartamos, jogamos fora, o lixo que as civilizações humanas acumulam, não são apenas os objetos que se tornaram inúteis ou que estão se decompondo, mas também o que nós mesmos somos. Este é o lado mais preocupante - o tabu – do lixo.

Preocupa-nos porque a natureza é finita e nós participamos do seu mesmo destino. É o aspecto humano do grande problema da gestão dos resíduos na história da civilização humana. Não estamos todos nós - apesar do que afirmo aqui não ter, da minha parte, nem mesmo a mínima ironia, Emanuele Severino - destinados a terminar, a decompor-nos? Nossa viagem não é a do ser para o nada, da existência para o pó?

O artigo é de Massimo Recalcati, psicanalista e ensaísta italiano, publicado por Repubblica, 19-06-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

No entanto, o lixo não pode mais ser completamente eliminado; alguma coisa permanece indestrutível, colocando, de forma dramática, o problema de sua eliminação. Isso não acontece até mesmo na política, onde o "reciclado" é o espectro que volta incessantemente como um pesadelo, resistindo a todas as tentativas de destruição? É um fato: não existe civilização sem esgotos. Mas se é assim, se este é o destino mortal que nos espera e nos constitui como seres humanos, tudo é, realmente, para ser jogado fora? Tudo, a própria vida, se pareceria com o lixo que deve ser jogado fora? Não é este o ensino da vida de Jó, que conhece, numa progressão maléfica, a transformação de todos os seus bens - incluindo seu próprio corpo – em lixo, em sucatas indecentes?

"O lixo é o que sobra quando não há mais nada", escreve Alberto (ndr. Alessandro) Zaccuri, escritor e ensaísta, de refinada inteligência, num brilhante e recente livro sobre o tabu do lixo: Não é tudo lixo. Arte e história do lixo (Ed. La Scuola). O excedente de resíduos a eliminar se combina com o problema da falta. O lixo é o símbolo de ambos: é algo que nos assedia e exige uma colocação, mas é também algo que sinaliza a não realização do nosso desejo. Nenhum objeto é capaz de extinguir a sua falta. O discurso capitalista enfatiza, não por acaso, a surpreendente rapidez da metamorfose das coisas em lixo.

Os economistas chamam-no obsolescência: em tempos cada vez mais céleres as coisas expiram, mostrando por trás da glória efêmera da sua existência, suas raízes mortais. A cultura do consumo é a grande cultura do descartável. Nossas casas estão repletas de coisas mortas. O próprio DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) adicionou recentemente entre as novas síndromes, a daqueles que não conseguem se livrar dos objetos adquiridos, acumulando-os cemiterial e caoticamente na própria casa ("desordem de acumulo" ou "disposofobia") .

No final de sua vida, Tomás de Aquino - recorda Lacan - declara todos seus escritos nada mais são do que "sicut palea" (como palha, ndt), lixo, estrume. O brilho narcísico da imagem do grande filósofo no auge de sua fama, dá lugar ao seu destino mortal, ao seu ser "nada". Ele não procura refúgio no culto neurótico da beleza como reação defensiva para a crescente onda de resíduos, ele não acredita na bela forma que deveria salvar-nos do risco de contaminação pelo hórrido.

Não sobra, parece dizer o filósofo, que o húmus humano, lixo, imundice, palha. No entanto, como ensina fortemente a palavra de Cristo, é somente sobre a "pedra rejeitada" que se pode edificar uma possível libertação do homem do tormento do seu fim. Cristo se faz "escória" - morre como um criminoso comum na cruz - para libertar a vida da ideia niilista de que não é nada mais do que um horrível acaso. Cristo é uma escória que nos liberta do destino de nos tornarmos escórias.

Mas, o nosso tempo é o tempo da "morte de Deus": tudo reduziu-se a fragmentos, tudo está desmoronando, tudo carece de sentido, "tudo é vão e inútil", como prega o adivinho- Schopenhauer, em Assim falou Zaratustra de Nietzsche. Isso significa que tudo se tornou escória, que tudo é um conjunto de entulhos disformes, escórias, restos? O próprio mundo não seria meramente um grande esgoto?

A resposta se encontra no final poético da reflexão de Zaccuri. Trata-se de um episódio autobiográfico. Até mesmo o amor pode nascer ao longo da estrada que leva para a lata do lixo. Aconteceu num verão muitos anos atrás. No caminho para esvaziar o lixo de uma casa de férias nas montanhas, dois jovens se encontram, se conhecem e se apaixonam. No amor, como nos lembra Leonard Cohen em Suzanne, "tudo acontece em algum lugar, não se sabe onde, entre as flores e o lixo". Mas o que resiste ao lixo, à tentação de jogar tudo fora? Para Freud, o jogo da vida consiste em atrasar a fatalidade inevitável da morte. Este jogo só é possível graças a Eros: complicar, estender, fazer mais tortuoso, o caminho que nos fará palea, pó. É somente o jogo de Eros que pode fazer da vida alguma coisa diferente de uma horrenda montanha de lixo. Algo resiste. Nem tudo é para ser jogado fora. Alguma coisa pode acontecer entre o lixo e as flores. É o que aconteceu alguns anos atrás aos dois jovens, e que continua a acontecer. "O amor", escreve Zaccuri, é o que realmente "resiste".

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