Novo alerta sobre as bactérias “invencíveis”

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21 Junho 2016

Administração “preventiva” de antibióticos em animais saudáveis é uma das práticas irresponsáveis que propiciam o surgimento de superbactérias. Sede de lucros pode privar humanidade de medicamentos que, segundo alguns cálculos, aumentaram expectativa média de vida em vinte anos. 

A reportagem é de Martin Khor, publicada por Outras Palavras, 19-06-2016. A tradução é de Cauê Ameni

Mutações genéticas podem tornar ineficazes até mesmo os antibióticos de “último recurso”. Por que o uso irresponsável destes medicamentos – inclusive para alimentação do gado – tem de ser proibido sem demora. 

A resistência aos antibióticos – um processo em que eles perdem o efeito, porque as bactérias tornaram-se resistente – está ganhando nova importância na agenda global, devido à crescente consciência da imensa ameaça que representa à saúde e a sobrevivência humanas. No entanto, ainda não há ações suficiente para enfrentar tal crise, que foi debatida no encontro dos ministros da Saúde na ONU, entre 23 e 28 de maio.

O encontro foi precedido por uma noticia recente e perturbadora. Cientistas descobriram um gene, o MCR-1, que cria resistência à colistina, um poderoso antibiótico usado como último recurso para tratar de infecções quando outros medicamentos não funcionam.

Ainda mais preocupante: o gene tem a característica de ser capaz de mover-se facilmente de uma cepa de bactérias a outras espécies. Isto produz uma ameça: muitas infecções podem tornar-se intratáveis, o que nos aproximaria do pesadelo de uma era sem antibióticos efetivos. A Malásia foi um dos primeiros países em que os cientistas encontraram o gene MCR-1. Por isso, é preciso tomar providências ainda mais serias, incluive a possivel proibição do uso de colistina na alimentação animal.

O gene foi descoberto durante um estudo realizado na China. Em novembro de 2015, Yi-Yun Liu e seus colegas publicaram um artigo na revista The Lancet Infectious Diseases, em que revelaram ter encontrado o MCR-1 em 166 de 804 suínos em abate que haviam testado; em 78 de 523 amostras de carne de frango de porco a venda no varejo; e em 16 de 1.322 pacientes hospitalares.

O estudo indica que há uma cadeia na disseminação da resistência. Ela começa a partir do uso de colistina na alimentação animal e propaga-se para os animais abatidos, os alimentos e os seres humanos.

Um dos autores, o professor Jian-Hua Liu, da Universidade de Agrilcutura do Sul da China, foi citado em matéria no Guardian. Afirmou que os resultados eram extremamente preocupantes, por revelarem o surgimento do primeiro gene de resistência à polimixina, que é facilmente transmitida entre bactérias comuns, tais como E. coli e K. pneumonia.

Este resultado sugere que “a progressão da resistência extensiva a drogas — que se da quando uma bactéria é resistente a diversos fármacos – para a resistência generalizada a drogas [pandrug resistence] é inevitável”, acrescentou Liu.

A colistina pertence a uma categoria de antibióticos conhecida como polimixinas. No passado, não eram utilizados largamente, por terem efeitos tóxicos. Mas, agora, são empregados como um último recurso, quando outros antibióticos não funcionam devido a resistência.

“Todos os principais elementos estão agora reunidos, para que um mundo sem antibióticos efetivos tornese uma realidade”, disse outro co-autor do estudo, o professor Timonthy Walsh da Universidade de Cardiff, ao site da BBC News. Ele pressegue: “Se o MCR-1 tornar-se global — o que parece mais uma questão de quando que de se — e se o gene se alinhar com outros genes de resistência a antibióticos, o que sera inevitável, teremos atingido, provavelmente, o início da era sem antibióticos. Neste ponto, se um paciente estiver gravemente doente — digamos que com E. coli –, não haverá nada que se possa fazer”.

Suspeita-se que a principal razão para o surgimento e a propagação do gene seja seu o descomedido de colistina para alimentar o gado e induzir seu crescimento. De acordo com o artigo de Liu e seus colegas, grande parte do uso mundial anual do antibiótico na alimentação animal — cerca de 12 mil toneladas — está concentrado na China.

O documento menciona que, além da China, o gene MCR-1 também foi encontrado na Malásia e Dinamarca. Cientistas malasianos chegaram ao sequenciamento do DNA da bactéria em dezembro de 2014, utilizando genes que parecem ao MCR-1. A possibilidade de que o E. coli com o gene MCR-1 tenha se espalhado pelo Sudeste Asiático é “profundamente preocupante”, disseram os autores.

Depois que o documento foi publicado, novas informações revelaram que o gene MCR-1 foi encontrado em amostras de bactérias em muitos outros países: Tailândia, Laos, Brasil, Egito, Itália, Espanha, Inglaterra, País de Gales, Holanda, Argélia, Portugal e Canadá.

O aspecto mais assustador sobre o MCR-1 é a facilidade com que pode propagar sua resistência a outras espécies de bactérias por meio de um processo conhecido como transferência horizontal de genes.

Alguns anos atrás, houve um susto semelhante sobre NDM-1, um gene capaz de saltar de uma bactéria para outras espécies, tornando-as altamente resistentes a todas as drogas conhecidas — exceto duas, entre elas colistina.

Se o MCR-1 resistente a colistina se combinasse com a NDM-1, a bactéria com os genes combinados seria resistente a quase todos os fármacos.

Em 2010, foram encontrados apenas dois tipos de bactérias com o gene NDM-1E. coli e Klebsiella pneumonia. Apos alguns anos, o NDM-1 foi encontrado em mais de vinte espécies diferentes de bactéria.

A descoberta do NDM-1 e agora do MCR-1 acende o alerta vermelho para a tarefa de enfrentar a resistência anti-microbial.

Em 2012, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, alertou que todos os antibióticos já desenvolvidos estavam em risco de se tornarem inúteis. “Uma era sem antibióticos significa um ponto final na medicina moderna como a conhecemos. Doenças comuns como faringite estreptocócica ou um ferimento profundo no joelho de uma criança poderiam matar novamente”.

Uma ação imediatamente necessária a ser tomada é proibir o uso de colistina na almimentação do gado. A conceituada revista Lancet publicou um comentário em fevereiro de 2016, segundo o qual é prciso exigir das autoridade políticas a restrição ao uso de polimixinas (incluindo a colistina) na pecuária — ou estaremos diante de um número cada vez maior pacientes aos quais será preciso dizer: “Desculpe, mas não há nada que eu possa fazer para curar sua infecção”.

Outros antibióticos que são usados pelos seres humanos também deveriam ser proibidos ou rigidamente restritos para a pecuária, especialmente se são usados como indutores de crescimento.

Um Plano de Ação Global contra o risco do colapso dos antibióticos deve incluir cinco objetivos: usar medicamente apropriados na saúde humana e animal; reduzir as infecções por meio de medidas de saneamento, higiene e prevenção; reforçar a vigilância e estimular as pesquisas; educar o público tão bem quanto os médicos, veterinários e fazendeiros, sobre o uso adequado de antibióticos; e aumentar o investimento no desenvolvimento da novos remédios, ferramentas de diagnósticos e vacinas.

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