Quando se trata de construção de pontes, toda a força ao cotovelo de um santo

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08 Junho 2016

Quase 850 anos depois de ter sido assassinado na catedral de Cantuária, São Thomas Becket estava de volta no fim de semana - pelo menos, um pedaço do seu cotovelo - depois de uma semana de turnê que levantou estranhamente alguns tópicos fantasmas e perguntas incômodas.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 23-05-2016. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Centenas de pessoas foram ver um fragmento translúcido que pertence a um dos primeiros mártires da liberdade religiosa. O então arcebispo da Cantuária foi assassinado em seu altar em 1170 pelos cavaleiros de Henrique II, a quem o rei teria pronunciado as fatídicas palavras: "Quem haverá de me livrar deste padre insolente?".

Até então, uma situação bem ao estilo do século XXI. Os paralelos com o arcebispo Oscar Romero, de El Salvador, morto a tiros no altar depois que um líder paramilitar de direita emitiu um convite semelhante a seus pistoleiros, em 1980, são óbvios.

Menos óbvios são os paralelos com a Igreja e o Estado Britânico moderno, que estão frequentemente em desacordo sobre temáticas como o casamento, a educação e o tratamento de imigrantes.

"O martírio de São Thomas nos lembra o que pode acontecer quando o Estado procura dominar a crença religiosa e remodelá-la para seus próprios fins, para seus próprios valores", alertou o Arcebispo (católico) de Westminster, o Cardeal Vincent Nichols de Westminster, em um simpósio na sede londrina do Arcebispo (Anglicano) da Cantuária, Lambeth Palace.

"Quando a observância desses valores específicos se torna requisito absoluto", alertou, "estamos em um caminho que leva ao confronto."

O cardeal trouxe o fantasma daquele antigo período de atrito entre a Igreja e o Estado Inglês, citando outro mártir chamado Thomas, que também morreu nas mãos de um rei chamado Henrique.

Após o terceiro golpe de espada à sua cabeça, Thomas à Becket supostamente disse: "Em nome de Jesus e da proteção da Igreja, estou pronto para abraçar a morte."

São Thomas Morus - que, como Becket, também fora próximo do rei, mas que não poderia endossar o controle da Igreja pelo Estado de Henrique VIII - antes de sua execução, em 1535, proferiu as célebres palavras de que ele "morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro".

A extorsão da Igreja pelos ideólogos do Estado, que se seguiu à rendição da hierarquia a Henrique, é a principal razão pela qual Thomas Becket, um dos santos mais consagrados da Inglaterra ("santo mártir bem-aventurado", como Chaucer o descreveu) praticamente não teve presença física no país além de um fragmento de seu crânio no colégio jesuíta de Stonyhurst, no norte da Inglaterra.

A popularidade do culto de Becket no tempo da Reforma fica óbvia a partir de uma proclamação de 1538, ordenando que sua imagem fosse expurgada das igrejas "com o propósito de que os amados fiéis de Sua Graça não sejam mais cegamente conduzidos e forçados a cometer idolatria".

Como parte do entusiasmo para proteger os amados fiéis de idolatria, os restos mortais de Becket foram rudemente desenterrados da catedral da Cantuária e extraviados para sempre.

Os cultos que exibiram um pequeno fragmento do cotovelo de Becket na Catedral Anglicana, na semana passada, carregaram, portanto, uma certa ironia histórica.

A Abadia de Westminster é a igreja oficial do monarca reinante, que desde Henrique VIII é também governador supremo da Igreja da Inglaterra. Nas orações da noite, exibindo o osso de Becket, o Decano, o Reverendíssimo John Hall, descreveu a relação difícil de Becket com o Estado sob o mandato de um rei que procurava "governar a Igreja", enquanto o Sacristão, Canon Paul Arbuthnot, reiterou a "proteção da Igreja frente aos poderes seculares" desempenhada por Becket.

(Sem dúvida, é tudo muito diferente agora que há um primeiro-ministro que nomeia os bispos em nome da rainha.)

O outro fantasma na festa do cotovelo de Becket foi, é claro, a Europa.

Apenas uma quinzena antes de o povo britânico votar para permanecer ou sair da União Europeia, eles descobriram que a veneração a seu grande santo nacional estava viva e bem, ao longo dos séculos, na Hungria.

Descobriu-se que - em um descarado descaso pelas fronteiras, aproveitando a liberdade de movimento naquela época - o arcebispo de Esztergom, Bánfi Lukács, havia estudado com Becket, em Paris, e adotou o culto imediatamente após a canonização de seu velho amigo, em 1173.

Esztergom foi uma das primeiras dioceses europeias a adotar o culto de Becket.

Pouco tempo depois, em 1220, o túmulo de Becket foi aberto na Cantuária e dois padres húngaros presentes aproveitaram a oportunidade para expatriar um fragmento do cotovelo ( "viemos aqui e tomamos o que é nosso", a campanha para que a Inglaterra "Deixe" a União Europeia, poderia se apropriar dessas palavras)

Em sua homilia de 23 de maio na Catedral (Católica) de Westminster, o atual arcebispo de Esztergom-Budapeste e Primaz da Hungria, o cardeal Péter Erdö, soou suspeito ao pronunciar a palavra "Perdurar" - uma referência à campanha para manter o Reino Unido na União Europeia.

"Ao recordar nossa história comum, se constrói uma ponte entre nossas nações", ele começou, dispondo o tipo de linguagem de insolente, que hoje em dia só os católicos e burocratas de Bruxelas se atrevem a usar.

Erdö é formado nesta área. Ele é presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), organismo guarda-chuva que reúne as 33 conferências episcopais do velho continente, que não deve ser confundida com a Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (COMECE), órgão que representa os valores e interesses da Igreja junto das instituições europeias em Bruxelas.

O fato de que muitos poucos católicos na Grã-Bretanha ou em outros lugares já ouviram falar de qualquer uma dessas instituições - muito menos saber que o secretariado do CCEE está em São Galo, na Suíça - destaca a dificuldade em ligar os europeus com instituições transnacionais, um problema que não tem mais sido resolvido pela Igreja do que tem sido pela União Europeia.

Mas pelo menos a Igreja na Europa está unida na sua defesa dos valores fundamentais, desafiando sem medo os poderes seculares dos nossos dias. Ou não?

Nichols foi franco em sua crítica ao governo britânico por não abrir suas portas aos imigrantes sírios que se refugiam da guerra, e tem criticado ferozmente líderes políticos pelos seus "discursos do medo" sobre a imigração.

Erdö, por outro lado, afirmou que a Hungria não pode receber os refugiados por medo de incentivar o tráfico de humanos.

Mas na semana passada, todas essas diferenças foram esquecidas enquanto os ingleses se reuniam - pelo menos, alguns deles o fizeram, enquanto outros resmungavam que certamente o objetivo principal da Reforma era o de já não mais adorar ossos? - acerca da pequena relíquia do tamanho de um feijão trazida de volta do exterior.

Quando se trata de construção de pontes, pode-se dizer, se dá força ao cotovelo de Becket.

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