É hora de deixar o clericalismo no passado, de onde nunca deveria ter saído

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06 Junho 2016

Uma nova frente aberta pelo Papa Francisco em sua tentativa de reformar a Igreja Católica pode revelar-se como um de seus maiores desafios até agora. Mas é também, sem dúvida, um dos mais importantes.

"Lembro-me agora a famosa expressão: 'é a hora dos leigos' ", disse ele em uma carta, recentemente, à Pontifícia Comissão para a América Latina, "mas parece que o relógio parou".

O comentário é de Jack Valero, co-fundador do Catholic Voices e Assessor de Imprensa do Opus Dei no Reino Unido, em artigo publicado por Crux, 02-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O ressurgimento do clericalismo, advertiu, está sufocando a possibilidade de leigos assumirem seus próprios papéis na Igreja - uma das ideias-chave do Concílio Vaticano II.

Para Francisco, esta não é uma questão secundária. A menos que os leigos assumam a responsabilidade pelas missões e evangelização, diz ele na carta, "o fogo profético que a Igreja é chamada a acender nos corações de seus povos será extinto".

Em outras palavras, o principal propósito da Igreja será prejudicado, a menos que ela permita que os leigos realizem a sua vocação.

"Clericalismo" é um termo originalmente utilizado nos círculos políticos do século XIX para se referir ao que os liberais viam como o poder excessivo e influente da Igreja na vida política. Mas, em tempos mais recentes, tem sido utilizado para descrever uma atitude que identifica a Igreja com a hierarquia.

O clericalismo é uma mentalidade que leva tanto a uma ampliação indevida do papel do clero em detrimento aos direitos legítimos dos leigos, quanto à imitação por parte dos leigos dos costumes e ações dos padres. O primeiro nega à maioria dos cristãos sua responsabilidade pela evangelização; o segundo conspira a favor desse desempoderamento.

Em 2011, como Arcebispo de Buenos Aires, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio disse em uma entrevista à Agência Informativa Católica Argentina (AICA) que "nós sacerdotes tendemos a clericalizar leigos. E os leigos - não todos eles, mas muitos - suplicam que os clericalizemos, porque é mais fácil ser um servidor no altar do que um protagonista em uma vocação leiga".

Em sua carta ao Cardeal Marc Ouellet, presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, Francisco advertiu que "o clericalismo não apenas nega a personalidade de cristãos, mas tem uma tendência a diminuir e desvalorizar a graça batismal que o Espírito Santo colocou nos corações do nosso povo".

O papa acrescentou: "O clericalismo tende a ver as pessoas leigas de maneira funcional, tratando-os como servos e cortando sua iniciativa, esforços, e até mesmo a ousadia necessária para levar a Boa Nova do Evangelho a todos os ambientes da vida social e, especialmente, à vida política".

Ele voltou ao tema durante uma audiência com mulheres religiosas, em 12 de maio. Seu discurso foi ofuscado por relatos de sua decisão de estudar o papel das diáconas mulheres no princípio da Igreja, mas algumas das partes mais interessantes deste discurso eram contra o clericalismo. Ele disse às freiras que era "um perigo, uma tentação muito forte", e acrescentou: "Os leigos não sabem o que fazer sem perguntar a um padre, e por esta razão a consciência do papel dos leigos está muito defasada".

Em uma entrevista à La Croix em 9 de maio, ele refletiu sobre como os leigos podem e devem ocupar um papel central no trabalho de evangelização da Igreja, citando o exemplo da Coreia.

"Este país foi evangelizado por missionários da China, que mais tarde partiram", disse Francisco. "Então, por duzentos anos, a Coreia foi evangelizada por leigos ... Então, não há necessariamente uma necessidade de sacerdotes para a evangelização. O batismo fornece a força para evangelizar".

Antes do Concílio Vaticano II, era comum pensar na Igreja como uma instituição formada por bispos (sucessores dos apóstolos), sacerdotes (ministros ordenados), religiosos consagrados (que assumiam votos públicos) e leigos, que eram vistos como não-ordenados e não-consagrados - em outras palavras, como "nenhuma das opções anteriores".

O Vaticano II modificou isso. Seu documento chave sobre a Igreja, o Lumen Gentium, descreve a Igreja como composta pela fé de Cristo. Isso inclui os leigos, cuja missão específica consiste em trazer o mundo secular a Deus, e o clero, que tem a função de ajudar os leigos a cumprir sua missão.

Em outras palavras, os leigos evangelizam a partir de uma missão direta de Deus, o que é deles por direito, não um mandato da hierarquia.

Em novembro passado, no 50º aniversário do documento sobre os leigos, Apostolicam Actuositatem, promulgado em 1965, no final do Concílio, o Papa observou como o Vaticano II não via os leigos como membros de uma "segunda ordem" a serviço da hierarquia, mas como discípulos de Cristo.

Leigos são chamados, Francisco disse, "para animar qualquer ambiente, atividade, relação humana, de acordo com o espírito do Evangelho, trazendo luz, esperança e caridade obtida de Cristo a esses lugares que de outra forma permaneceriam estranhos à ação de Deus e abandonados à miséria da condição humana".

Ele acrescentou: "Ninguém melhor do que eles para realizar a tarefa essencial de inscrever a lei divina na vida da cidade terrena".
O que pode parecer esta visão dos leigos tomando seu devido lugar?

Alguns pensam que é sobre os leigos - homens, e ainda de maneira mais importante, mulheres – com poder na Igreja, e assumindo mais ministérios. No entanto, é precisamente isso que o Papa Francisco chama clericalismo.

"Em Buenos Aires", disse ele na recente reunião de religiosas, "eu tive essa experiência: um bom padre veio até mim e disse, 'Eu tenho um leigo muito bom na minha paróquia: ele faz isso e aquilo, ele sabe como organizar as coisas, ele faz as coisas. ... Vamos torná-lo um diácono? Ou melhor: vamos "clericalizá-lo"?

Francisco disse que rejeitou enfaticamente essa ideia.

'Não! Deixe-o continuar sendo leigo. Não torne-o um diácono.’ Isso é importante. Muitas vezes acontece de o clericalismo obstruir o correto desenvolvimento de algo".

Para Papa Francisco, a "hora dos leigos" tem a ver com a atividade pública dos leigos, e não o funcionamento interno da Igreja.

Ele alerta na carta aos bispos latino-americanos contra "a tentação de pensar que o leigo comprometido é aquele que trabalha nas tarefas da Igreja e/ou nas coisas da paróquia ou diocese, e temos refletido pouco sobre como acompanhar uma pessoa batizada em sua vida pública e cotidiana".

Como resultado, "temos gerado uma elite laica, acreditando que só eles são leigos comprometidos que trabalham nas coisas 'dos sacerdotes’, e temos esquecido e negligenciado o fiel que muitas vezes nutre sua esperança na luta diária para viver a fé. Estas são as situações que o clericalismo não pode ver, uma vez que está mais preocupado em dominar áreas do que em gerar processos".

A vida pública não se refere apenas a política, mas a todas as áreas da atividade humana - a família, o local de trabalho, lojas e restaurantes, lazer e artes. É o papel específico dos leigos de santificar cada ambiente do mundo.

Isso significa leigos se reunindo e iniciando projetos para o bem da Igreja e da sociedade, projetos que se distinguem por sua liberdade e ainda sua lealdade, abençoados pelos bispos como frutos da atividade apostólica, mas não controlados por eles.

Uma dessas iniciativas é o Catholic Voices, um projeto que eu co-fundei em 2010, que treina leigos de todas as idades e ocupações para contar a história da Igreja nas notícias, bem como em discussões e conversas cotidianas na vida comum.

Isto é como a "hora dos leigos" realmente será quando ela finalmente chegar: leigos que são tão bem preparados, tanto em sua profissão ou trabalho e no seu conhecimento das doutrinas e história da Igreja, que possam construir uma nova cidade terrena colocando Cristo no centro de todas as atividades humanas.

Isso significa políticos trabalhando para o bem comum, não para interesses particulares, médicos que cultivam a vida desde a concepção até a morte natural, advogados que estão a serviço da justiça e dos direitos humanos, jornalistas que dizem a verdade ao poder através de meios éticos, economistas motivados pelo florescimento humano no local de trabalho.

Significa simples católicos oferecendo seu trabalho a Deus, seja ele qual for, e que dão suas vidas em nome do amor àqueles a seu redor.

Precisamos de mais padres. Mas precisamos de muito mais leigos comprometidos, atentos, não como uma solução para a falta de vocações sacerdotais, mas para que os leigos finalmente assumam a sua própria função.

Quando isso acontecer - quando a "hora dos leigos" finalmente chegar - significará que o fogo profético terá sido aceso, deixando o clericalismo no passado, de onde nunca deveria ter saído.

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